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Cinema

Walter Salles

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 17.02.2017
1956
Walter Moreira Salles Júnior (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1956). Diretor e produtor. Filho do banqueiro e diplomata Walther Moreira Salles e de Eliza Vianna Gonçalves, irmão do também cineasta João Moreira Salles (1962). Mora em Washington dos 3 aos 6 anos e passa o resto da infância em Paris. Tem as primeiras lições de fotografia no colégio...

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Biografia

Walter Moreira Salles Júnior (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1956). Diretor e produtor. Filho do banqueiro e diplomata Walther Moreira Salles e de Eliza Vianna Gonçalves, irmão do também cineasta João Moreira Salles (1962). Mora em Washington dos 3 aos 6 anos e passa o resto da infância em Paris. Tem as primeiras lições de fotografia no colégio e apaixona-se por nomes como o francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004) e o húngaro-americano André Kertész (1894-1985). Aproxima-se do cinema ao acompanhar o debate em torno da nouvelle vague.

De volta ao país, em 1969, continua sua educação cinematográfica pelas salas de arte do Rio de Janeiro, especialmente o Cine Ricamar, em Copacabana. Para agradar à família, forma-se em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ). Em seguida, parte para os Estados Unidos e faz mestrado em Comunicação Audiovisual. Abandona o curso e regressa ao Brasil para trabalhar na televisão.

Primeiro na TVE do Rio, depois na Rede Manchete, dirige, entre 1983 e 1985, o programa Conexão Internacional, com apresentação de Roberto D'Avila (1949). Realiza os documentários Japão, uma Viagem no Tempo e China – o Império do Centro, ambos exibidos na Manchete, em 1987. No mesmo ano, abre com o irmão João a produtora Videofilmes.

Após trabalhar ao lado de Nelson Pereira dos Santos (1928) em uma série sobre artistas plásticos brasileiros, Walter dirige documentários musicais, em parceria com o crítico Nelson Motta (1944). Dessa fase, destacam-se: Marisa Monte (1988), registro do primeiro show da então nova musa da MPB; Chico ou O País da Delicadeza Perdida (1989), coprodução francesa sobre o compositor Chico Buarque (1944); e Caetano 50 Anos, exibido pela Rede Manchete em 1993.

Estreia em longas-metragens de ficção com A Grande Arte (1991), adaptação do romance de Rubem Fonseca (1925). É um filme internacional, falado em inglês, lançado em 1991 (embora produzido quase dois anos antes), em plena Era Collor, um dos períodos mais duros para o cinema nacional. Com escassez de recursos, realiza Terra Estrangeira (1995), em parceria com Daniela Thomas (1959). Seu terceiro filme, Central do Brasil (1998), torna-se marco da retomada do cinema nacional. Premiado no Festival de Berlim, com o Urso de Ouro de melhor filme e o Urso de Prata de melhor atriz, para Fernanda Montenegro (1929), recebe também o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. Seguem-se O Primeiro Dia (1999), nova parceria com Daniela Thomas, e Abril Despedaçado (2001).

A carreira internacional decola com Diários de Motocicleta (2004), filme sobre a juventude de Che Guevara (1928-1967), e o suspense Água Negra (2005). Em 2008, volta a filmar no Brasil: Linha de Passe é um drama sobre aspirantes ao mundo do futebol. Em 2012,  seu projeto mais esperado chega às telas, a adaptação de On The Road, romance-ícone da geração beatnik, escrito por Jack Kerouac (1922-1969).

Análise

Central do Brasil é o filme que melhor exprimiu o desejo de regeneração do país, surgido com o Plano Real e o fim da inflação.”1 Pode-se estender essa consideração do crítico Inácio Araújo sobre o filme ao próprio cineasta: o conjunto da obra de Walter Salles exprime o projeto de renascimento do cinema brasileiro e de padrão internacional. Em seu primeiro longa-metragem, A Grande Arte, ficam patentes as referências multiculturais que marcam sua carreira, a começar pela produção do filme, pautada pela busca de conquistar o mercado externo (o elenco, por exemplo, traz atores de diversas partes do mundo).

Walter Salles confirma-se como o mais cosmopolita dos novos cineastas. Seus trabalhos são permeados por certa desconfiança em relação à nova ordem mundial dos anos 1990. O filme seguinte, Terra Estrangeira, rodado no Brasil e na Península Ibérica, enxerga a globalização como forma de exílio. Trata-se de uma obra interessada em questões de identidade: a identidade de brasileiros que, para fugir da penúria econômica, lançam-se a territórios estrangeiros (geográficos e psíquicos); e a identidade do próprio cinema brasileiro, praticamente extinto em decorrência do Plano Collor.

Construído em diálogo franco com o cinema novo  –  a “Terra” do título remete a um clássico de Glauber Rocha (1939-1981), Terra em Transe (1967)  – , o filme abre-se à mistura de línguas, estilos e gêneros. Alguns deles recorrentes nas obras do diretor: o road movie, o thriller psicológico, o drama naturalista e ligeiras citações à estética da videoarte. Tudo é trabalhado com requinte de iluminação e enquadramento. Terra Estrangeira recebe o prêmio de Melhor Filme no Festival de Gramado em 1995.

A consolidação desse projeto de cinema brasileiro de qualidade dá-se com Central do Brasil. A história da vigarista Dora, que, ao encontrar o menino Josué, encontra também uma possibilidade de redenção, conquista plateias e prêmios no mundo todo. Torna-se um marco da chamada retomada, um marco da convergência entre uma tradição de descoberta cinematográfica do Brasil e uma nova cartografia emergente de cinemas nacionais (e autorais), com destaque para a produção de filmes iranianos e chineses. A jornada de regeneração aparece também em O Primeiro Dia, em tom mais sombrio. É o que ressalta parte da imprensa da época: “O que chama a atenção é o pessimismo absoluto que cerca suas diversas tramas”2. Por um lado, a obra de Walter aproxima-se das propostas de um cinema para o novo milênio, multicultural e internacional (vale lembrar que a produção representa a etapa brasileira de um projeto proposto pela televisão francesa Arte a dez cineastas de países diferentes). Por outro, a inserção de seus personagens nesse cenário, nessa promessa de vida globalizada, nunca é livre de miséria e solidão. O cineasta reforça a ideia de que uma cultura de caráter universal só é possível a partir das cores locais e dos dramas pessoais.

Essas são as premissas de Abril Despedaçado (2001), adaptação do romance homônimo do escritor albanês Ismail Kadaré (1936). A história de crime e vingança, originalmente passada na região do Rrafsh, um punhado de montanhas no norte da Albânia, é transposta para o sertão nordestino, dialogando com a mitologia de matadores e vendetas familiares. Abril Despedaçado é um novo capítulo da articulação típica do cinema de Walter entre uma história de ressonância universal e um contexto particular. Em sua filmografia, representa um ponto extremo de apuro técnico e rigor formal, especialmente na composição dos planos e no tratamento fotográfico. Talvez por isso tenha causado certo desconforto no público e na crítica. “Achei bonito o Abril Despedaçado, mas também me senti vazio”, comentou o ensaísta Jean-Claude Bernardet (1936)3. De qualquer maneira, é uma obra a ser revista.

O gosto de Walter por um cinema de encontros, partidas e buscas potencializa-se em Diários de Motocicleta. Ao acompanhar o jovem Che Guevara e seu camarada Alberto Granado (1922-2011) em uma jornada de descobertas a bordo de uma velha motocicleta, é o próprio cineasta que se lança às vastidões sem fronteiras. Isso sem abandonar as raízes e sua linha do horizonte: a promessa da unidade latino-americana. O sucesso do filme garante a Walter Salles maior inserção no mercado americano, confirmada em Água Negra, suspense um tanto tradicional em que o diretor não parece à vontade. Na trajetória autoral de Salles, o filme tem interesse se levarmos em consideração a figura materna: “Walter queria lidar com o suicídio de sua mãe ocorrido em 1988”, escreveu o crítico Marcos Strecker4. O filme também interessa como tributo ao cinema japonês de horror, tão caro ao cineasta.

De volta ao Brasil e ao seu “mundo comum”, realiza Linha de Passe, no qual retoma, ao menos simbolicamente, o périplo do menino Josué de Central do Brasil (inclusive com o mesmo ator), agora crescido e às voltas com o sonho de se tornar jogador de futebol. On the Road (Na Estrada), baseia-se no romance homônimo de Jack Kerouac. É o ápice das narrativas “na estrada” de Walter e a confirmação do sucesso desse projeto de cinema cosmopolita, porque o filme está intimamente ligado à busca por um lugar, por um destino compartilhado (e o livro de Kerouac não deixa de ser uma das grandes epopéias modernas do povo estadunidense). No cinema de Walter, o universal releva-se nos caminhos que levam ao local, ao particular humano.

Notas

1 ARAÚJO, Inácio. “Central do Brasil” exprime desejo de regeneração do país. Folha de S. Paulo, São Paulo, 30 dez. 2010. Ilustrada, p. 8.

2 BOSCOV, Isabela. Uma deprê total. Revista Veja, São Paulo, 3 nov. 1999.

3 BERNARDET, Jean-Claude. Entrevista concedida a Eduardo Cléber. Revista Época, São Paulo, 23 jan. 2004.

4 STRECKER, Marcos. Na Estrada: o cinema de Walter Salles. São Paulo: Publifolha, 2010, p. 125.

Obras 3

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Exposições 4

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Festivais 1

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Mostras audiovisuais 4

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Fontes de pesquisa 14

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  • ALTMANN, Eliska. O Brasil Imaginado na América Latina: crítica de filmes de Glauber Rocha e Walter Salles. Rio de Janeiro, Contra Capa, 2010.
  • ARAÚJO, Inácio. Central do Brasil exprime desejo de regeneração do país. Folha de São Paulo, 30 Dez. 2010.
  • BERNARDET, Jean-Claude. A crise do cinema brasileiro e o governo Collor. Folha de São Paulo, 23 Jul. 1990.
  • BERNARDET, Jean-Claude. Entrevista Exclusiva. Revista Época, 23 Jan. 2004.
  • BOSCOV, Isabela. Uma deprê total. Veja, 3 Nov. 1999.
  • CAETANO, Daniel (org.). Cinema brasileiro 1995-2005: ensaios sobre uma década. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005.
  • CLEBER, Eduardo. Entrevista exclusiva com o crítico de cinema Jean-Claude Bernardet. Revista Época (conteúdo exclusivo online), São Paulo, 23 ja. 2004.
  • MACEDO, Bruna H. de. A Dimensão Ética do Cinema de Walter Salles: hospitalidade, religião e perdão. Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais pela UFRN. Natal-RN, 2008.
  • NAGIB, Lúcia. A utopia no cinema brasileiro: matrizes, nostalgia, distopias. São Paulo: Cosac & Naify, 2006. 216 p.
  • NAGIB, Lúcia. O cinema da retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: Editora 34, 2002. 538p.
  • ORICCHIO, Luiz Zanin. Cinema de Novo: um balanço crítico da retomada. São Paulo, Estação Liberdade, 2003.
  • SALLES, Walter. O Documentário como socorro nobre da ficção. Cinemais, Rio de Janeiro, nº 9, Jan.-Fev. 1998.
  • STRECKER, Marcos. Na Estrada: o cinema de Walter Salles. São Paulo, Publifolha, 2010.
  • XAVIER, Ismail. O Cinema brasileiro dos anos 90. Praga – Revista de estudos marxistas. São Paulo: Hucitec, n. 9, p.97-138, jun. 2000.

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