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Torquato Neto

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 10.12.2017
09.11.1944 Brasil / Piauí / Teresina
10.11.1972 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Torquato Pereira de Araújo Neto (Teresina PI 1944 - Rio de Janeiro RJ 1972). Compositor, poeta, jornalista, ator, cineasta. Filho de um promotor público de Teresina, passa a infância na cidade, e se interessa por literatura, cordel e música regional. Em 1961, vai para Salvador para estudar. Nessa época conhece Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria...

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Biografia

Torquato Pereira de Araújo Neto (Teresina PI 1944 - Rio de Janeiro RJ 1972). Compositor, poeta, jornalista, ator, cineasta. Filho de um promotor público de Teresina, passa a infância na cidade, e se interessa por literatura, cordel e música regional. Em 1961, vai para Salvador para estudar. Nessa época conhece Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa.

Muda-se para o Rio de Janeiro em 1962 e, no ano seguinte, ingressa no curso de jornalismo da Faculdade Nacional de Filosofia. Logo começa a carreira de jornalista, no Jornal dos Sports, trabalhando como crítico musical no suplemento O Sol. Paralelamente, escreve poemas e letras de música.

O reencontro com Gilberto Gil no Rio de Janeiro rende a parceria em Louvação, gravada por Elis Regina e Jair Rodrigues em 1966. No mesmo ano, conhece Edu Lobo, com quem compõe algumas canções, entre as quais Pra Dizer Adeus, que faz muito sucesso. Em 1967, Gal Costa e Caetano Veloso gravam algumas de suas músicas, como Nenhuma Dor (com Caetano Veloso), Minha Senhora e Zabelê (com Gilberto Gil), e Gil grava obras feitas em parceria com Torquato, caso de A Rua e Louvação.

Nesse momento, ele demonstra interesse pelo rock dos Beatles e da Jovem Guarda. Com Gilberto Gil, Caetano Veloso, José Carlos Capinam, Gal Costa, Tom Zé, Rogério Duprat, Nara Leão e Os Mutantes, integra o movimento tropicalista. A proposta do grupo consiste na fusão de referências diversas como a bossa nova, ritmos regionais, rock e a chamada música brega. O comportamento questionador dos tropicalistas resulta na prisão e no exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Temendo o pior, Torquato Neto sai do Brasil no fim de 1968.

Depois de um ano morando em Londres e Paris, ele retorna ao Rio de Janeiro, consegue, em 1971, um emprego no jornal Última Hora, e cria a coluna Geleia Geral. Nesse espaço, Torquato Neto veicula notícias e críticas sobre música, poesia e cinema, privilegiando a produção dos artistas marginais com os quais se identifica. O interesse pelo cinema o conduz à participação em alguns filmes independentes, como o protagonista de Nosferato no Brasil, dirigido por Ivan Cardoso, e o diretor de O Terror da Vermelha, ambos gravados em Super-8, em 1971.

A dependência do álcool e a falta de liberdade, somadas ao isolamento provocado pelo exílio e pelo afastamento de amigos, causam-lhe profundas crises de depressão. Em busca de tratamento psiquiátrico, se interna diversas vezes em sanatórios do Rio de Janeiro e de Teresina. Ao completar 28 anos, Torquato Neto suicida-se, em casa, em 1972.

Em 1985 é produzida a coletânea Um Poeta Desfolha a Bandeira, LP acompanhado de textos e entrevistas. É lançada em CD, em 2002, a coletânea Todo Dia É Dia D, que inclui a pouco conhecida Três da Madrugada (parceria com Carlos Pinto), gravada por Gal Costa em 1973.

 

Comentário Crítico

Suas letras têm força sonora e versos ritmados, como a poesia dos livros de cordel nordestinos que ele coleciona. Essa influência pode ser percebida em uma de suas primeiras obras gravadas, o baião Vento de Maio, feito em parceria com Gilberto Gil e gravado por Nara Leão em 1967: "Desapeie dessa tristeza/que eu lhe dou de garantia/a certeza mais segura/que mais dia menos dia/no peito de todo mundo/vai bater a alegria".

Até 1967 suas composições oscilam entre o anúncio esperançoso de dias melhores com um viés político e temas intimistas. Do primeiro grupo destacam-se as canções Rancho da Rosa Encarnada (1967), parceria com Gilberto Gil e Geraldo Vandré, Vento de Maio (1966), o samba Louvação (1966), com Gilberto Gil, e a bossa nova Veleiro, com Edu Lobo. Da temática intimista, a toada A Rua (1967), a bossa nova Minha Senhora (1967) e a marcha-rancho Zabelê (1967), compostas com Gilberto Gil, a marcha-rancho Lua Nova, com Edu Lobo, e o samba-canção Pra Dizer Adeus. Esta música fala de solidão e evasão, temas relacionados a um inconformismo sempre presente em sua obra. Torquato Neto apresenta nas canções, assim como em poemas, textos jornalísticos e outros escritos, uma crítica radical aos valores predominantes na sociedade brasileira dos anos 1960, a exemplo do samba Ai de Mim, Copacabana (1968), parceria com Caetano Veloso, que questiona o apego material da classe média, que tem "medo/de não ter um fordgalaxie".

Esse é o tom da produção de Torquato Neto nos anos de 1967 e 1968, quando participa do movimento tropicalista. Uma das principais obras do grupo é Geleia Geral, composta com Gilberto Gil e lançada no LP coletivo Tropicália ou Panis et Circencis em 1968. Em acordo com o programa estético tropicalista, a canção, cantada por Gilberto Gil, mistura imagens fragmentadas que combinam elementos modernos e tradicionais, nacionais e estrangeiros: mulata e Frank Sinatra, tumbadora selvagem e TV, o iê-iê-iê dos Beatles e o bumbameuboi das festas populares brasileiras. Essa combinação produz uma imagem mítica que expõe as contradições de um Brasil arcaico e moderno, algo inconcebível para muitos compositores e intérpretes da época, que defendem a música autenticamente nacional, livre de influências estrangeiras.

Nesse mosaico, aparecem citações e paródias de Carolina, de Chico Buarque, e do samba-exaltação de Ari Barroso ("a manhã tropical se inicia/resplandecente cadente fagueira"). Geleia Geral traz ainda o verso "a alegria é a prova dos nove", citação do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, que, em 1928, defende a apropriação e transformação das influências culturais estrangeiras, praticada pelos tropicalistas.

Outra canção emblemática do LP Tropicália ou Panis et Circencis, de Torquato Neto e Caetano Veloso, interpretada por Nara Leão, é Mamãe, Coragem, paráfrase do título Mãe Coragem e Seus Filhos, peça de Bertolt Brecht. Trata-se de uma espécie de carta endereçada a uma mãe, deixada por um filho que procura consolá-la depois de ter partido para nunca mais voltar, livrando-se da opressão materna, expressa em versos como "Ser mãe/É desdobrar fibra por fibra/ Os corações dos filhos".

Ainda em 1968, Gilberto Gil lança em LP Marginália II, com parceria de Torquato. Entrecortados por diversas citações de hinos, de sons de aves e ruídos produzidos pelos arranjos de Rogério Duprat, os versos dessa canção apresentam a condição miserável e dependente do Brasil: "Aqui, o Terceiro Mundo/pede a bênção e vai dormir (...) aqui é o fim do mundo". Nessa música, Torquato Neto introduz a questão da marginalidade, tematizada pelo artista plástico Hélio Oiticica (ligado ao movimento tropicalista) na obra Seja Marginal, Seja Herói. Essa frase se torna uma espécie de lema dos tropicalistas, marginalizados por suas ideias, aparência e comportamento, considerados escandalosos para os padrões da época.

Com o fim do tropicalismo, causado pela censura e pelo exílio de seus principais representantes, Torquato Neto, assim como outros artistas, assume a condição marginal. Depois de retornar ao Brasil no fim de 1969 e romper com os tropicalistas, Torquato aproxima-se de poetas da geração mimeógrafo e do movimento concretista paulistano. Faz também parcerias esparsas com Roberto Menescal (Tudo Muito Azul), Carlos Pinto (Três da Madrugada e Todo Dia É Dia), Carlos Galvão (Sem essa Aranha, título de um filme de Rogério Sganzerla, de 1970), Nonato Buzar (Que Película), Nonato Buzar e Carlos Monteiro de Souza (Quase Adeus). Com o poeta baiano Waly Salomão prepara a Navilouca, revista que reúne a produção dos artistas marginais do início dos anos 1970, com título que faz referência à Stultifera Navis, embarcação que recolhe os loucos nas antigas cidades medievais. O projeto dessa publicação é concretizado por Salomão apenas em 1973, depois de ser suspenso pela morte prematura de Torquato Neto.

A angústia, o pessimismo e o desejo de evasão dos compositores e intérpretes brasileiros diante do avanço da repressão do regime militar, no fim da década de 1960, estão presentes em parte significativa das canções lançadas no início dos anos 1970, caso de Vapor Barato 1972), de Jards Macalé e Waly Salomão, Balada do Louco (1972), de Arnaldo Batista e Rita Lee, e diversas obras de Torquato Neto, como Let's Play That (1972), composta em parceria com Macalé. Combinando citações de poemas de Carlos Drummond de Andrade e Sousândrade, essa canção fala de um anjo louco com asas de avião, que prenuncia a condição marginal do eu lírico ao dizer que ele deve "desafinar o coro dos contentes".

Torquato Neto possui várias letras trabalhadas por artistas mais jovens, caso de Go Back, por Sérgio Brito e gravada pelos Titãs em 1984; Começar pelo Recomeço, musicada e gravada por Luis Melodia, em 1997; O Bem, o Mal, musicada e gravada por Sérgio Brito em 2000; e Daqui pra Lá, de Lá, musicada por Zeca Baleiro e Fagner, que a registra no disco Raimundo Fagner & Zeca Baleiro, em 2003.

Exposições 1

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Eventos relacionados 4

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Fontes de pesquisa 9

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  • ANDRADE, Paulo. Torquato Neto: uma poética de estilhaços. São Paulo: Annablume: Fapesp, 2002.
  • BRITTO, Paulo Henriques. A temática noturna no rock pós-tropicalista. In: DUARTE, Paulo Sérgio; NAVES, Santuza Cambraia (orgs.). Do samba-canção à Tropicália. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: Faperj, 2003, p.191-200.
  • BUENO, André. Pássaro de Fogo no terceiro mundo: o poeta Torquato Neto e sua época. Rio de Janeiro: 7Letras, 2005.
  • COELHO, Frederico Oliveira. Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal no Brasil dos anos 60 e 70. 2002. 223 f. Dissertação (Mestrado em História Social) - Programa de Pós-Graduação em História Social, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2002.
  • FAVARETTO, Celso. Tropicália, alegoria, alegria. 4. ed. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2007.
  • NAVES, Santuza Cambraia. Da Bossa Nova à Tropicália. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.
  • NETO, Torquato. Torquatália: obra reunida de Torquato Neto. Organização Paulo Roberto Pires. Rio de Janeiro: Rocco, 2004. v. 1 - Do lado de dentro.
  • SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras (vol. 2: 1958-1985). São Paulo: Editora 34, 1998. (Coleção Ouvido Musical).
  • VAZ, Toninho. Pra mim chega: a biografia de Torquato Neto. São Paulo: Editora Casa Amarela, 2005.

Como citar

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