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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Cecília Meireles

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 26.05.2020
07.11.1901 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
09.11.1964 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Reprodução fotográfica Correio da Manhã/Acervo Arquivo Nacional

Cecília Meireles, s.d.

Cecília Benevides de Carvalho Meirelles (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1901 - idem 1964). Poeta, cronista, educadora, ensaísta, tradutora e dramaturga. Seus três irmãos mais velhos morrem antes de ela nascer; seu pai, três meses antes de seu nascimento; e a mãe, antes de ela completar 3 anos. É criada pela avó materna, Jacinta Garcia Benevides...

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Biografia
Cecília Benevides de Carvalho Meirelles (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1901 - idem 1964). Poeta, cronista, educadora, ensaísta, tradutora e dramaturga. Seus três irmãos mais velhos morrem antes de ela nascer; seu pai, três meses antes de seu nascimento; e a mãe, antes de ela completar 3 anos. É criada pela avó materna, Jacinta Garcia Benevides, natural dos Açores, Portugal. Conclui o curso primário em 1910, na Escola Estácio de Sá, quando recebe das mãos do poeta Olavo Bilac (1865-1918), então inspetor escolar do Distrito Federal, medalha de ouro por ter concluído o curso com "distinção e louvor". Diplomando-se no curso normal do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, em 1917, o magistério torna-se uma de suas paixões, levando-a a escrever para o público infantil, em livros didáticos, como Criança, Meu Amor, de 1924, ou em poemas, como Ou Isto ou Aquilo, de 1964. Em 1922, casa-se com o artista plástico português Correia Dias (1893-1935), com quem tem três filhas - a mais nova, Maria Fernanda (1928), torna-se atriz de teatro. De 1930 a 1933, mantém no Diário de Notícias uma página diária sobre problemas de educação, que resulta um livro póstumo de cinco volumes, Crônicas da Educação, e, em 1934, organiza a primeira biblioteca infantil do Brasil, no Rio de Janeiro. Assina, em 1932, com os educadores Fernando de Azevedo (1894-1974), Anísio Teixeira (1900-1971), Afrânio Peixoto (1876-1947), entre outros, o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, marco da renovação educacional do país. Em 1935, seu marido se suicida. Cinco anos depois, Cecília casa-se com o professor e engenheiro agrônomo Heitor Vinícius da Silveira Grilo. Aposenta-se como diretora de escola em 1951, mas se mantém como produtora e redatora de programas culturais da Rádio MEC, que são reunidos postumamente no livro Ilusões da Vida, de 1976. Embora tenha estreado aos 18 anos, com o livro de sonetos Espectros, em 1919, somente com Viagem, de 1939, vencedor do Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras - ABL, encontra seu estilo definitivo. Mesmo considerada uma poeta filiada ao modernismo, seus caminhos estéticos estão mais ligados à evolução pessoal que a movimentos literários. Entre outros temas, sua obra aborda a solidão, a brevidade da vida e a religiosidade.

Comentário Crítico
Cecília Meireles é uma poeta brasileira da segunda geração modernista, mas em sua obra encontram-se influências da poesia medieval, romântica, parnasiana e simbolista, como o uso de formas fixas, especialmente o soneto, técnicas tradicionais de versificação, temas filosóficos e espirituais e linguagem elevada, que tornam a sua obra singular no contexto histórico em que é desenvolvida. Poeta intimista, próxima à abstração da música, ao sentimento religioso e à fluidez do sonho, seus temas recorrentes são o amor, a morte, o tempo e a eternidade, o que se evidencia já a partir dos títulos de seus livros, como  Vaga Música e Mar Absoluto.

Inicia a vida literária participando do grupo tradicionalista e católico que se articula dentro da revista Festa, dirigida por Tasso da Silveira, que, segundo análise de Miguel Sanches Neto (1965), se aglutina "em torno de uma visão mística contrária aos valores de um mundo industrial e mecânico que, num primeiro momento, causa deslumbramento em intelectuais e artistas do subúrbio do capitalismo, que se sonham integrados à nova civilização".1

Em seu  livro de estreia, Espectros, publicado em 1919, encontramos poemas sobre temas históricos, lendários, mitológicos ou religiosos, com personagens como Cleópatra, Maria Antonieta, Judite, Sansão e Dalila, retratados em sonetos de nítida influência simbolista, na musicalidade, melancolia e na dimensão onírica dos versos. Em obras posteriores, como Nunca Mais (1923), Baladas para el-Rey (1925), Viagem (1939), Vaga Música (1942), entre outras, a autora prossegue na investigação das possibilidades de uma "música abstrata" (para usar expressão de Alfredo Bosi (1936)), que acarretam críticas de passadismo e, ao mesmo tempo, elogios à habilidade de articulação melódica.
 
Na opinião de Miguel Sanches Neto, "os primeiros livros de Cecília Meireles apresentam uma nítida rarefação, revelando assim uma maior presença do imaginário simbolista, que vai sendo aos poucos incorporado à sua voz, marcando-lhe a diferença".2 Mar Absoluto e Outros Poemas, publicado em 1945, é considerado um dos melhores livros da autora, e concilia a vagueza e imprecisão do sentido com uma capacidade maior de síntese e força narrativa, incorporando ainda o recurso do verso livre. O poema de abertura do livro, um dos mais belos que escreve, começa com as linhas:

"Foi desde sempre o mar
E multidões passadas me empurravam
como a barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa".3 

Esse poema, assim como outros da autora, revela uma obsessão pelo mar, metáfora da fluidez, da impermanência, da transformação incessante de todas as coisas, ou seja, do tempo e da eternidade.

Água, viagem, música, sonho e Oriente são as principais pedras-de-toque da poesia de Cecília Meireles, acompanhando o conjunto de sua obra poética. O fascínio pela Índia, por exemplo, já está presente em seu livro de estreia, em que se encontra o soneto intitulado Brâmane ("Ao longe, em  suspiroso murmúrio, / Do Ganges rola a fúlgida serpente").4 A filosofia védica, expressa em obras como os Upanishads e o Bhagavad Gita, encantam a autora, que pesquisa doutrinas místicas de diferentes culturas, em busca de um humanismo universalista.  Sua viagem à Índia, onde participa de um simpósio sobre Mahatma Gandhi, inspira o livro Poemas Escritos na Índia (1961) e as traduções que faz do poeta Rabindranath Tagore.

Já os livros Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Romance de Santa Cecília (1957) e Oratório de Santa Maria Egipcíaca (publicado postumamente em 1996) são recriações poéticas de narrativas cristãs medievais, especialmente do Flos Sanctorum, que a autora lê com entusiasmo. O tema do Oratório, também abordado por Manuel Bandeira (1886-1968) no poema Balada de Santa Maria Egipcíaca, é baseado na lenda de uma pecadora que, após uma vida dedicada aos prazeres mundanos, decide partir em peregrinação a Jerusalém. No meio da jornada, não tendo moedas para pagar ao barqueiro pela travessia de um rio, oferece o seu corpo como recompensa para continuar a viagem até a cidade sagrada. A lenda religiosa é transformada por Cecília Meireles num poema dramático de grande beleza, força sonora e plasticidade, em que se destacam versos como estes:

"Sou rio, serpente,
corro para onde quero, sozinha,
para longe corro
Sou perfume de óleo fervente,
ervas, flor, semente / em viva brasa".
5 

Este poema é concebido originalmente como obra dramática e musical, para encenação no palco, com acompanhamento orquestral e canto.

A obra mais conhecida de Cecília Meireles, no entanto, é o Romanceiro da Inconfidência, publicado em 1953, que utiliza o verso em redondilha maior para construir uma narrativa poética sobre a saga dos conjurados mineiros do século XVIII, alternando o tom lírico com o épico ("Não posso mover meus passos / por esse atroz labirinto / de esquecimento e cegueira / em que amores e ódios vão").6 O que singulariza esse livro dentro da obra de Cecília Meireles, além de sua perfeição técnica, é a abordagem de um fato da história política nacional, tema pouco comum em sua produção literária. O enredo histórico, porém, é abordado de maneira alegórica, simbólica, transcendendo a sua condição temporal, como nota Miguel Sanches Neto. O Romanceiro da Inconfidência revela afinidades estéticas com os cancioneiros da Idade Média, como destaca Mário Faustino (1930-1962), e é considerado um dos poemas longos mais originais produzidos em nosso modernismo,  ao lado de obras como a Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima (1895-1953), e a Contemplação de Ouro Preto, de Murilo Mendes (1901-1975).

A vocação lírica de Cecília Meireles atinge plena maturidade com o livro Canções (1956), em que volta a empregar a métrica da redondilha, dialogando com a tradição poética portuguesa, inclusive com as cantigas de amor e de amigo, como nesta composição: "Como num exílio / como nas guerras, / meu amigo é morto, / sem nenhum conforto, / em longes terras".7 Comentando a respeito em sua História Concisa da Literatura Brasileira, diz Alfredo Bosi que "Cecília foi escritora atenta à riqueza do léxico e dos ritmos portugueses, tendo sido talvez o poeta moderno que modulou com mais felicidade os metros breves, como se vê nas Canções e no trabalhadíssimo Romanceiro da Inconfidência".8

Um livro que ocupa um lugar diferenciado no conjunto da obra da autora é Ou Isto ou Aquilo (1964), que apresenta poemas escritos para crianças utilizando recursos de linguagem como trocadilhos e paronomásias, buscando atrair o leitor para os aspectos lúdicos da poesia. Um poema que se destaca nesse conjunto é O Mosquito Escreve, construído como um acróstico, em que cada letra da palavra "mosquito" é destacada, em maiúscula, num dos versos, como neste trecho: "O mosquito pernilongo / trança as pernas, faz um M, / depois, treme, treme, treme, / faz um O bastante oblongo, / faz um S".9 A poesia de Cecília Meireles, conforme parecer de Manuel Bandeira, busca a perfeição da construção formal, valendo-se para isso tanto de recursos tradicionais quanto modernos.

Notas
1 SANCHES NETO, Miguel. Cecília Meireles e o tempo inteiriço. In: MEIRELES, Cecília. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, XXIV-XXV.
2 Idem
3 MEIRELES, Cecília. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 448.
4 ______. Cecília Meireles de Bolso. Uma Antologia Poética. Porto Alegre: L&PM, 2009, 21.
5 ______. Oratório de Santa Maria Egipcíaca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996, 34.
6 ______. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 744.
7 Idem, p. 1078.
8 BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1976, p. 513.
9 MEIRELES, Cecília. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 448.

Obras 4

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Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Espetáculos 21

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Exposições 4

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Fontes de pesquisa 7

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  • ANUÁRIO de teatro 1994. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 1996.
  • BANDEIRA, Manuel. Apresentação da poesia brasileira. Rio de Janeiro: Casa do Estudante, 1946.
  • BANDEIRA, Manuel. Balada de Santa Maria Egípcia. In: ______. Estrela da vida inteira. 2º ed. Rio de Janeiro: José Olympio, Instituto Nacional do Livro, 1970.
  • BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1976. p. 513.
  • MEIRELES, Cecília, Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. 2v.
  • MEIRELES, Cecília. Cecília Meireles de Bolso. Uma Antologia Poética. Porto Alegre: L&PM, 2009. (Coleção L&PM Pocket). p. 21.
  • MEIRELES, Cecília. Oratório de Santa Maria Egipcíaca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996. p. 34.

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