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Teatro

Alvares de Azevedo

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 16.07.2020
12.09.1831 Brasil / São Paulo / São Paulo
25.04.1852 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

A Noite na Taverna, 1878
Alvares de Azevedo
Brasiliana Itaú/Acervo Banco Itaú

Manuel Antônio Álvares de Azevedo (São Paulo, São Paulo, 1831 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1852). Poeta, contista e dramaturgo. Um dos poetas mais populares da literatura brasileira, Álvares de Azevedo é o expoente da segunda geração romântica no país. De publicação póstuma, sua obra tem a marca do inacabamento, e no entanto é reconhecida p...

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Manuel Antônio Álvares de Azevedo (São Paulo, São Paulo, 1831 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1852). Poeta, contista e dramaturgo. Um dos poetas mais populares da literatura brasileira, Álvares de Azevedo é o expoente da segunda geração romântica no país. De publicação póstuma, sua obra tem a marca do inacabamento, e no entanto é reconhecida pela complexidade que atinge em certos momentos e pelo pioneirismo: além de mobilizar os gêneros com relativa liberdade, representa uma das primeiras manifestações da narrativa curta no Brasil.

Acredita-se que toda a sua produção, englobando poemas, contos, dramas, traduções e ensaios literários, é escrita entre o ingresso na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, em 1848, e a morte prematura, em 1852. A mitologia associada a esse período de sua vida marca boa parte da recepção crítica, predominantemente biografista. Ao lado de colegas como o poeta Aureliano Lessa (1828-1861) e o romancista Bernardo Guimarães (1825-1884), com quem forma uma república de estudantes, participa de orgias e cultos a satã, o que confere caráter biográfico a episódios narrados em seus contos. Essa característica, porém, é hoje rejeitada, com base principalmente em sua correspondência, que revela um jovem integralmente dedicado à leitura e à escrita, e no reconhecimento da consciência crítica que detém da convenção romântica, evidente no diálogo que sua obra estabelece com autores como o britânico Lord Byron (1788-1824) e o francês Alfred Musset (1810-1857).

Algo semelhante ocorre em relação aos dois temas de sua predileção: o amor e a morte. Enquanto a (própria) morte é recorrentemente cantada em seus poemas, surgindo em casos emblemáticos como em “Lembrança de morrer”, o falecimento de Maneco, como é apelidado, é associado ao clichê romântico do gênio levado prematuramente pela tuberculose. Embora acometido pela doença, falece em decorrência de um tumor na fossa ilíaca que surge após cair de um cavalo.

Já o amor comparece sobretudo como irrealização, e tem como base um retrato polarizado da mulher, especialmente nas composições de Lira dos vinte anos (1853). Ora figura angélica e intocável, ora anjo decaído e conspurcado, ela não permite a síntese de afeto e desejo sexual, de modo que a satisfação do amante é sempre adiada ou frustrada. Esse retrato feminino é atribuído à relação obsessiva que mantém com a mãe e a irmã. Antonio Candido (1918-2017), principal intérprete do poeta, associa esse conflito à natureza contraditória característica do espírito adolescente, e considera a obra do poeta a principal manifestação do romantismo brasileiro. 

O clima sombrio, o tom notívago e a presença de elementos evanescentes, como a névoa e o vapor compõem, com a noite, a ambientação mais característica da obra de Álvares de Azevedo e fornece o cenário ideal para eventos misteriosos e paixões desmedidas. Este é o caso de Macário (1855), drama em dois atos que retrata o encontro entre o protagonista homônimo e Satan e cuja primeira parte é considerada o melhor de sua produção. Estudante em viagem, Macário revela, nos diálogos, concepções semelhantes à do autor sobre o amor, a poesia, a vida e a mulher. Uma das cenas coloca os personagens a caminho de uma cidade identificável como São Paulo – que Azevedo, segundo Candido, instaura “como espaço ficcional”1.

Noite na taverna (1855), provável continuação de Macário, revela a ousada concepção alvaresiana de gêneros, já que o drama se completa na narrativa. Trata-se de um conjunto de sete partes: a primeira e a última formam uma moldura ao redor das demais, em que cinco personagens tomam voz, um a um, contando histórias em torno de temas como desejo, posse, loucura e morte, com incursões pelo horror e o macabro. 

Lidas em conjunto, as duas obras criam uma espécie de narrativa de formação às avessas, com Satan iniciando Macário na pesquisa das fronteiras entre paixão e ferocidade, humano e animal. Esse é o ponto de partida da noção de “educação pela noite”, cunhada por Candido: da matéria misteriosa e tenebrosa, o poeta aprende um estilo dilacerado e fragmentado, capaz de dar conta de paixões intensas e inconscientes. Esforço semelhante se faz presente nos inacabados O livro de Fra Gondicário e O poema do frade (1855). 

Antinacionalista em um contexto de intenso nacionalismo na literatura, encabeçado pelo romancista José de Alencar (1829-1877), Azevedo cultiva também o coloquialismo, a irreverência, a ironia e o humor, e extrai desses elementos o contraponto crítico à imagem do autor romântico sofredor e derramado. O próprio autor escreve sobre o “espírito de contradição” no prefácio à segunda parte de Lira dos vinte anos, destacando a “binomia” de um livro que qualifica como “verdadeira medalha de duas faces”.

Figura forte de um imaginário em que se fundem poesia e vida, Álvares de Azevedo deixa uma obra que, embora lembrada sobretudo pelo diabólico, o mórbido e a lubricidade, tem como marca de sua singularidade a forma crítica como mobiliza a convenção romântica.

Nota

1. CANDIDO, Antonio. A educação pela noite. 5ª ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006, p. 16.

Obras 5

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Reprodução Fotográfica Horst Merkel

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Fontes de pesquisa 12

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  • ALVES, Cilaine. O belo e o disforme: Álvares de Azevedo e a ironia romântica. São Paulo: Edusp, 1998.
  • ANDRADE, Mário de. Amor e medo. In: ______. Aspectos da literatura brasileira. 5.ed. São Paulo: Martins, 1974.
  • ANUÁRIO de teatro 1994. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 1996. R792.0981 A636t 1994
  • AZEVEDO, Álvares de. Poesias completas (ed. crítica de Péricles Eugênio da Silva Ramos; org. de Iumna Maria Simon). Campinas: Unicamp, 2002.
  • CAMILO, Vagner. Risos entre pares: poesia e humor românticos. São Paulo: Edusp, 1997.
  • CANDIDO, Antonio. A educação pela noite. 5. ed. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2006.
  • CANDIDO, Antonio. Cavalgada ambígua. In: CANDIDO, Antonio. Na sala de aula: caderno de análise literária. 8. ed. São Paulo: Ática, 2005.
  • CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2014.
  • FRANCHETTI, Paulo. Álvares de Azevedo (1831-1852). Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Disponível em: https://antigo.bbm.usp.br/node/88. Acesso em: 09 out. 2019
  • MALARD, Letícia. Álvares de Azevedo e a noite. In: Escritos de literatura brasileira. Belo Horizonte: Editora Comunicação, 1981.
  • NORBERTO, Joaquim. Álvares de Azevedo visto por alguns críticos e historiadores literários. In: AZEVEDO, Álvares. Noite na taverna. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1991.
  • OLIVEIRA, Jefferson Donizeti de. Um sussurro nas trevas: uma revisão da recepção crítica e literária de Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo. 2010. Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010. doi:10.11606/D.8.2010.tde-28092010-144643. Acesso em: 08 out. 2019

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