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Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Graciliano Ramos

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 03.05.2022
27.10.1892 Brasil / Alagoas / Quebrangulo
20.03.1953 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Coleção Brasiliana Itaú Reprodução fotográfica Horst Merkel

Vidas secas, 1938
Graciliano Ramos

Graciliano Ramos de Oliveira (Quebrangulo, Alagoas, 1892 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1953). Romancista, contista e cronista. Apesar de ser considerado, pela historiografia literária brasileira, um escritor da segunda fase do modernismo, a chamada geração de 30, o autor se destaca por colocar em primeiro plano o homem, e não, como fazem os ...

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Graciliano Ramos de Oliveira (Quebrangulo, Alagoas, 1892 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1953). Romancista, contista e cronista. Apesar de ser considerado, pela historiografia literária brasileira, um escritor da segunda fase do modernismo, a chamada geração de 30, o autor se destaca por colocar em primeiro plano o homem, e não, como fazem os autores da época, o meio social que o determinaria. 

O envolvimento de Graciliano com as letras começa cedo. Em 1906, aos 14 anos, inicia a colaboração com o jornal O Malho, do Rio de Janeiro, publicando alguns de seus sonetos. Em 1909, passa a escrever regularmente no Jornal de Alagoas, de Maceió, onde mora à época. Muda-se para Palmeira dos Índios, no interior do estado, em 1910, e segue contribuindo com diferentes jornais. Em 1927, é eleito prefeito da cidade, e, curiosamente, é através de um relatório de prestação de contas do município, de 1929, que sua escrita chama a atenção. O relatório é lido pelo poeta e editor Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), que, entusiasmado com a qualidade literária, procura o escritor. 

Em 1933, Ramos estreia na literatura com o romance Caetés, publicado pela editora de Schmidt. O enredo gira em torno do envolvimento amoroso de João Valério, guarda-livros com pretensões literárias, e Luísa, esposa do patrão. Em paralelo, João Valério ocupa-se de escrever um romance histórico sobre o martírio do bispo Sardinha, devorado pelos índios caetés. Ambas as histórias acabam por se imbricar, na medida em que o protagonista reconhece trazer em si um eu primário adormecido e reprimido, metaforicamente equiparado a um caeté recôndito: "Que sou eu", diz ele, "senão um selvagem, ligeiramente polido, com uma tênue camada de verniz por fora?". Esse é um traço marcante da ficção de Graciliano, a investigação progressiva do eu subjacente à imagem social.

Seu segundo livro, São Bernardo, é publicado em 1934. Também narrado em primeira pessoa, conta a história de Paulo Honório, que ascende socialmente ao tomar posse das terras de São Bernardo, no sertão brasileiro. Tratando as pessoas também como bens que podem ser possuídos, escolhe a professora Madalena para ser sua esposa. Inicia-se então um conflito, uma vez que, intelectualmente preparada e emancipada, ela não se sujeita aos desígnios do marido. Essa é a obra do autor que mais se aproxima do romance social da geração de 30 ao abordar questões da região onde se passa o enredo, ainda que o foco sejam os personagens.

Se Caetés é visto como um campo de provas em que o escritor pode testar sua técnica narrativa e seu estilo, estes já aparecem completamente definidos em São Bernardo. Nele, pode-se reconhecer as principais marcas estilísticas da escrita de Graciliano Ramos: a preferência por frases curtas ou mesmo elípticas, as orações simples e os períodos coordenados, o vocabulário reduzido e algumas gírias. Como diz o poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999), muito influenciado pela escrita de Ramos, o romancista alagoano parece sempre escrever com as mesmas 20 palavras. Dessa escrita enxuta resulta a força de seu estilo seco e de seu lirismo contido.

Em 1936, publica Angústia (1936), considerado, por alguns críticos, sua obra-prima. É um exemplo do que se costuma definir como romance em abismo, narrativa marcada por um vertiginoso mergulho no monólogo interior. Quem desenvolve o monólogo é Luís da Silva, uma figura atormentada, movida por um forte sentimento de autonegação e de repulsa em relação a si e ao mundo. A intensa atividade reflexiva do personagem contrasta com sua total inércia em relação à vida. O crítico José Paulo Paes insere Angústia na linhagem da ficção brasileira denominada por ele de “romance do pobre-diabo”, com um (anti-)herói marcado por certa "vocação para o fracasso".

No livro seguinte, Vidas Secas (1938), apesar de abandonar o foco narrativo em primeira pessoa, Graciliano Ramos torna a explorar o recôndito do eu, de outra perspectiva. Como quadros justapostos, os capítulos tendem a focalizar os personagens separadamente, num deslizar contínuo, ora para o mundo exterior, ora para o interior. Não há interação entre eles, visto que lhes falta o essencial: a palavra. Fabiano, sua mulher e filhos são seres espoliados não só de casa e comida, mas também de linguagem, pois, fiéis ao clima da seca, fazem uso de uma fala truncada e de alguns sons guturais. Ramos, então, recorre a um narrador onisciente, que sabe e diz tudo o que se passa dentro e fora da cabeça dos personagens, inclusive da cachorrinha Baleia, numa passagem antológica. Essa voz narrativa, como demonstra Alfredo Bosi, faz um jogo de aproximação e distanciamento do narrador em relação à consciência dos personagens, de modo a sinalizar a não pactuação com a alienação do sertanejo em relação à realidade de sua condição.

O escritor alagoano retoma a narração em primeira pessoa com os livros Infância (1945) e Memórias do Cárcere (1953) — neste, narra o período em que esteve preso no Rio de Janeiro (1936-1937), acusado de ter ligação com o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Essas obras marcam a transição do autor da ficção para a confissão, embora esse caráter confessional possa ser relativizado, já que persiste muito de ficcional na reconstituição de seres e eventos do passado. 

A obra de Graciliano Ramos ao mesmo tempo que se singulariza por refletir a ascensão do eu no mundo moderno que surgia, ao explorar a psique humana, demonstra sua sintonia com o modernismo, ao problematizar questões sociais. Conquista, assim, um lugar especial no cânone da literatura brasileira, sendo um de seus mais ilustres representantes.

Obras 17

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Espetáculos 2

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Exposições 3

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Fontes de pesquisa 7

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  • ANUÁRIO de teatro 1994. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 1996. R792.0981 A636t 1994
  • BOSI, Alfredo. Moderno e modernista na literatura brasileira. In: BOSI, Alfredo. Céu, Inferno. São Paulo: Ática, 1988.
  • CANDIDO, Antonio. Ficção e confissão. In: RAMOS, Graciliano. Caetés. Rio de Janeiro: José Olympio, 1955.
  • CARVALHO, Lúcia Helena. A ponta do novelo: uma interpretação de Angústia. São Paulo: Ática, 1983.
  • GARBUGLIO, José C. et al (org.). Graciliano Ramos. São Paulo: Ática, 1987. (Col. Mesa Redonda).
  • LAFETÁ, José L. O mundo à revelia. In: RAMOS, Graciliano. S.Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1977.
  • PAES, José P. O pobre diabo no romance brasileiro. Novos estudos CEBRAP. São Paulo, n. 20, mar 1988.

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