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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Francisco das Chagas

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 18.01.2021
1700
1700

Cristo da Coluna, 0018
Francisco das Chagas
Madeira

Francisco Manoel das Chagas (Bahia? 17-- -17--). Escultor ativo em Salvador em meados do século XVIII. As incertezas sobre datas e locais de seu nascimento e morte se devem ao fato de que muitos cidadãos possuíam o mesmo nome ou apelido, conforme apurado pela pesquisadora Marieta Alves (1892-1981) nos livros de registros de casamentos e óbitos d...

Texto

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Biografia
Francisco Manoel das Chagas (Bahia? 17-- -17--). Escultor ativo em Salvador em meados do século XVIII. As incertezas sobre datas e locais de seu nascimento e morte se devem ao fato de que muitos cidadãos possuíam o mesmo nome ou apelido, conforme apurado pela pesquisadora Marieta Alves (1892-1981) nos livros de registros de casamentos e óbitos da Bahia no século XVIII.

O cognome “Cabra” foi-lhe atribuído pelo escultor e cronista Manoel Raymundo Querino (1851-1923), que afirmou tê-lo extraído de um manuscrito anônimo sobre Chagas, pertencente à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. “Cabra”, na Bahia, designava o mestiço de negro com índio,mas a origem étnica de Chagas ainda está cercada de hipóteses discutíveis, como aquela de que teria sido escravo da Ordem Terceira do Carmo de Salvador (OTCS). Há registro de um escravo com o mesmo nome que havia sido deixado como herança para a ordem, mas é pouco provável de que se tratasse do escultor. Mesmo com poucas informações comprováveis a seu respeito, é considerado um dos maiores escultores baianos do período, ao lado de Manuel Inácio da Costa (1763-1857).

A circunscrição de uma produção artística e uma biografia é problemática também porque a noção de autoria nesse contexto não possui a mesma relevância que em nossos dias ou em outros momentos da história da arte. As obras são feitas por encomenda, com a prévia autorização dos órgãos religiosos que regulam quais imagens podem ser representadas. As encomendas geralmente são realizadas por meio da publicação de editais, vencidos pelo artista/artesão que as fizessem pelo menor preço. O uso de assinatura não é praticado, restando apenas o registro comercial das encomendas, que muitas vezes não menciona o nome do escultor. Muitas obras atribuídas a Chagas não têm segura comprovação. O único registro de sua produção é o termo de ajuste de 1758, da Ordem Terceira, para a realização das imagens: Senhor Crucificado, Senhor Assentado na Pedra e Senhor com a Cruz às Costas. O termo da ordem registra a intenção de pagamento de Rs.70$000 pela primeira imagem e pelas outras Rs.100$000 e Rs.50$000, respectivamente. Sua posição de destaque no cenário da época pode ser atestada pelos valores do contrato citado e o tratamento presente no termo de ajuste de mestre-escultor, designação para profissionais de maior prestígio.

A tradição oral, registrada por Manuel Querino,ainda o aponta como autor de outras esculturas, como a imagem de Nossa Senhora do Monte Carmo, acompanhada pela figura de um Menino Jesus, para o qual teria utilizado uma criança como modelo que, reza a lenda, teria falecido no dia em que a imagem foi benzida. Ao ser solicitado para a execução de outro Menino Jesus igual ao que fizera, para ser remetido a Portugal, se recusa e por esse motivo teria sido mandado à prisão e mergulhado na insanidade.

Suas obras para a ordem provavelmente foram perdidas no incêndio que atingiu sua igreja em 1788. Mas, segundo relatos de carmelitas, a imagem da Nossa Senhora do Carmo e as três imagens de Cristo teriam se salvado porque estariam no convento da ordem para serem preparadas para a procissão da Semana Santa. Porém não é comprovado o destino das imagens. Outra narrativa atribui a Chagas uma imagem do Bom Senhor dos Passos que partiu da Bahia em 1764 com destino ao Rio Grande do Sul, mas depois de três tentativas malogradas de a embarcação chegar a seu destino, a imagem permaneceu em Santa Catarina e teria dado início à  Irmandade do Bom Senhor dos Passos.

Em 1994, as obras atribuídas a Chagas Cristo Atado à Coluna e Senhor Sentado na Pedra são expostas na 24ª Bienal de São Paulo.

Comentário crítico
A produção atribuída a Francisco das Chagas, o Cabra, é considerada por alguns estudiosos como ponto culminante da escultura na Bahia do século XVIII, ao lado da produção de Manoel Inácio da Costa, então muito jovem no período em que as obras atribuídas a Chagas foram produzidas. O aprimoramento técnico e a qualidade expressiva dessas esculturas aproximam o nome de Chagas ao dos grandes mestres da escultura barroca brasileira, tais como Aleijadinho (1738-1814).

Existem documentos que comprovam que Chagas realiza, em 1758, para a Ordem Terceira do Carmo de Salvador, três imagens de episódios da Via Crucis: Senhor Crucificado, com oito palmos, Senhor Sentado na Pedra e Senhor com a Cruz às Costas (ou Senhor dos Passos). Obras esculpidas em madeira, material que prevalece na produção baiana do século XVIII. No termo de ajuste da ordem há a exigência de que o Senhor Crucificado possua olhos de vidro e unhas das mãos e dos pés de marfim. Depois de esculpidas, as imagens são pintadas por Antonio da Cruz e Sousa no mesmo ano. Ao pintor, além de mimetizar a pele e as feições, cabe o papel de vestir e estofar a figura, tarefas conhecidas como encarnação. A aglutinação de materiais diversos como pedras, vidro, tecido e pintura sobre a madeira é um recurso comum para caracterizar mais fielmente as imagem.

Outras atribuições a Chagas são feitas em relação ao Senhor Morto, Cristo Atado à Coluna, São Pedro e Senhor dos Passos, todas pertencentes à mesma ordem. Contudo, as obras não constam no termo de ajuste firmado entre as partes e são de autoria duvidosa.O Cristo Atado à Coluna, comumente atribuído ao artista pela tradição oral e pelos carmelitas, é uma das principais obras do Museu da Ordem Terceira do Carmo. O detalhamento anatômico e a deformação de fundo expressivo motivam a suspeita de que tenha sido importada ou produzida por um escultor estrangeiro presente na região.

Os escultores do período não utilizam modelo-vivo, mas sim modelos escultóricos ou riscos transmitidos pela tradição, fato que dificulta a utilização da semelhança estilística como meio para a identificação da autoria. Além disso, muitas obras sofreram intervenções ao longo do tempo devido a restaurações ou à suavização das formas acentuadas do barroco, realizada por escultores de outros períodos. A produção escultórica era fruto de um trabalho coletivo feito em oficinas. Uma única obra podia ser trabalhada por muitos artesãos e tarefas mais complexas podiam ser destinadas a especialistas, como a execução de mãos e faces.

Em Cristo Atado à Coluna, imagem que tem por objetivo representar o Cristo humano, a expressão da dor encontra-se em todo o corpo, que se contorce em reação às chibatadas. Essa escultura, assim como São Pedro e Senhor Morto, é marcada por uma expressividade que caracteriza o barroco hispânico tardio e por um detalhamento anatômico que leva os cronistas da arte baiana a suspeitarem do uso de modelo-vivo, embora essa não fosse a prática corrente no século XVIII.

Notas
1 Existe mais de uma definição para “cabra” no contexto baiano do século XVIII. Segundo Maria Helena Flexor, designa o mestiço de negro com índio. Já para Jacques Résimont, trata-se do mulato escuro. Em todo o caso, identifica um grupo social distinto tanto dos negros escravos quanto dos brancos. Cf. FLEXOR, Maria Helena Ochi. Escultura barroca brasileira: questões de autorias. Disponível em: http://www.upo.es/depa/webdhuma/areas/arte/3cb/documentos/39f.pdf. Acesso em: 20 set. 2014; RÉSIMONT, Jacques. Os escultores baianos Manoel Inácio da Costa e Francisco das Chagas, o Cabra. In: ARAÚJO, Emanuel. O universo mágico do barroco brasileiro. São Paulo: Sesi, 1998. p. 160.
2 OTT, Carlos. História das artes plásticas na Bahia: 1550 a 1900. Salvador: Alfa, 1993, v. 2, p. 47.
3 A atribuição do Senhor Morto que se encontra na Igreja da ordem, segundo Marieta Alves, é baseada no Livro de Receita e Despesa da Ordem (1754-66), que registra no período de 1757-1758 outro pagamento de Rs.128$000 ao escultor “das imagens que fez para esta ordem”, sem especificação, encomendadas anteriormente no termo de ajuste de 1758, do que se pode presumir que o Senhor Morto estivesse entre as ditas imagens. Sabe-se que Senhor Morto é certamente anterior a 1788, porque também consta da lista de imagens que teriam sobrevivido ao incêndio.

Obras 1

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Exposições 2

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Fontes de pesquisa 12

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  • ALVES, Marieta. Dicionário de Artistas e Artífices da Bahia. Salvador: Editora UFBA, 1976. 210 p.
  • ANDRADE, Mário de. Aspectos das artes plásticas no Brasil. 3. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. 96 p., il. p&b. color. (Obras completas de Mário de Andrade, 12).
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  • FLEXOR, Maria Helena Ochi. Escultura barroca brasileira: questões de autorias. In: ACTAS del III Congresso Internacional del Barroco Americano. Territorio, arte, espacio y sociedad. Universidad Pablo de Olavide, Espanha. Disponível em: http://www.upo.es/depa/webdhuma/areas/arte/3cb/documentos/39f.pdf. Acesso em: 20 set. 2014.
  • GULLAR, Ferreira (et. al). 150 anos de pintura no Brasil: 1820-1970. Rio de Janeiro: Colorama, 1989.
  • MATTOS, Aníbal. Arte colonial brasileira. Belo Horizonte: Edições Apollo, 1936.
  • OTT, Carlos. História das artes plásticas na Bahia (1550-1900) - escultura. Salvador: Alfa, 1993. 100 p., il. p&b., foto.
  • QUERINO, Manoel R. Artistas bahianos (indicações biographicas). Bahia: Officinas da Empreza “A Bahia”, 1911.
  • QUERINO, Manoel R. As artes na Bahia, escorço de uma contribuição histórica. Bahia: Officinas do “Diário da Bahia”, 1913.
  • RUY, Affonso. Convento e Ordem 3ª do Carmo. Salvador: Prefeitura de Salvador, 1949.
  • RÉSIMONT, Jacques. Os escultores baianos Manoel Inácio da Costa e Francisco das Chagas, o Cabra. In: O UNIVERSO mágico do barroco brasileiro. Curadoria Emanoel Araújo. São Paulo: Sesi, 1998. Exposição realizada no período de 30 mar. a 03 ago. 1998.
  • TIRAPELI, Percival (org.). Arte sacra colonial: barroco memória viva. Apresentação Antonio Manoel dos Santos Silva; introdução Percival Tirapeli. São Paulo: Unesp : Imprensa Oficial do Estado, 2001. 288 p.

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