Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Augusto dos Anjos

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 20.03.2017
20.04.1884 Brasil / Paraíba / Cruz do Espírito Santo
12.11.1914 Brasil / Minas Gerais / Leopoldina
Brasiliana Itaú/Acervo Banco Itaú Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Eu, 1912
Augusto dos Anjos
Brasiliana Itaú/Acervo Banco Itaú

 

Texto

Abrir módulo

Biografia

 

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Cruz do Espírito Santo, PB, 1884 - Leopoldina, MG, 1914). Poeta e professor. Nascido no Engenho Pau d'Arco, propriedade de seus pais, o advogado Alexandre Rodrigues dos Anjos e Córdula Carvalho Rodrigues dos Anjos (sinhá Mocinha), Augusto dos Anjos é alfabetizado em casa e acompanha de perto a lenta e agônica decadência da família. Matricula-se, em 1903, na Faculdade de Direito do Recife, onde toma contato com as doutrinas do cientista alemão Ernest Haeckel (1834-1919), um dos expoentes do cientificismo positivista, que influencia profundamente sua poesia. Formado, em 1907, volta para a Cidade da Paraíba (atual João Pessoa), e passa a dar aulas de português no Liceu Paraibano. Nessa época, publica poemas em jornais locais. Em 1910, casa-se com Esther Fialho, e, após desentender-se com o governador, muda-se para o Rio de Janeiro. No ano seguinte, seu primeiro filho morre prematuramente, o que abala ainda mais sua frágil saúde. Em 1912, financiado pelo irmão Odilon, é publicado seu único livro, Eu. É nomeado diretor de um grupo escolar em Leopoldina e então, em julho de 1914, muda-se para Minas Gerais. Morre em novembro do mesmo ano, vítima de pneumonia. Em 1920, seu amigo e biógrafo Órris Soares (1884-1964) publica a segunda edição de Eu, com vários poemas inéditos.

Análise

Com a publicação de Eu, em 1912, a poesia de Augusto dos Anjos tem consagração imediata. Apesar de reações em tom de censura, que condenam as supostas extravagâncias e exotismos, contrários a tudo que é moeda corrente na poesia de então, grande parte da crítica literária nem por isso deixa de reconhecer-lhe o mérito de tamanha originalidade. Estranha e nova: essa é, em suma, a tônica da primeira recepção. O modo destoante dessa poesia em relação ao que é praticado na época leva um crítico como Anatol Rosenfeld (1912-1973) a buscar um paralelo na poesia expressionista alemã - sem que se pudesse sustentar nenhum tipo de contato, muito menos influência direta. Ainda assim, há em comum entre Anjos e poetas alemães como Gottfried Benn (1886-1956), Georg Heym (1887-1912) e Georg Trakl (1887-1914) o emprego do jargão clínico-científico (especialmente da biologia e da fisiologia) para traduzir, materialmente, uma visão de mundo pessimista em termos de doença e decomposição ou negra putrefação. Trata-se, com diz Rosenfeld, de uma "poesia de necrotério na qual se disseca e desmonta 'a glória da criação' [...] [e que] lança o desafio do radicalmente feio à face do pacato burguês, desmascarando, pela deformação hedionda, a superfície harmônica e açucarada de um mundo intimamente podre".

Mas, se a poesia de Augusto dos Anjos não encontra paralelo no parnasianismo oficial ou mesmo no simbolismo (mais à margem), que lhe são contemporâneos no Brasil, as matrizes filosóficas que dão sustentação à sua visão de mundo extremamente pessimista são muito características de sua época e do meio intelectual em que ele se forma. Convergem para tal cosmovisão o monismo da biologia evolucionista do cientista alemão Ernest Haeckel; o darwinismo de Herbert Spencer (1820-1903), autor da expressão "sobrevivência do mais apto"; a filosofia do inconsciente de Karl von Hartmann (1842-1906); e a filosofia niilista da dor e da vontade cega e insatisfeita como fundamento da existência de Arthur Schopenhauer (1788-1860) - entre outros que o poeta paraibano vem a ler durante sua passagem pela Faculdade de Direito do Recife.

Com relação aos aspectos estilísticos da obra e à concepção de conjunto, Lúcia Helena chama atenção para a organicidade do livro, como se os 58 poemas de Eu consistissem num só poema, incansavelmente repensado pelo poeta e perpassado por um traçado épico que lhe confere a forma de uma cosmogonia - ou cosmo-agonia, como prefere a intérprete. Nesse conjunto, José Paulo Paes ressalta a centralidade de um poema como Os Doentes, o mais longo de todos, que funciona como um poema-súmula concentrando todos os temas dos demais. Quanto à linguagem, é ainda Anatol Rosenfeld quem observa que o estranhamento causado pela introdução do termo técnico-científico no domínio da poesia é como "um elemento anorgânico que interrompe o contínuo orgânico da língua, arrebatando-lhe o turvo conformismo. O termo especializado é, precisamente em consequência da sua artificialidade esotérica, um elemento alienígena que revela, através de sua alienação radical e sem concessões, a alienação encoberta da língua histórica" que já não é capaz de exprimir, por sua usualidade ou vulgaridade, o significado de cada coisa. "Augusto dos Anjos fala muitas vezes da angústia da palavra e, certa vez, da esperança de poder 'inventar... outro instrumento' para reproduzir o seu sentimento (Versos de Amor)."

Mais recentemente, Francisco Foot Hardman vem falar de uma estética antitropicalista que irmana a poesia de Augusto dos Anjos, por exemplo, à prosa contemporânea de Euclides da Cunha (1866-1909), aproximação já uma vez estabelecida por Gilberto Freyre (1900-1987). Observa, assim, que a "natureza tropical exuberante nunca inspirou os versos de Eu e outras poesias, que se afastam dela, até heroicamente. As paisagens lhe aparecem marcadas por signos da morte. A exuberância animal ou vegetal já antecipa seus sinais de decrepitude e fim. O excesso de luz solar não é imagem indiciária da vida, mas sim de um poder destrutivo". O alcance crítico da negatividade presente na poesia de Augusto dos Anjos está, segundo Hardman, em marcar "oposição ao otimismo da belle époque carioca, vazado na ideia de a literatura ser 'o sorriso da sociedade' ", como afirma a estética oficial do período. Num livro cujo título enfatiza essa primeira pessoa do singular que constitui a própria matéria do gênero lírico, nota Sérgio Alcides que, paradoxalmente, "o tema da poesia de Augusto dos Anjos é precisamente o fracasso do 'Eu' e a desagregação da subjetividade como valor fundamental da chamada 'civilização' ocidental".

Obras 2

Abrir módulo
Brasiliana Itaú/Acervo Banco Itaú Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Eu

Espetáculos 1

Abrir módulo

Fontes de pesquisa 20

Abrir módulo
  • ALCIDES, Sérgio. Augusto dos Anjos e o mito do "Eu". In: ETTORE Finazzi-Agró, Roberto Vecchi e Ma. Betânia Amoroso (orgs.). Travessias do pós-trágico: os dilemas de uma leitura do Brasil. São Paulo: Unimarco Ed.,2006.
  • ALMEIDA, Horácio de. As razões da angústia em Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro; Ouvidor, 1962.
  • ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. Organização e introdução Antonio Arnoni Prado. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
  • ANUÁRIO de teatro 1994. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 1996. R792.0981 A636t 1994
  • BARROS, Eudes. A poesia de Augusto dos Anjos: uma análise de psicologia e estilo. Rio de Janeiro: Ouvidor, 1974.
  • COUTINHO, Afrânio. BRAYNER, Sônia (orgs.). Augusto dos Anjos: textos críticos. Brasília, INL, 1973.
  • GULLAR, Ferreira. Augusto dos Anjos ou vida e morte nordestina. In: ANJOS, Augusto dos. Toda a poesia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
  • HARDMAN, Francisco Foot. Augusto dos Anjos e o antitropicalismo. In: FINAZZI-AGRÓ, Ettore, VECCHI, Roberto e AMOROSO, Maria Betânia (orgs.). Travessias do pós-trágico: os dilemas de uma leitura do Brasil. São Paulo: Unimarco Ed.,2006.
  • HELENA, Lúcia. A cosmo-agonia de Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1977.
  • MAGALHÃES JR., Raimundo. Poesia e vida de Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1977.
  • MELO, A.L. Nobre de. Augusto dos Anjos e as origens de sua arte poética. Rio de Janeiro: José Olympio, 1942.
  • PAES, José Paulo. As quatro vidas de Augusto dos Anjos. São Paulo: Pégaso, 1957.
  • PAES, José Paulo. Augusto dos Anjos e o Art Nouveau - Do particular ao universal. In: ______. Gregos e Baianos. São Paulo, Brasiliense, 1985. p.81-98.
  • PAES, José Paulo. Augusto dos Anjos ou o evolucionismo às avessas. In: ANJOS, Augusto dos. Os melhores poemas de... São Paulo: Global, 1997.
  • PAES, José Paulo. Gregos e baianos. São Paulo: Brasiliense, 1985.
  • PROENÇA, M. Cavalcanti. Augusto dos Anjos e outros ensaios. Rio de Janeiro/Brasília: Grifo/INL/MEC, 1973.
  • REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos. São Paulo: Abril Educação, 1982.
  • REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. Edição Crítica. São Paulo: Ática, 1977.
  • ROSENFELD, Anatol. A costela de prata de Augusto dos Anjos. In: _____. Texto/contexto. São Paulo: Perspectiva, 1969.
  • VIDAL, Ademar. O outro eu de Augusto dos Anjos. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1977.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: