Artigo da seção pessoas João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Artigo da seção pessoas
Literatura / artes visuais / teatro  
Data de nascimento deJoão Cabral de Melo Neto: 09-01-1920 Local de nascimento: (Brasil / Pernambuco / Recife) | Data de morte 09-10-1999 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)
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Reprodução fotográfica Correio da Manhã/Acervo Arquivo Nacional

João Cabral de Melo Neto (Recife, Pernambuco, 1920 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1999). Poeta e ensaísta. Reconhecido pelo antilirismo de sua poética e pela objetividade construtiva da linguagem, destaca-se por transitar entre diferentes estilos e temáticas, prezando pela organização e racionalização textual. Tais características o diferenciam entre seus contemporâneos, os poetas da geração modernista de 45.

Vive em cidades da Zona da Mata pernambucana até os dez anos. De volta ao Recife, estuda no colégio dos irmãos maristas até 1935. Aos 22, muda-se para o Rio de Janeiro e publica seu primeiro livro de poemas, Pedra do Sono (1942).

A poesia de João Cabral é "capaz de seduzir pela pura qualidade verbal e pela capacidade de exprimir de maneira poderosa uma realidade que parece todavia nascer da experiência com a palavra", segundo o crítico Antonio Candido (1918-2017). A linguagem e o estilo do livro de estreia do poeta se afastam da tendência dominante na poesia da época, representada pela geração de 45, que propõe a redefinição de padrões mais convencionais de lirismo.

João aproxima-se do surrealismo pelo emprego frequente das palavras “sono” e “sonho” e das imagens oníricas ou livremente associadas. Ao mesmo tempo, há um princípio ordenador contrário à tendência surrealista, que se evidencia no modo como o poeta trabalha algumas imagens materiais e organiza suas emoções em torno de objetos precisos. O mesmo impulso ordenador vai aparecer também em Os Três Mal-Amados (1943), segundo livro do poeta, em prosa poética, que dialoga com o poema "Quadrilha" (1930), de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).

Nas obras seguintes, Cabral experimenta e define um estilo próprio, que se caracteriza por uma linguagem rigorosa, despojada e direta. Em O Engenheiro (1945), passa a produzir uma poesia de natureza autorreflexiva, que tematiza a própria linguagem e os recursos poéticos empregados. Embora ainda inclua poemas de filiação surrealista, esse livro já traz as bases de sua nova concepção de poesia, de acordo com a qual o poema deve resultar de uma atitude objetiva, em que as emoções aparecem racionalmente controladas.

No ano em que publica O Engenheiro, inicia sua carreira diplomática, o que o faz passar a maior parte da vida fora do Brasil.  Em 1947, servindo em Barcelona, adquire uma impressora manual e, pelo selo O Livro Inconsútil, edita obras de amigos brasileiros e espanhóis, assim como a sua Psicologia da Composição, escrita dois anos antes.

Nesse livro, a racionalização fica mais acentuada: poemas como "Fábula de Anfion e Antiode" levam ao limite a radicalidade construtiva de Cabral, que, a partir daí, utiliza um padrão de composição baseado no emprego predominante da estrofe de quatro versos, das rimas toantes, do verso de oito sílabas e do desdobramento contínuo de uma imagem em outra, até chegar àquela capaz de alcançar a aproximação máxima do objeto visado.

Sob constante vigilância da razão, seus poemas excluem sentimentos e impressões subjetivas que a matéria abordada poderia despertar no eu lírico. Em nenhum momento ele se deixa levar pela confissão, pelo apelo sentimental e pelo envolvimento emocional do leitor. O eu está fora de seu horizonte lírico, o que faz a crítica ver em sua obra uma ruptura com o lirismo ou a considerar sua expressão poética como antilírica.

Em O Cão sem Plumas (1950), a preocupação com a temática social aparece em sua poesia. A pobreza crônica e a aridez do cenário nordestino são filtradas pelo rigor da construção, da palavra trabalhada à exaustão, em sua multiplicidade de sentidos. A linguagem depurada parece encontrar aí uma temática à altura: o rio Capibaribe, rio-detrito, com sua sujeira e com a população que vive em condições subumanas às suas margens, reflexo trágico da história de miséria e atraso do país.

A matéria social, sempre articulada à estruturação formal, acentua-se no livro seguinte: O Rio ou Relação da Viagem que Faz o Capibaribe de sua Nascente à Cidade do Recife – este forma, com O Cão sem Plumas e Morte e Vida Severina (1955), o denominado tríptico do rio. Nesse longo poema de mais de 400 versos, é o próprio Capibaribe quem assume a voz poética para descrever seu percurso pelos "três Nordestes" (sertão, agreste e Zona da Mata), acompanhando a trajetória do retirante e denunciando, nas transformações da paisagem, as contradições sociais e a exploração econômica. O Recife com que se depara o Capibaribe, no fim de seu percurso, antes de desaguar no mar, aparece ainda na abertura do livro seguinte de Cabral: Paisagens com Figuras (1955).

Para alguns intérpretes de Cabral, a relação mais equilibrada entre a estruturação formal e a matéria social encontra-se no poema dramático Morte e Vida Severina, auto de natal pernambucano. Embora o poeta considere essa uma de suas obras mais fracas, o poema que fala dos dilemas da seca e da migração no Nordeste, escrito a pedido de Maria Clara Machado (1921-2001), acaba se tornando a sua obra mais popular, com adaptações para a televisão e para o teatro – como ocorre em 1965, no espetáculo do Teatro da Universidade Católica (Tuca), musicado pelo cantor Chico Buarque (1944). A obra é a primeira brasileira a receber o Prêmio Camões, em 1990.

Sem perder de vista as preocupações histórico-sociais, Cabral volta a se ocupar dos recursos formais característicos de sua poética precisa e contundente em Uma Faca Só Lâmina (1955). Segue-se a publicação dos 20 poemas dedicados a Murilo Mendes (1901-1975) reunidos em Quaderna (1960). A poética contundente de Cabral parece encontrar sua expressão mais acabada num dos poemas mais celebrados do livro, “A Palo Seco”, cuja última estrofe diz: "não o de aceitar o seco / por resignadamente, / mas o de empregar o seco / porque é mais contundente". Há, ainda, a presença significativa, em nove dos poemas, do lirismo amoroso, erótico, que surpreende num poeta antilírico por definição.

Em 1966, lança A Educação pela Pedra. No título, a educação acentua o caráter pedagógico de sua poesia, como modo de apreensão ao mesmo tempo estética e ética do real, ao passo que “pela pedra” alude ao grau de dificuldade implícito nessa dura aprendizagem.

A obra de João Cabral de Melo Neto se encontra no campo das experimentações. Embora associado à terceira geração modernista, é a construção de um estilo próprio, entre a negação de emoções do eu lírico e uma poesia de denúncia social, que caracteriza sua trajetória, focada, acima de tudo, na racionalização e organização textual.

Outras informações de João Cabral de Melo Neto:

  • Habilidades
    • Autor
    • Poeta
    • Tradutor
    • ensaísta

Obras de João Cabral de Melo Neto: (7) obras disponíveis:

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Fontes de pesquisa (3)

  • ANUÁRIO de teatro 1994. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 1996. R792.0981 A636t 1994
  • Planilha enviada pelo pesquisador Edélcio Mostaço Não Catalogado
  • Programa do Espetáculo - Morte e Vida Severina - 1980 Não catalogado

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • JOÃO Cabral de Melo Neto. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa3026/joao-cabral-de-melo-neto>. Acesso em: 17 de Nov. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7