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Literatura

Paulo Leminski

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 25.06.2020
24.08.1944 Brasil / Paraná / Curitiba
07.06.1989 Brasil / Paraná / Curitiba
Paulo Leminski Filho (Curitiba PR 1944 - idem 1989). Poeta, romancista e tradutor. Filho de Paulo Leminski, militar de origem polonesa, e Áurea Pereira Mendes, de ascendência africana. Aos 12 anos, ingressa no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, e adquire conhecimentos de latim, teologia, filosofia e literatura clássica. Em 1963, abandona a voc...

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Biografia

Paulo Leminski Filho (Curitiba PR 1944 - idem 1989). Poeta, romancista e tradutor. Filho de Paulo Leminski, militar de origem polonesa, e Áurea Pereira Mendes, de ascendência africana. Aos 12 anos, ingressa no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, e adquire conhecimentos de latim, teologia, filosofia e literatura clássica. Em 1963, abandona a vocação religiosa. Viaja a Belo Horizonte para participar da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, e conhece Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos, criadores do movimento Poesia Concreta. No ano seguinte, publica seus primeiros poemas na revista Invenção, editada pelos concretistas, e torna-se professor de história e redação em cursos pré-vestibulares, experiência que motiva a criação de seu primeiro romance, Catatau (1976). Leminski também atua como diretor de criação e redator em agências de publicidade, o que contribui para sua atividade poética, sobretudo no aspecto da comunicação visual. Fascinado pela cultura japonesa e pelo zen-budismo, Leminski pratica judô, escreve haicais e uma biografia de Matsuo Bashô. O interesse pelos mitos gregos, por sua vez, inspira a prosa poética Metaformose. Paulo Leminski exerce atividade intensa como crítico literário e tradutor, vertendo para o português obras de James Joyce, Samuel Beckett, Yukio Mishima, Alfred Jarry, entre outros. Colabora em revistas de vanguarda, como Raposa, Muda e Qorpo Estranho, e faz parcerias musicais com Caetano Veloso e Itamar Assumpção, entre outros. Em 1968, casa-se com a poeta Alice Ruiz (1946), com quem vive durante 20 anos, e tem três filhos: Miguel Ângelo (que morre aos dez anos), Áurea e Estrela. Em 7 de junho de 1989, o poeta morre, vítima de cirrose hepática.

Análise

A poesia de Paulo Leminski revela uma síntese entre a coloquialidade e o rigor da construção formal, herdada da estética concretista. O humor está presente em boa parte de sua obra poética, assim como a influência melódica da canção popular, dos recursos visuais da publicidade, dos provérbios e trocadilhos da cultura popular e da extrema concisão da poesia japonesa.

A gíria, o palavrão e a dicção urbana também são frequentes em sua obra, como mostra o poema: "o pauloleminski / é um cachorro louco / que deve ser morto / a pau a pedra / a fogo a pique / senão é bem capaz / o filhadaputa / de fazer chover / em nosso piquenique".1 Assim como elementos formais assimilados da vanguarda, como a eliminação da pontuação, o uso exclusivo de letras minúsculas, a disposição geométrica das palavras na página, o emprego de neologismos e de palavras-valise, que multiplicam as possibilidades de significação do texto.

A visualidade na obra de Leminski é mais evidente nos poemas da série sol-te, em que o poeta utiliza diferentes fontes e corpos de letras e recursos de diagramação, como no haicai visual "lua na água / alguma lua / lua alguma",2 em que as letras de cada verso aparecem repetidas na linha de baixo, invertidas, como se fossem sombras. Esse é um recurso icônico, ou seja, a imagem reproduz o sentido do poema (no caso, o reflexo da lua na água). O artesanato poético de Leminski valoriza ainda recursos da poesia tradicional, como as rimas, que são essenciais para a estrutura rítmica de seus poemas. 

Os primeiros livros do autor, Não Fosse Isso e Era Menos / Não Fosse Tanto e Era Quase e Polonaises (1980, editora do autor), foram reunidos, com o acréscimo de novos poemas, em Caprichos e Relaxos (1983), que desde a sua primeira edição exerce notável influência nas gerações mais jovens, conforme descreve o poeta e jornalista Carlos Ávila. Ávila ressalta ainda que a esfera de mito alcançada por Leminski e sua repercussão na poesia recente do Brasil deve-se também à imagem um tanto romântica e radical que se faz do escritor.

Segundo o poeta Régis Bonvicino, "a poesia de Leminski funda-se na ideia de linguagem, herança elaborada do concretismo, mas abrange um espectro largo de interesse: do político ('en la lucha de clases / todas las armas son buenas / piedras, noches, poemas') ao metalinguístico/existencial ('apagar-me / diluir-me / desmanchar-me / até que depois / de mim / de nós / de tudo / não reste mais / que o charme) e ao humorístico ('manchete: chutes de poeta / não levam perigo à meta'), que percorrem, ora como ironia, ora como cinismo, todo o livro. Leminski é experimental, em formas e conteúdos".3

Em Distraídos Venceremos (1987), o poeta curitibano mantém o uso de recursos estilísticos como o humor, os trocadilhos e as rimas inusitadas, em peças densas e reflexivas que discutem temas relacionados à história, à leitura, ao amor, à perda da fé religiosa, e sobretudo à própria poesia, como em M, de Memória: "Os livros sabem de tudo. / Já sabem deste dilema. / Só não sabem que, no fundo, / ler não passa de uma lenda".4 No final do volume, Leminski incluiu um caderno chamado Kawa Cauim: Desarranjos Florais, uma seleção de 27 haicais irônicos e concisos como este: "alvorada / alvoroço / troco minha alma / por um almoço".5 Após a morte do poeta, foram editados dois livros com poemas, La Vie em Close (1991) e O Ex-Estranho (1996), que reafirmam a posição Leminski como o nome mais destacado de sua geração.

A prosa de ficção de Leminski inclui os romances Catatau (1976), Agora É que São Elas (1984), Metaformose (1994) e o livro de contos O Gozo Fabuloso (2004). Classificar esses textos como "romances", "novelas" ou "contos", porém, é bastante arriscado, conforme escreve a crítica literária Maria Esther Maciel, pois seguem um princípio de experimentação e de mescla de todos os gêneros, não respeitando as fronteiras entre poesia, ficção ou ensaio.

Catatau, por exemplo, embora tenha uma trama ficcional que se desenvolve a partir de uma visita imaginária do filósofo francês René Descartes ao Brasil, acompanhando a comitiva de Maurício de Nassau, descarta a construção linear de tempo, espaço e personagem, própria do realismo. Aproxima-se assim de textos experimentais como o Finnegans Wake, do escritor irlandês James Joyce, ou das Galáxias, de Haroldo de Campos, especialmente no campo da invenção linguística.

O caráter inventivo de Catatau dissolve a distinção entre prosa e poesia e faz amplo uso da paródia e da sátira, sendo interpretado por alguns como um exemplo da literatura neobarroca. O estilo neobarroco surge na América Latina a partir da década de 1940 e tem como principais características a mestiçagem de estilos, a incorporação de neologismos, arcaísmos, palavras em línguas estrangeiras, citações eruditas e provérbios populares, desconsiderando fronteiras entre os repertórios culturais.

Outra faceta singular da obra de Leminski é o ciclo de biografias que ele escreve (Jesus Cristo, Leon Trotsky, Matsuo Bashô, Cruz e Sousa), reunidas no volume póstumo intitulado Vida (1990). Nesses breves relatos, o poeta curitibano faz um cruzamento de informações biográficas, históricas, literárias e culturais, numa prosa de leitura mais acessível, entre a crônica jornalística e o ensaio.
O trabalho de Leminski como tradutor não é menos notável. O poeta traduz, entre outras obras, Satiricon, de Petrônio, diretamente do latim; o relato Sol e Aço, de Yukio Mishima, e haicais de Bashô a partir dos originais japoneses; Supermacho, de Alfred Jarry, do francês; além de poemas e novelas do escritor irlandês James Joyce. Paulo Leminski deixou ainda um livro de literatura infantil, Guerra Dentro da Gente (1988); uma coletânea de ensaios, Anseios Crípticos (1986); e dezenas de parcerias musicais feitas com músicos como Caetano Veloso, Moraes Moreira, Arnaldo Antunes e Itamar Assumpção. Sua correspondência com Régis Bonvicino é publicada no livro Envie Meu Dicionário (1998), que reúne ainda textos críticos de autores como Carlos Ávila e o Boris Schnaiderman sobre o trabalho do poeta curitibano.

Notas

1. LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. São Paulo: Círculo do Livro, 1991, 85.
2. Idem, 137.
3. LEMINSKI, Paulo; BONVICINO, Régis. Envie meu dicionário. São Paulo: ed. 34, 1998, 213.
4. LEMINSKI, Paulo. Distraídos venceremos. São Paulo: ed. Brasiliense, 1987, 91.
5. Idem, 126.

Exposições 11

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Eventos relacionados 13

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Fontes de pesquisa 1

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  • Programa do Espetáculo - Caos Leminski - 2003. Não Catalogado

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