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Teatro

Tomás Antônio Gonzaga

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 24.10.2019
11.08.1744 Portugal / Douro Litoral / Porto
1810 Moçambique
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Marilia de Dirceo, 1810
Tomás Antônio Gonzaga
Coleção Brasiliana Itaú

Tomás Antônio Gonzaga (Porto, Portugal, 1744 – Ilha de Moçambique, 1807). Poeta e magistrado. Filho de mãe portuguesa e pai brasileiro, torna-se órfão de mãe no primeiro ano de vida. Muda-se com o pai para Pernambuco, em 1751, seguindo para a Bahia, onde estuda até 1759. Forma-se em direito na Universidade de Coimbra, tornando-se bacharel em Lei...

Texto

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Tomás Antônio Gonzaga (Porto, Portugal, 1744 – Ilha de Moçambique, 1807). Poeta e magistrado. Filho de mãe portuguesa e pai brasileiro, torna-se órfão de mãe no primeiro ano de vida. Muda-se com o pai para Pernambuco, em 1751, seguindo para a Bahia, onde estuda até 1759. Forma-se em direito na Universidade de Coimbra, tornando-se bacharel em Leis em 1768. Nesse período, escreve a tese Tratado de Direito Natural e exerce a magistratura em Portugal. Em 1782, retorna ao Brasil, e é nomeado Ouvidor dos Defuntos e Ausentes da comarca de Vila Rica, atual cidade de Ouro Preto. 

Em 1786, torna-se desembargador da Relação da Bahia1, para onde iria depois do casamento com a jovem Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão. A moça de 16 anos é mais conhecida, conforme acreditam muitos especialistas, pelo seu nome árcade, Marília, e ele próprio, como Dirceu. Tomás Antônio Gonzaga não se casa devido a implicações com a Inconfidência Mineira ou Conjuração Mineira (1789). 

Ao lado de outros intelectuais mineiros, também poetas árcades, como Cláudio Manuel da Costa e Silva Alvarenga, Gonzaga é acusado de participar da Inconfidência Mineira (1789). Essa incriminação faz com que tenha seus bens confiscados, além de ser preso e enviado para a fortaleza de Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, onde fica durante três anos. No período, escreve muitas das liras de Marília de Dirceu (1792). Depois de submetido à devassa, Gonzaga cumpre dez anos de degredo em Moçambique. Na África, casa-se com Juliana de Sousa Mascarenhas e tem dois filhos: Ana Mascarenhas Gonzaga e Alexandre Mascarenhas Gonzaga. No período de degredo, ocupa os cargos de procurador da Coroa e Fazenda e o de juiz de Alfândega de Moçambique. Estabelece de maneira abastada naquele continente e não retorna mais ao Brasil. É considerado o mais destacado poeta árcade brasileiro.

 

 

Análise

A obra de Tomás Antônio Gonzaga abrange três títulos: Marília de Dirceu (1792), republicado com acréscimos em 1799 e 1812, obra capital do poeta; Cartas Chilenas (1863) e Tratado de Direito Natural (1942).

Marília de Dirceu é a obra mais conhecida do autor que o filia ao arcadismo ou neoclassicismo, síntese da simplicidade pastoril e da vida bucólica. Tais características são comuns nas Arcádias europeias durante o século XVIII, como a Arcádia Lusitana, fundada em 1756. O livro tem estrutura tríplice: a primeira parte, composta por 33 liras; a segunda, por 38 liras, possivelmente escrita no cárcere. A terceira, com 9 liras e 13 sonetos, é considerada apócrifa por muitos estudiosos. Trata-se de um poema lírico-amoroso, de caráter narrativo, “escrito” pelo pastor Dirceu, pseudônimo árcade de Gonzaga, revelando o amor e a admiração que nutre pela pastora Marília, a Maria Doroteia. Os pastores funcionam como a personificação da singeleza campestre e revestem-se de temas comuns à poesia da época, como o bucolismo, o ideal de vida amena, a superioridade do campo em relação à cidade, o resgate do imaginário mitológico greco-latino e o apreço pelo estilo de vida equilibrado e simples. Acresce-se a isso o uso de um vocabulário acessível, próximo ao coloquial. Há uma preocupação estilística que resgata a precisão da poesia do século XVI, em sua harmonia e exatidão formal, como se pode observar pela estrofe de abertura: 

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,

Que viva de guardar alheio gado, 

De tosco trato, d’expressões grosseiro,

Dos frios gelos e dos sóis queimado.

Tenho próprio casal e nele assisto;

Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;

Das brancas ovelhinhas tiro o leite 

E mais as finas lãs, de que me visto. 

Graças, Marília bela,  

Graças à minha estrela! 

Nessa passagem, observa-se o rigor do verso decassílabo e do esquema rímico. Também a preocupação em mostrar uma posição de mediania ao apontar itens básicos para o sustento e a sobrevivência, características comuns no Arcadismo. A lira XXII, da primeira parte, é notória pelo carpe diem

O tempo não respeita a formosura; 

E da pálida morte a mão tirana 

Arrasa os edifícios dos Augustos, 

E arrasa a vil choupana. 

Que belezas, Marília, floresceram,

De quem nem sequer temos a memória!

Só podem conservar um nome eterno

Os versos ou a história. 

Na primeira parte, predomina um tom ameno e alegre, com destaque à beleza da pastora e a intenção de uma vida futura sossegada, no casamento. Na segunda e na terceira, predomina o tom de solitude e de injustiça, com pessimismo propiciado pelo afastamento da pastora e as saudades do eu lírico, como mostra a lira II, da parte 2:

Eu tenho um coração maior que o mundo! 

Tu, formosa Marília, bem o sabes: 

Um coração..., e basta,

Onde tu mesma cabes.

Sobre este livro, Ronald Polito resume: “É assim que os poemas geralmente são escritos de forma simples, segundo as noções da ordem, disciplina, rigor poético, caráter apolíneo, laico, diurno”2. As idealizações de Marília, propiciadas pelo afastamento do casal, configuram a obra como precursora de traços românticos, pois excede o tom neutro e impessoal do neoclassicismo e dá lugar à vazão dos sentimentos do eu lírico, em que o sentimento predomina sobre a razão.

Cartas Chilenas é uma obra satírica epistolar, escrita entre 1788 a 1789, assinada pelo criptônimo Critilo. O narrador endereça cartas em decassílabos brancos para seu amigo Doroteu, relatando os abusos e desmandos de Fanfarrão Minésio, identificado como o Governador da Província de Minas Gerais, Luís da Cunha Meneses (1742-?). Cada carta é precedida por um resumo que situa a ação daquela parte do poema. A obra tem importante viés histórico, pois pontua a situação colonial brasileira e a estrutura do pensamento de colonização portuguesa, conforme o trecho da quinta carta: 

Enquanto, Doroteu, a nossa Chile 

Em toda parte tinha, à flor da terra, 

Extensas e abundantes minas de ouro; 

Enquanto os taberneiros ajuntavam 

Imenso cabedal, em poucos anos,

Sem terem, nas tabernas fedorentas, 

Outros mais sortimentos, que não fossem

Os queijos, a cachaça, o negro fumo.

O trecho aponta a riqueza aurífera, típica de Vila Rica no século XVIII, situada no Chile.  

Há ainda, o manuscrito de Tratado de Direito Natural, provavelmente de 1772, que figura na Seção Pombalina da Biblioteca Nacional de Lisboa, publicado em volume somente em 1942, com prefácio de Rodrigues Lapa. É considerado o primeiro livro em português sobre as disposições das teorias do direito natural, interpretando-as segundo os princípios teológicos cristãos de organização da sociedade.

Esse conjunto de obra faz com que Gonzaga seja reconhecido como um dos principais autores brasileiros do século XVIII, relido, revisitado e pesquisado nas universidades.

 

 

Notas

1. A Relação da Bahia foi criada em 7 de março de 1609 como único tribunal superior da colônia. Manteve-se assim até 1751, quando foi criada a Relação do Rio de Janeiro.

2. POLITO. Um coração maior que o mundo. São Paulo: Editora Globo, p. 257, 2003.

Obras 3

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Espetáculos 1

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Fontes de pesquisa 13

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  • ANUÁRIO de teatro 1994. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 1996. R792.0981 A636t 1994
  • BANDEIRA, Manuel. A autoria das "Cartas chilenas". Separata da Revista do Brasil, Rio de Janeiro, n.22, abr. 1940.
  • CANDIDO, Antonio. Letras e idéias no Período Colonial. In: ___. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 7.ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1985. p.89-107
  • CANDIDO, Antonio. Naturalidade e individualismo de Gonzaga. Cartas chilenas. In: ______. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 6.ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981. p.115-126; p.161-168
  • FERREIRA, Nelson Gonçalves. Cartas chilenas: retrato de uma época. 2.ed. Belo Horizonte: UFMG: Proed, 1986.
  • GONZAGA, Tomás Antônio. Cartas chilenas. Introd. cronol. notas e estabelecimento do texto Joaci Pereira Furtado. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. (Retratos do Brasil, 1).
  • GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5).
  • GONZAGA, Tomás Antônio. Os melhores poemas. Sel. Alexandre Eulálio. São Paulo: Global, 1983. (Os Melhores poemas).
  • LAPA, M. Rodrigues. As "Cartas chilenas": um problema histórico e filológico. Pref. Afonso Pena Jr. Rio de Janeiro: INL, 1958.
  • MACHADO, Lourival Gomes. Tomás Antônio Gonzaga e o Direito Natural. Introd. rev. e notas Oliveiros S. Ferreira. São Paulo: Livr. Martins, 1968.
  • MEIRELES, Cecília. "Romance LXXVIII ou De um tal Alvarenga". In:______. Romanceiro da Inconfidência. In: ______. Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1987. p.513-514
  • PIMENTEL, A. Fonseca. Gonzaga e Puchkin. Revista do Livro, Rio de Janeiro, n.31, p.73-80, 1967.
  • SILVA, Domingos Carvalho da. A casa de Gonzaga. O livro de Marília. In: ___. Gonzaga e outros poetas. Rio de Janeiro: Orfeu, 1970. p.99-104, p.167-172.

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