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Literatura

Ana Cristina Cesar

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 25.06.2020
02.06.1952 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
29.10.1983 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Ana Cristina Cruz Cesar (Rio de Janeiro RJ 1952 - idem 1983). Poeta, ensaísta, tradutora. Filha de Maria Luiza César e do sociólogo e jornalista Waldo Aranha Lenz César, um dos responsáveis, com o editor Ênio Silveira (1925-1996), pela fundação da editora ecumênica Paz e Terra. Aos sete anos, Ana Cristina tem seus primeiros poemas publicados no ...

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Biografia

Ana Cristina Cruz Cesar (Rio de Janeiro RJ 1952 - idem 1983). Poeta, ensaísta, tradutora. Filha de Maria Luiza César e do sociólogo e jornalista Waldo Aranha Lenz César, um dos responsáveis, com o editor Ênio Silveira (1925-1996), pela fundação da editora ecumênica Paz e Terra. Aos sete anos, Ana Cristina tem seus primeiros poemas publicados no jornal Tribuna da Imprensa. Entre 1969 e 1970, interrompe o curso clássico no Colégio de Aplicação da Faculdade Nacional de Filosofia, para estudar inglês no Richmond School for Girls, em Londres, pelo programa de intercâmbio da juventude cristã. Ingressa, em 1971, na Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ). Desde a vida universitária, participa ativamente da cena cultural carioca e do movimento da poesia marginal, convivendo com poetas como Cacaso (1944-1987) e intelectuais como Heloísa Buarque de Hollanda (1939). Ainda em 1971, inicia a atuação como professora, em escolas de 2º grau e de idiomas. Após a conclusão da graduação, em 1975, colabora para publicações como Opinião, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, com destaque para Beijo, importante periódico de cultura, com sete números impressos, cujo processo acompanha desde sua criação. Em 1979 lança, de forma independente, o primeiro livro de poesia, Cenas de Abril. Seguem-se Correspondência Completa, uma carta ficcional, e Luvas de Pelica, publicado em 1980. Dessa mesma época datam as primeiras traduções, atividade que se torna objeto de estudo na pós-graduação: em 1981, torna-se mestre em teoria e prática da tradução literária pela Universidade de Essex, Inglaterra. De volta ao Brasil, é contratada como analista de textos pela Rede Globo de Televisão e lança, em 1982, A Teus Pés - reunião de títulos publicados até então e ainda o inédito que nomeia o volume. Aos 31 anos, em 1983, comete suicídio. Após sua morte, o poeta e amigo Armando Freitas Filho (1940) organiza sua obra e promove o lançamento dos livros Inéditos e Dispersos, em 1985, Escritos da Inglaterra, 1988, e Escritos no Rio, 1993.

Análise

Embora comumente identificada aos poetas marginais da década de 1970, Ana Cristina Cesar emprega os procedimentos comuns ao grupo a fim de criticá-los desde o interior: simula o discurso confessional a partir de falsas correspondências e diários; alcança o tom coloquial parodiando textos da tradição literária.

Em Final de uma Ode, de Cenas de Abril (1979), o eu lírico afirma: "[...] Quisera / dividir o corpo em heterônimos - medito aqui / no chão, imóvel tóxico do tempo". Se a confissão do desejo sugere a sinceridade autobiográfica, a formulação o inscreve no cânone da poesia portuguesa, dada a referência a Fernando Pessoa, sugerida em "heterônimos", e ainda em outros trechos da composição.

Correspondência Completa (1980) é paródia desde o título, pois se compõe de apenas uma carta. A remetente, além disso, chama-se Júlia, numa quebra da identificação entre autora do livro e autora da carta, o que impede, ao leitor, a certeza de uma confissão verdadeiramente autobiográfica. No que diz respeito à linguagem, há ambiguidades e lacunas, colocando para o leitor enigmas, e não a possibilidade de identificação.

A trajetória da autora, que pode ser acompanhada em Inéditos & Dispersos - reunião de poemas escritos desde os nove anos de idade -, revela busca pessoal da expressão poética: os primeiros versos são em geral líricos, metrificados e rimados. Já em A Teus Pés (1982) são longos, apresentando tom de conversa, e frequentemente questionam a sociedade conservadora e o lugar nela destinado à mulher. É o que se lê em Sete Chaves: "[...] Não sou dama nem mulher / moderna".

A existência de uma literatura dita feminina é tema dos ensaios da autora, interessada em problemas teóricos como as relações entre literatura e história, invenção e confissão, originalidade e intertexto. Também nesses escritos se revela a ausência de identificação entre Ana Cristina e a geração marginal: "A limpidez da sinceridade nos engana, como engana a superfície tranquila do eu", escreve ela em O Poeta É um Fingidor.

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Fontes de pesquisa 9

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  • BOSI, Viviana. O risco do gato. In: SÜSSEKIND, Flora; DIAS, Tânia; AZEVEDO, Carlito (Orgs.). Vozes femininas: gênero, mediações e práticas da escrita. Rio de Janeiro: 7Letras: Fundação Casa Rui Barbosa, 2003.
  • CAMARGO, Maria Lúcia de Barros. Atrás dos olhos pardos: uma leitura da poesia de Ana Cristina César. Chapecó: Argos, 2003.
  • JUNQUEIRA, Ivan. A presença poética feminina. Ensaios Escolhidos. São Paulo: A Girafa Editora, 2005, p. 483 - 506.
  • LIMA, Regina H. Souza da Cunha. O desejo na poesia de Ana Cristina César, 1952-1983: escritura de t(e)s. São Paulo: Annablume, 1993.
  • MORICONI, Ítalo. Ana Cristina César: o sangue de uma poeta. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: Prefeitura, 1996. (Perfis do Rio; n. 14).
  • PEIXOTO, Marta. Até segunda ordem não me risque nada: os cadernos, rascunhos e a poesia-em-vozes de Ana Cristina César. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1995.
  • PEIXOTO, Marta. Sereia de papel: Ana Cristina César e as ficções autobiográficas do eu. In: SÜSSEKIND, Flora; DIAS, Tânia; AZEVEDO, Carlito (Orgs.). Vozes femininas: gênero, mediações e práticas da escrita. Organização . Rio de Janeiro: 7Letras: Fundação Casa Rui Barbosa, 2003.
  • SÜSSEKIND, Flora. Outra pele, pelica. Literatura e Vida Literária: polêmicas, diários & retratos. 2 ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004, p. 129 - 133.
  • VIEGAS, Ana Claudia. Bliss & blue: segredos de Ana C. São Paulo: Annablume, 1998. (Selo Universidade; 86, Literatura).

Como citar

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