Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

Gonçalves Dias

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 30.08.2021
10.08.1823 Brasil / Maranhão / Caxias
03.11.1864 Brasil / Maranhão / Guimarães
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Primeiros Cantos, 1846
Gonçalves Dias
Coleção Brasiliana Itaú

Antônio Gonçalves Dias (Caxias, Maranhão, 1823 - Guimarães, Maranhão, 1864). Poeta, dramaturgo, ensaísta e cronista. Filho de um comerciante português e uma mestiça. É considerado um dos representantes autênticos do romantismo brasileiro. Em 1840, ingressa no curso de direito da Universidade de Coimbra, em Portugal, recebe formação clássica e, a...

Texto

Abrir módulo

Antônio Gonçalves Dias (Caxias, Maranhão, 1823 - Guimarães, Maranhão, 1864). Poeta, dramaturgo, ensaísta e cronista. Filho de um comerciante português e uma mestiça. É considerado um dos representantes autênticos do romantismo brasileiro. Em 1840, ingressa no curso de direito da Universidade de Coimbra, em Portugal, recebe formação clássica e, ao contrário de seus contemporâneos, é mais influenciado pela literatura portuguesa que pela francesa. Nessa época, conhece a poesia de Almeida Garrett (1799-1854) e Alexandre Herculano (1810-1977), além de se ligar aos chamados "medievalistas", como José Freire Pimentel de Serpa, diretor da Gazeta Literária, e João de Lemos (1819-1890), fundador de O Trovador. Cultiva o sentimento nacionalista, evidenciado em seu livro de estreia, Primeiros Cantos, de 1846. Canção do Exílio, parte desse volume, até hoje é um dos poemas mais populares do Brasil. Gonçalves Dias ganha a simpatia do imperador dom Pedro II (1825-1891) e é nomeado para várias missões tanto no país quanto na Europa. Por isso viaja e dedica-se a estudos etnográficos e históricos. A partir de 1859, por três anos, chefia a seção etnográfica de uma comissão de exploração que trabalha do Amazonas à Paraíba, até que se vê obrigado a ir para a Europa por problemas de saúde. No retorno ao Brasil, seu navio, o Ville de Boulogne, naufraga; todos os passageiros conseguem se salvar, mas o poeta, muito fragilizado, morre afogado, próximo de sua província natal. Sua produção é variada, com poesias líricas, épicas e dramáticas, igualmente importantes.

Comentário Crítico
A obra de Gonçalves Dias é a primeira realização romântica de inquestionável grandeza, à altura da poesia dos grandes árcades que o antecedem, como Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) e Tomás Antônio Gonzaga (1744-1819). Vinculada à primeira geração, marcando a transição do arcadismo ao romantismo, sua poesia herda ainda certa contenção e senso de equilíbrio clássicos, embora o temário, a riqueza simbólica e a plasticidade musical sejam, já, plenamente românticos. Esse resíduo clássico em sua obra, como diz o crítico José Guilherme Merquior (1941-1991), ajuda a filtrar os derramamentos românticos, e a ele se deve, também, o domínio da língua, alcançado pelo estudo cuidadoso de portugueses antigos, como Luís de Camões (1524-1580), e contemporâneos como Alexandre Herculano (1810-1877). Sob a influência deste e do grupo de poetas medievalistas de Coimbra, Gonçalves Dias cultiva a lírica trovadoresca, chegando ao virtuosismo de versejar em português arcaizante nas Sextilhas de Frei Antão.

Outro exemplo do valor estético de suas criações ligadas ao passado histórico é o drama Leonor de Mendonça, tragédia dos sentimentos nobres vencidos pela intolerância do preconceito. Gonçalves Dias vai dar forma poética mais acabada e elevada à principal vertente do nacionalismo romântico: o indianismo, que atende ao desejo da jovem nação recém-independente de afirmar, também no plano da cultura, sua identidade própria e autonomia em relação à antiga metrópole. Na publicação de seu livro de estreia, Primeiros Cantos, o poeta maranhense é saudado por Herculano, que destaca, no prefácio, sobretudo a seção intitulada poesias americanas, vista como a expressão nova e original "da nação infante que sorri, enquanto o aborrido Portugal se resvala em seu leito de morte". Herculano lamenta, entretanto, que fossem em número tão reduzido. De fato, nesse e nos outros livros, a parcela de poemas americanos que fazem a fama do poeta maranhense é sempre bem menor que o restante do conjunto, representado pela lírica amorosa e pela poesia meditativa dos hinos, por exemplo. Isso, é claro, descontado o poema épico inacabado Os Timbiras.

Para que o índio seja elevado à condição de mito nacional, é necessário submetê-lo a uma espécie de deformação idealizante, eliminando dessa imagem tudo que possa contrariar o estatuto de herói e os valores morais e cristãos da civilização ocidental. Para esse retrato idealizado, são tomados os atributos do cavaleiro medieval e da ética cortês (nobreza, coragem, lealdade...) a fim de fazer o índio, como antepassado do brasileiro, equiparar-se qualitativamente ao conquistador. Com isso, explica Antonio Candido (1918), o indianismo surge não apenas como passado mítico e lendário, mas também como passado histórico, à maneira da Idade Média, de modo que lenda e história se fundem num esforço de suscitar um mundo poético digno. O temário indianista serve, assim, como compensação à inexistência de um passado medieval ligado ao país e tão valorizado pelos românticos europeus.
 
Na poesia de Gonçalves Dias, uma das representações mais acabadas dessa associação entre o índio e o cavaleiro medieval está em I-Juca Pirama, seguido pelos heróis indígenas de poemas como Canto do Guerreiro e Canto do Índio. À imagem idealizada e cavaleiresca do índio, contrapõe-se a visão destrutiva da ação do colonizador português. Há na poesia indianista de Gonçalves Dias uma concepção trágica da colonização, que, segundo o crítico Alfredo Bosi (1936), já aparece no livro Primeiros Cantos, em que desponta a consciência das atrocidades reservadas às tribos tupis com a conquista europeia. Poemas como O Canto do Piaga dramatizam essa consciência na medida em que põem em cena um pajé, num período que antecede a descoberta, profetizando o massacre que dizimaria os índios assim que os portugueses descessem de suas caravelas. Essa visão trágica da conquista parece se justificar pelo antilusitanismo que marca o espírito de revoltas regionais como a Balaiada, pois Gonçalves Dias vivencia na província natal as tensões desde a independência nacional até essas rebeliões do nativismo exaltado latino-americano contra a persistência da dominação portuguesa mesmo depois de 1822.

Outra faceta da poesia de Gonçalves Dias é representada pelos hinos e poemas lírico-amorosos. Nos primeiros, percebe-se o diálogo com a poesia religiosa de Herculano e de Sousa Caldas (1762-1814). Nesses poemas meditativos, o gosto e o sentimento da solidão levam Antonio Candido a aproximar o poeta maranhense de grandes nomes da poesia romântica europeia que revelam o mesmo discernimento austero e comovido em face da natureza, como o inglês William Wordsworth (1770-1850) e o italiano Giacomo Leopardi (1798-1837). Quanto à poesia amorosa, nota-se o diálogo com o lirismo quinhentista da tradição portuguesa, como se vê em Olhos Verdes e Menina e Moça. Em outros momentos, percebe-se a herança arcádica de Tomás Antonio Gonzaga e Silva Alvarenga (1749-1814) presente em poemas como Rosa no Mar. Entre seus poemas de amor mais famosos, destaca-se Ainda uma Vez - Adeus. A lírica amorosa também chega a se unir à indianista em poemas como Leito de Folhas Verdes, espécie de cantiga de amigo cabocla, considerada um dos mais altos momentos da poesia de Gonçalves Dias.

Obras 3

Abrir módulo

Espetáculos 7

Abrir módulo

Fontes de pesquisa 8

Abrir módulo
  • ANUÁRIO de teatro 1994. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 1996. R792.0981 A636t 1994
  • BANDEIRA, Manuel. Gonçalves Dias. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editores, 1952.
  • DIAS, Gonçalves. Literatura comentada. 2ª ed. Estudo de Beth Brait. São Paulo: Nova Cultural, 1988.
  • DIAS, Gonçalves. Poesia e prosa completas. Organização de Alexei Bueno. Textos críticos de Manuel Bandeira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998.
  • DIAS, Gonçalves. Poesia. 13ª ed. Organização de Manuel Bandeira. Rio de Janeiro: Agir, 1989.
  • MONTELLO, Josué. Para conhecer melhor Gonçalves Dias. Rio de Janeiro: Bloch Editores, 1973.
  • Programa do Espetáculo - Leonor de Mendonça - 1974. Não catalogado
  • RICARDO, Cassiano. O indianismo de Gonçalves Dias. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1964.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: