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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Victor Dubugras

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
1868
1933 Brasil / Rio de Janeiro / Teresópolis
Reprodução Fotográfica Romulo Fialdini

Projeto para a estação de Mairinque, São Paulo, 1906
Victor Dubugras

Victor Dubugras (Sarthe, França 1868 - Teresópolis RJ 1933). Arquiteto. Nascido na França, Dubugras é criado em Buenos Aires. Não se sabe muito sobre o período que passa na Argetina nem sobre sua formação, sabe-se apenas que trabalha no escritório do arquiteto italiano Francesco Tamburini1 - um dos autores do projeto do Teatro Colón -, e que con...

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Biografia
Victor Dubugras (Sarthe, França 1868 - Teresópolis RJ 1933). Arquiteto. Nascido na França, Dubugras é criado em Buenos Aires. Não se sabe muito sobre o período que passa na Argetina nem sobre sua formação, sabe-se apenas que trabalha no escritório do arquiteto italiano Francesco Tamburini1 - um dos autores do projeto do Teatro Colón -, e que concebe o projeto de um edifício, em 1886, e de uma igreja neogótica, em 1889, em La Plata. Em 1891, com a morte de Tamburini, Dubugras muda-se para São Paulo, e trabalha até 1894 na carteira imobiliária do Banco União, dirigida por Ramos de Azevedo (1851-1928), e, em 1894, 1895 e 1897, no Departamento de Obras Públicas de São Paulo - DOP. Sua atividade como arquiteto autônomo na cidade data de 1896, mas é apenas entre 1897 e 1898 que abre o próprio escritório. Em 1894 é convidado a ministrar a disciplina de desenho sobre trabalhos gráficos na Escola Politécnica de São Paulo - Poli. Ali o título de "professor de aula" - cargo atribuído aos arquitetos sem diploma de nível superior - comprova a tese de que Dubugras não cursa nem conclui nenhum curso de arquitetura ou engenharia na Argentina.2 A ausência do diploma, entretanto, não o impede de dar aulas na Poli, onde permanece até 1928, quando se aposenta, nem de participar da fundação da Sociedade dos Arquitetos e do Instituto de Engenharia, em 1916.

Na década de 1910, Dubugras colabora com o engenheiro Saturnino de Brito (1864-1929) nos projetos do Sanatório Popular e das Habitações Proletárias Salubres e Econômicas, ambos não construídos, em Santos, cidade para a qual o engenheiro desenvolve obras de saneamento. Ainda nessa década, Dubugras acompanha o então prefeito da cidade de São Paulo, Washington Luís (1870-1970), posteriormente governador do Estado (1920-1926) e presidente da república (1926-1930) em viagens pelos arredores de São Paulo para o levantamento da arquitetura do período colonial, engajando-se na campanha neocolonial. A convite de Washington Luís, de quem se torna amigo, concebe dois conjuntos arquitetônicos de grande repercussão na época: a Ladeira da Memória, 1919, e os Pousos e Monumentos da Serra de Paranapiacaba, 1921/1922, dedicados às comemorações do Centenário da Independência do Brasil.

Além dessas obras públicas de grande porte, Dubugras desenvolve centenas de projetos particulares, de residências a edifícios comerciais, no centro da cidade de São Paulo e nos novos bairros paulistanos de elite, como Vila Buarque, Higienópolis e Cerqueira César, não se restringindo ao neocolonial, mas experimentando linguagens muito diversas. Em 1927/1928, Dubugras se transfere para o Rio de Janeiro, e dá continuidade a sua obra, concentrando-se na clientela particular. Recebe medalha de ouro na Exposição Geral de Belas Artes do Rio de Janeiro, em 1916 e a medalha de prata no Congresso Pan-Americano de Arquitetos em Buenos Aires, em 1927.

Comentário Crítico
Victor Dubugras é considerado um dos precursores da arquitetura moderna na América Latina, sendo comparado a arquitetos proeminentes no cenário europeu e americano contemporâneo, como Antoni Gaudí (1852-1926), Victor Horta (1861-1947), Charles Rennie Mackintosh (1868-1928), Auguste Perret (1874-1954) e Frank Lloyd Wright (1869-1959).3 Dos anos 1890, quando chega a São Paulo, até a década de 1930, quando encerra sua produção, Dubugras acompanha o desenrolar da história da arquitetura latino-americana, transitando entre o ecletismoart nouveauneocolonial e modernismo. Esse trânsito, realizado de modo inconsistente pela maioria dos arquitetos e engenheiros da época, em Dubugras é orientado pela preocupação constante com a racionalidade dos processos construtivos e o esforço permanente de experimentação de soluções plásticas e técnicas inovadoras. Essas preocupações justificam o seu pioneirismo e são compartilhadas por outros agentes da modernidade em curso em São Paulo, como os engenheiros Antonio Francisco de Paula Souza (1843-1917), Hippolyto Gustavo Pujol Júnior (1880-1952) e Alexandre de Albuquerque (1880-1940) da Escola Politécnica de São Paulo - Poli.

As primeiras obras do arquiteto no Brasil são neogóticas, seguindo a orientação do Departamento de Obras Públicas de São Paulo - DOP, onde trabalha até 1897. O neogótico de Dubugras, entretanto, é bastante particular, como se percebe pela obra da Câmara Municipal e Cadeia de Santa Bárbara, 1896, no interior do Estado de São Paulo. Aproximando-se do racionalismo estrutural de Viollet-le-Duc (1814-1879) e do movimento Arts and Crafts inglês, mais especificamente de Philip Webb (1831-1915) e William Morris (1834-1896), Dubugras segue nesse projeto os princípios de verdade construtiva, deixando à mostra as paredes estruturais de tijolos de barro, como no projeto de sua residência em São Paulo (1896).

Nos anos de 1903 a 1914, o arquiteto abre dois campos de experimentação: um vinculado à linguagem art nouveau e outro protomodernista. Do primeiro destacam-se as residências paulistanas Numa de Oliveira, 1903 (demolida), Horácio Sabino, 1903 (demolida), Vila Nenê, 1903/1910 (demolida) e o projeto que obteve o segundo lugar no concurso do Teatro Municipal, 1904 (não construído) do Rio de Janeiro, todos marcados pela volumetria movimentada por varandas, balcões e frontões curvos, reforçada pela ornamentação linear e ondulante. Do segundo, a obra de maior destaque é a Estação de Mairinque, 1906. Construída ao longo do eixo ferroviário, a estação possui um corpo central mais elevado, estruturado por abóbadas de concreto apoiadas em quatro torres, e dois corpos laterais simétricos, mais baixos, formados por lajes planas nervuradas de concreto, sustentadas em pilares de ferro revestidos de concreto. A marquise metálica das plataformas que circundam o edifício é suportada por tirantes fixados na estrutura principal. Didaticamente à mostra, a estrutura se integra perfeitamente à arquitetura, o mesmo ocorrendo com projeto pioneiro das divisórias dos guichês da estação, concebido em estrutura modulada de aço, placas de concreto e vidro.

Entre a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e os anos 1930, seguindo a orientação de outros arquitetos e engenheiros do período, como Ricardo Severo (1869-1940), Dubugras desenvolve uma série singular de obras neocoloniais em São Paulo e no Rio de Janeiro. Seguindo os preceitos de verdade construtiva que orientam sua produção, o arquiteto deixa aparentes os materiais utilizados nessas obras, como o tijolo de barro e a pedra, numa solução arquitetônica que não é empregada durante o período colonial e que aparece nos projetos para a Ladeira da Memória, 1919, e os Pousos e Monumentos da Serra de Paranapiacaba, 1921/1922. Além disso, elementos e soluções formais testadas em seus projetos neogóticos e art nouveau são retomados, como as chaminés destacadas, as varandas, balcões e frontões curvos, a diferença ficando por conta da ornamentação com pináculos barrocos, azulejos, rótulas, largos beirais de madeira, presentes nas obras já citadas, como também nas residências Saturnino de Brito, 1916, Coronel Bento de Carvalho, 1916, e Luiz Franco do Amaral, 1915, em Santos, e a Residência Arnaldo Guinle, s.d., em Teresópolis, no Rio de Janeiro.

Nesse mesmo período, realiza outras obras protomodernistas, algumas destacadas pela distinção entre estrutura e vedação, como os edifícios A Previdência, 1911, e Souza Queiroz, 1910, outras pelo uso do concreto, como o conjunto de casas para João Dente, 1912, na avenida Paulista, e os projetos Habitações Proletárias, Salubres e Econômicas e Sanatório Popular, 1915/1916, desenvolvidos com Saturnino de Brito (1864 - 1929).

A racionalização da construção, com distinção das funções estruturais e de vedação, é retomada nos últimos projetos do arquiteto no Rio de Janeiro o Edifício Moderno para Indústria Rio de Janeiro, s.d. e Edifício Moderno, 1932. Neste último, é perceptível a influência da arquitetura moderna alemã e de Le Corbusier (1887-1965), por meio das janelas contínuas, dos balcões retilíneos em balanço, da composição cúbica e das coberturas planas. Esses elementos aproximam sua obra daquela desenvolvida por arquitetos modernos pioneiros no Brasil como Gregori Warchavchik (1896-1972) e Lucio Costa (1902-1998). Com esses projetos o arquiteto encerra sua carreira, revelando o quanto sua trajetória exprime o lento processo de renovação do panorama arquitetônico local, que permite que o movimento moderno finque raízes no país.

Notas
1 O nome do arquiteto italiano é grafado ora como Francesco Tamburini ora como Francisco Tamborini.

2 Flávio Motta em seu estudo sobre o art nouveau, afirma que Dubugras se forma em arquitetura em Buenos Aires. Sylvia Ficher, entretanto, afirma que não há provas de sua formação e que o título de professor de aula é um forte indício de sua formação como autoditada. Ver: MOTTA, Flavio L. Contribuição ao estudo do "art-nouveau". São Paulo: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - FAU/USP, 1957, e FICHER, Sylvia. Os arquitetos da Poli: ensino e profissão em São Paulo. São Paulo: Edusp, 2005.


3 A comparação é estabelecida pela historiadora da arquitetura Sylvia Ficher na apresentação do livro de Nestor Goulart dos Reis Filho, Racionalismo e Proto-modernismo na obra de Victor Dubugras. São Paulo, FBSP, 1997, e afirmada por este historiador do urbanismo e arquitetura ao longo deste livro.

Obras 3

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Exposições 15

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Fontes de pesquisa 10

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  • BRANDARIZ, Gustavo A. La arquitetura italiana en la Argentina siglos XVIII e XIX. Disponível em: [www.proa.org/exhibicion/italianos/arquitectura/arquitectura.html]. Acesso em: 14 ago. 2006. Não catalogado
  • FABRIS, Annateresa (org.). Ecletismo na arquitetura brasileira. São Paulo: Nobel: Edusp, 1987. Não catalogado
  • FICHER, Sylvia. Os arquitetos da Poli: ensino e profissão em São Paulo. São Paulo: Edusp, 2005. 400p, il p&b.
  • FICHER, Sylvia. Os arquitetos da Poli: ensino e profissão em São Paulo. São Paulo: Edusp, 2005. Não catalogado
  • MOTTA, Flavio L. Contribuição ao estudo do "art nouveau" no Brasil. São Paulo: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, USP, 1957. Não catalogado
  • REIS FILHO, Nestor Goulart. Racionalismo e proto-modernismo na obra de Victor Dubugras. São Paulo: FBSP, 1997. 216p, il color.
  • REIS FILHO, Nestor Goulart. Racionalismo e proto-modernismo na obra de Victor Dubugras. São Paulo: FBSP, 1997. Não catalogado
  • REIS FILHO, Nestor Goulart. Victor Dubugras: precursor da arquitetura moderna na América Latina. São Paulo: Edusp, 2005. 144 p. il color.
  • REIS FILHO, Nestor Goulart. Victor Dubugras: precursor da arquitetura moderna na América Latina. São Paulo: Edusp, 2005. 720.981 D821r
  • UNIVERSIDADE de São Paulo. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Biblioteca. Catálogo de desenhos de arquitetura da Biblioteca da FAUUSP. São Paulo: FAUUSP/Vitae, 1988. Não catalogado

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