Artigo da seção pessoas Francisco das Chagas

Francisco das Chagas

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Artes visuais  
Data de nascimento deFrancisco das Chagas: 1700
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Cristo da Coluna , séc. 18 , Francisco das Chagas

Biografia
Francisco Manoel das Chagas (Bahia? 17-- -17--). Escultor ativo em Salvador em meados do século XVIII. As incertezas sobre datas e locais de seu nascimento e morte se devem ao fato de que muitos cidadãos possuíam o mesmo nome ou apelido, conforme apurado pela pesquisadora Marieta Alves (1892-1981) nos livros de registros de casamentos e óbitos da Bahia no século XVIII.

O cognome “Cabra” foi-lhe atribuído pelo escultor e cronista Manoel Raymundo Querino (1851-1923), que afirmou tê-lo extraído de um manuscrito anônimo sobre Chagas, pertencente à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. “Cabra”, na Bahia, designava o mestiço de negro com índio,mas a origem étnica de Chagas ainda está cercada de hipóteses discutíveis, como aquela de que teria sido escravo da Ordem Terceira do Carmo de Salvador (OTCS). Há registro de um escravo com o mesmo nome que havia sido deixado como herança para a ordem, mas é pouco provável de que se tratasse do escultor. Mesmo com poucas informações comprováveis a seu respeito, é considerado um dos maiores escultores baianos do período, ao lado de Manuel Inácio da Costa (1763-1857).

A circunscrição de uma produção artística e uma biografia é problemática também porque a noção de autoria nesse contexto não possui a mesma relevância que em nossos dias ou em outros momentos da história da arte. As obras são feitas por encomenda, com a prévia autorização dos órgãos religiosos que regulam quais imagens podem ser representadas. As encomendas geralmente são realizadas por meio da publicação de editais, vencidos pelo artista/artesão que as fizessem pelo menor preço. O uso de assinatura não é praticado, restando apenas o registro comercial das encomendas, que muitas vezes não menciona o nome do escultor. Muitas obras atribuídas a Chagas não têm segura comprovação. O único registro de sua produção é o termo de ajuste de 1758, da Ordem Terceira, para a realização das imagens: Senhor Crucificado, Senhor Assentado na Pedra e Senhor com a Cruz às Costas. O termo da ordem registra a intenção de pagamento de Rs.70$000 pela primeira imagem e pelas outras Rs.100$000 e Rs.50$000, respectivamente. Sua posição de destaque no cenário da época pode ser atestada pelos valores do contrato citado e o tratamento presente no termo de ajuste de mestre-escultor, designação para profissionais de maior prestígio.

A tradição oral, registrada por Manuel Querino,ainda o aponta como autor de outras esculturas, como a imagem de Nossa Senhora do Monte Carmo, acompanhada pela figura de um Menino Jesus, para o qual teria utilizado uma criança como modelo que, reza a lenda, teria falecido no dia em que a imagem foi benzida. Ao ser solicitado para a execução de outro Menino Jesus igual ao que fizera, para ser remetido a Portugal, se recusa e por esse motivo teria sido mandado à prisão e mergulhado na insanidade.

Suas obras para a ordem provavelmente foram perdidas no incêndio que atingiu sua igreja em 1788. Mas, segundo relatos de carmelitas, a imagem da Nossa Senhora do Carmo e as três imagens de Cristo teriam se salvado porque estariam no convento da ordem para serem preparadas para a procissão da Semana Santa. Porém não é comprovado o destino das imagens. Outra narrativa atribui a Chagas uma imagem do Bom Senhor dos Passos que partiu da Bahia em 1764 com destino ao Rio Grande do Sul, mas depois de três tentativas malogradas de a embarcação chegar a seu destino, a imagem permaneceu em Santa Catarina e teria dado início à  Irmandade do Bom Senhor dos Passos.

Em 1994, as obras atribuídas a Chagas Cristo Atado à Coluna e Senhor Sentado na Pedra são expostas na 24ª Bienal de São Paulo.

Comentário crítico
A produção atribuída a Francisco das Chagas, o Cabra, é considerada por alguns estudiosos como ponto culminante da escultura na Bahia do século XVIII, ao lado da produção de Manoel Inácio da Costa, então muito jovem no período em que as obras atribuídas a Chagas foram produzidas. O aprimoramento técnico e a qualidade expressiva dessas esculturas aproximam o nome de Chagas ao dos grandes mestres da escultura barroca brasileira, tais como Aleijadinho (1738-1814).

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Outras informações de Francisco das Chagas:

  • Outros nomes
    • O Cabra
  • Habilidades
    • escultor

Obras de Francisco das Chagas: (1) obras disponíveis:

Exposições (2)

Fontes de pesquisa (12)

  • QUERINO, Manoel R. As artes na Bahia, escorço de uma contribuição histórica. Bahia: Officinas do “Diário da Bahia”, 1913.
  • ALVES, Marieta. Dicionário de Artistas e Artífices da Bahia. Salvador: Editora UFBA, 1976. 210 p.
  • ANDRADE, Mário de. Aspectos das artes plásticas no Brasil. 3. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. 96 p., il. p&b. color. (Obras completas de Mário de Andrade, 12).
  • FLEXOR, Maria Helena Ochi. Escultura barroca brasileira: questões de autorias. In: ACTAS del III Congresso Internacional del Barroco Americano. Territorio, arte, espacio y sociedad. Universidad Pablo de Olavide, Espanha. Disponível em: http://www.upo.es/depa/webdhuma/areas/arte/3cb/documentos/39f.pdf. Acesso em: 20 set. 2014.
  • MATTOS, Aníbal. Arte colonial brasileira. Belo Horizonte: Edições Apollo, 1936.
  • OTT, Carlos. História das artes plásticas na Bahia (1550-1900) - escultura. Salvador: Alfa, 1993. 100 p., il. p&b., foto.
  • QUERINO, Manoel R. Artistas bahianos (indicações biographicas). Bahia: Officinas da Empreza “A Bahia”, 1911.
  • RÉSIMONT, Jacques. Os escultores baianos Manoel Inácio da Costa e Francisco das Chagas, o Cabra. In: O UNIVERSO mágico do barroco brasileiro. Curadoria Emanoel Araújo. São Paulo: Sesi, 1998. 405 p., il. color. p. 152-167. Exposição realizada na Galeria de Arte do SESI, no período de 30 mar. a 3 ago. 1998. 
  • RUY, Affonso. Convento e Ordem 3ª do Carmo. Salvador: Prefeitura de Salvador, 1949.
  • BIENAL INTERNACIONAL DE SÃO PAULO, 24. , 1998, São Paulo. Núcleo histórico: antropofagia e histórias de canibalismos. Curadoria Paulo Herkenhoff, Adriano Pedrosa. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1998.
  • PONTUAL, Roberto. Dicionário das artes plásticas no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969.
  • TIRAPELI, Percival (org.). Arte sacra colonial: barroco memória viva. Apresentação Antonio Manoel dos Santos Silva; introdução Percival Tirapeli. São Paulo: Unesp : Imprensa Oficial do Estado, 2001. 288 p.

Como citar?

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  • FRANCISCO das Chagas. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa282537/francisco-das-chagas>. Acesso em: 10 de Abr. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7