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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Walter Salles

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 23.01.2023
1956
Walter Moreira Salles Júnior (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1956). Diretor e produtor. A obra de Walter Salles exprime o projeto de renascimento do cinema brasileiro e de padrão internacional. Sob um viés cosmopolita, seus filmes revelam o universal a partir de caminhos que levam ao local, ao particular humano.

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Walter Moreira Salles Júnior (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1956). Diretor e produtor. A obra de Walter Salles exprime o projeto de renascimento do cinema brasileiro e de padrão internacional. Sob um viés cosmopolita, seus filmes revelam o universal a partir de caminhos que levam ao local, ao particular humano.

Filho do banqueiro e diplomata Walther Moreira Salles e de Eliza Vianna Gonçalves, irmão do também cineasta João Moreira Salles (1962). Mora em Washington dos 3 aos 6 anos e passa o resto da infância em Paris. Tem as primeiras lições de fotografia no colégio e apaixona-se por nomes como o francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004) e o húngaro-americano André Kertész (1894-1985). Aproxima-se do cinema ao acompanhar o debate em torno da nouvelle vague.

De volta ao país, em 1969, continua sua educação cinematográfica pelas salas de arte do Rio de Janeiro, especialmente o Cine Ricamar, em Copacabana. Forma-se em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ). Em seguida, parte para os Estados Unidos e faz mestrado em Comunicação Audiovisual. Abandona o curso e regressa ao Brasil para trabalhar na televisão, inicialmente na TVE do Rio e depois na Rede Manchete.

Estreia em longas-metragens de ficção com A Grande Arte (1991), adaptação do romance de Rubem Fonseca (1925-2020). Nele, ficam patentes as referências multiculturais que marcam a vida e a carreira de Salles, a começar pela produção do longa, pautada pela busca de conquistar o mercado externo: o filme é falado em inglês e tem atores de diversas partes do mundo.

Com escassez de recursos, realiza seu segundo longa, Terra Estrangeira (1995), em parceria com Daniela Thomas (1959). O filme, rodado no Brasil e na Península Ibérica, enxerga a globalização como forma de exílio. Trata-se de uma obra interessada em questões de identidade: a identidade de brasileiros que, para fugir da penúria econômica, lançam-se a territórios estrangeiros (geográficos e psíquicos); e a identidade do próprio cinema brasileiro, praticamente extinto em decorrência do Plano Collor.

Construído em diálogo franco com o cinema novo, a “Terra” do título remete a um clássico de Glauber Rocha (1939-1981), Terra em Transe (1967), o filme abre-se à mistura de línguas, estilos e gêneros. Alguns deles são recorrentes nas obras do diretor: o road movie, o thriller psicológico, o drama naturalista e as ligeiras citações à estética da videoarte. Tudo é trabalhado com requinte de iluminação e enquadramento. Terra Estrangeira recebe o prêmio de Melhor Filme no Festival de Gramado em 1995.

A consolidação desse projeto de cinema brasileiro de qualidade dá-se com Central do Brasil, seu terceiro longa. Lançado em 1998, o filme se torna um marco da retomada do cinema nacional, na convergência entre uma tradição de descoberta cinematográfica do Brasil e uma nova cartografia emergente de cinemas nacionais (e autorais), com destaque para a produção de filmes iranianos e chineses. A história da vigarista Dora, que, ao encontrar o menino Josué, encontra também uma possibilidade de redenção, conquista plateias e prêmios no mundo todo. Central do Brasil recebe o Urso de Ouro de melhor filme e o Urso de Prata de melhor atriz, para Fernanda Montenegro (1929), no Festival de Berlim em 1998, e também o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro em 1999.

A obra de Walter Salles, por um lado, aproxima-se das propostas de um cinema para o novo milênio, multicultural e internacional. Por outro, a inserção de seus personagens nesse cenário, nessa promessa de vida globalizada, nunca é livre de miséria e solidão. O cineasta reforça a ideia de que uma cultura de caráter universal só é possível a partir das cores locais e dos dramas pessoais.

Essas são as premissas de Abril Despedaçado (2001), adaptação do romance homônimo do escritor albanês Ismail Kadaré (1936). A história de crime e vingança, originalmente passada na região do Rrafsh, um conjunto de montanhas no norte da Albânia, é transposta para o sertão nordestino, dialogando com a mitologia de matadores e vendetas1 familiares. Abril Despedaçado é um novo capítulo da articulação típica do cinema de Walter Salles entre uma história de ressonância universal e um contexto particular. Em sua filmografia, representa um ponto extremo de apuro técnico e rigor formal, especialmente na composição dos planos e no tratamento fotográfico. 

O gosto do diretor por um cinema de encontros, partidas e buscas potencializa-se em Diários de Motocicleta (2004). Ao acompanhar o jovem Che Guevara (1928-1967) e seu camarada Alberto Granado (1922-2011) em uma jornada de descobertas a bordo de uma velha motocicleta, é o próprio cineasta que se lança às vastidões sem fronteiras. Isso sem abandonar as raízes e sua linha do horizonte: a promessa da unidade latino-americana. O sucesso do filme garante a Walter Salles maior inserção no mercado americano.

De volta ao Brasil, realiza Linha de Passe (2008), no qual retoma, ao menos simbolicamente, o périplo do menino Josué de Central do Brasil (inclusive com o mesmo ator), agora crescido e às voltas com o sonho de se tornar jogador de futebol. Em 2012, estreia On The Road, uma adaptação do romance-ícone da geração beatnik, escrito pelo estadunidense Jack Kerouac (1922-1969). É o ápice das narrativas “na estrada” de Walter Salles e a confirmação do sucesso desse projeto de cinema cosmopolita, porque o filme está intimamente ligado à busca por um lugar, por um destino compartilhado.

Com sua obra cosmopolita, Walter Salles se destaca ao abordar o universal através do particular, projetando o cinema brasileiro no Brasil e no mundo. 

Nota

[1] “Crime, ger. assassinato, praticado como vingança entre famílias, grupos ou organizações de marginais; VINGANÇA. [F.: Do it. vendetta 'vingança'.]” (In: AULETE DIGITAL, 2022. Disponível em: https://www.aulete.com.br/vendeta. Acesso em: 30 out. 2022.

Obras 3

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Exposições 4

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Festivais 1

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Mostras audiovisuais 4

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Fontes de pesquisa 14

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  • BERNARDET, Jean-Claude. Entrevista Exclusiva. Revista Época, 23 Jan. 2004.
  • BOSCOV, Isabela. Uma deprê total. Veja, 3 Nov. 1999.
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  • MACEDO, Bruna H. de. A Dimensão Ética do Cinema de Walter Salles: hospitalidade, religião e perdão. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais). Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2008.
  • NAGIB, Lúcia. A utopia no cinema brasileiro: matrizes, nostalgia, distopias. São Paulo: Cosac & Naify, 2006. 216 p.
  • NAGIB, Lúcia. O cinema da retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: Editora 34, 2002.
  • ORICCHIO, Luiz Zanin. Cinema de Novo: um balanço crítico da retomada. São Paulo, Estação Liberdade, 2003.
  • SALLES, Walter. O Documentário como socorro nobre da ficção. Cinemais, Rio de Janeiro, nº 9, Jan.-Fev. 1998.
  • STRECKER, Marcos. Na Estrada: o cinema de Walter Salles. São Paulo, Publifolha, 2010.
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