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Ugo Giorgetti

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 27.12.2016
1942 Brasil / São Paulo / São Paulo
Ugo César Giorgetti (São Paulo, São Paulo, 1942). Roteirista, diretor, publicitário. Cursa filosofia na Universidade de São Paulo, entre 1963 e 1965, sem concluir a graduação. O interesse por cinema começa nos anos 1960, quando entra em contato com o Neo-Realismo italiano e a Nouvelle Vague francesa. Em 1966, começa a trabalhar na empresa public...

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Biografia
Ugo César Giorgetti (São Paulo, São Paulo, 1942). Roteirista, diretor, publicitário. Cursa filosofia na Universidade de São Paulo, entre 1963 e 1965, sem concluir a graduação. O interesse por cinema começa nos anos 1960, quando entra em contato com o Neo-Realismo italiano e a Nouvelle Vague francesa. Em 1966, começa a trabalhar na empresa publicitária Alcântara Machado, chegando a ser diretor. Até os anos 1980, passa por diversas empresas publicitárias, como Denison, Proeme, Companhia de Cinema, Espiral, Frame, entre outras. Nesse período, torna-se um dos principais diretores de comerciais do país. Paralelamente, realiza seus primeiros filmes para cinema: Campos Elíseos (1973), curta documental sobre o bairro homônimo de São Paulo, e o média documental Rua São Bento, 405 – Edifício Martinelli (1976).

Em 1977, inicia as filmagens de um documentário sobre o pugilista Éder Jofre (1936) e sua família. Feito em 16 mm, com equipamentos emprestados nas horas vagas, Quebrando a Cara só é concluído em 1986, não sendo lançado comercialmente. Durante o percurso, escreve e dirige a peça teatral Humor Bandido (1982) e filma seu primeiro longa ficcional, Jogo Duro (1985), de forma cooperativa com outros profissionais da publicidade, com baixo orçamento. O filme é bem recebido pela crítica e pelos festivais. Faz, em seguida, Festa (1989), com melhores condições de produção e apoio da Embrafilme. O filme é o grande vencedor do 17º Festival de Gramado. Em 1994, lança Sábado.

Em 1996, funda a produtora SP Filmes, para realizar Boleiros – Era uma Vez o Futebol (1998), feito com o apoio da Lei de Incentivo Federal à Cultura. O filme ganha continuação em 2006, com Boleiros 2 – Vencedores e Vencidos. Realiza, em 2002, O Príncipe, um balanço sobre a sua geração. Seguem-se a ele Solo (2009), um monólogo do ator Antônio Abujamra (1932-2015), e Cara ou Coroa (2012), filme sobre a ditadura militar. Sem trabalhar com publicidade desde os anos 1990, o cineasta dedica-se também aos telefilmes, feitos para a TV Cultura, dos quais destacam-se Uma Outra Cidade (2000), Pizza (2005), Em Busca da Pátria Perdida (2008), Paredes Nuas e Solo (2009) e Cidade Imaginária (2014). Faz também a direção cênica da ópera Norma (2010), de Vincenzo Bellini (1801-1835). Em 201, finaliza o longa-metragem Uma Noite em Sampa.

Comentário crítico
Ugo Giorgetti realiza seus longas-metragens na renovação do cinema paulista, nos anos 1980, com foco na cidade de São Paulo. Sua formação prática se dá na publicidade, como um requisitado diretor de comerciais.  

A carreira ficcional do cineasta pode ser dividida em duas vertentes. Na primeira, Giorgetti debruça-se sobre personagens marginalizados e o conflito deles com classes mais abastadas. Os filmes têm como centro da ação um único local, ainda que a construção dramatúrgica possa variar. Em Jogo Duro, um ex-pugilista, que toma conta de casarão abandonado no Pacaembu, encontra uma mulher e sua filha vivendo clandestinamente no local. Quem as coloca lá é o vigia da rua. No longa, Giorgetti retrata três personagens marginalizados ocupando um bairro rico, ainda que decadente. Em Festa, um jogador de sinuca, seu comparsa e um gaiteiro são chamados para entreter a festa de um senador da Nova República. Enquanto o evento  acontece no andar de cima para a elite, os três contratados devem esperar ser chamados no andar de baixo, junto aos serviçais da casa (garçons, mordomo, babá etc.). Em ambos os filmes, a espera serve para construir os personagens. Os diálogos alternam-se com lembranças, “causos” do passado e opiniões sobre assuntos diversos. Todos querem tirar o melhor proveito da situação. Em determinado momento de Festa, aparece em cena outro contratado para entreter os convidados: um ator que fará um discurso pró-senador. Ele se prepara no andar de baixo, mas logo sobe, pois é famoso. Conforme proclama o comparsa do jogador de sinuca, é “alguém”. Os dois filmes trabalham o registro cômico e crítico.

Sábado amplia as questões de Jogo Duro e Festa. Uma equipe de filmes publicitários vai rodar um comercial num prédio de passado glorioso no centro de São Paulo. Ali, a riqueza do comercial opõe-se à pobreza dos moradores. Dessa primeira vertente, é o filme mais próximo à caricatura. Conforme aponta o crítico Inácio Araújo (1948): “Os filmes de Ugo Giorgetti visam habitualmente um país em transformação permanente e frenética, o Brasil, e impõem uma sutil, embora intransponível distância, entre o que se vê e o que não se vê.”[1].

A segunda vertente é composta por O Príncipe e Cara ou Coroa, filmes que propõem um balanço sobre a geração dos anos 1960. Cara ou Coroa, feito dez anos depois de O Príncipe, retrata uma trupe teatral nos anos 1970 e a relação dela com a censura e a atividade política clandestina durante a ditadura militar. No filme, apesar da dureza do regime político, há a esperança de que com a luta venha algo melhor. Já em O Príncipe, o foco está nos opositores da ditadura militar. O filme evoca o então presidente Fernando Henrique Cardoso (1931), retomando os mesmos tipos de personagens de Cara ou Coroa. Personagens hipócritas de esquerda que lutam contra o regime e ganham fortunas com empreendimentos baseados em sua resistência política, completamente entregues ao comodismo institucional. O crítico Sérgio Alpendre (1968) vê uma trilogia em Cara ou Coroa, Festa e O Príncipe. “Uma vez que o olhar do diretor aponta para a falência das utopias dos anos 60, dos desejos que encontravam na década seguinte uma parede contra a qual era quase impossível de se debater, a trilogia reflete o caminho da esperança para a resignação, e daí para o desencanto”[2], afirma. Também faz parte dessa vertente, o filme Solo, um monólogo interpretado por um único ator, Antônio Abujamra, que tem como foco o estranhamento do personagem em relação a si mesmo e ao mundo que o cerca.

Entre as duas vertentes estão os dois Boleiros, com apelo crítico ao mundo do futebol e de seus jogadores (racismo e preconceitos, dificuldade financeira etc.) e tônica memorialista em seus relatos. São narrados por antigos jogadores de várias gerações que se reúnem num bar para falar sobre futebol, tendo, assim, um eixo narrativo que remete a episódios em flashbacks. O jogador de futebol só existe como passado. A imagem mais forte dos filmes é, no primeiro longa, a crise de um antigo jogador quando não consegue, velho, se reconhecer nas fotos de quando jogava, penduradas nas paredes do bar.

Giorgetti retrata aspectos da cidade de São Paulo em todos os seus filmes, com ênfase na arquitetura e urbanística transformadas pelo tempo. Entre seus registros, estão os bairros do Pacaembu, Campos Elísios, Vila Madalena, o centro velho, o Edifício Martinelli e outros pontos referenciais.

O que distingue o estilo de Giorgetti é a construção do humor, com base nos diálogos e na encenação. Seu humor é crítico e melancólico não aposta na piada e no riso fáceis. Busca encontrar uma conexão com o que o incomoda no Brasil, seja pelo absurdo das situações, ou pela lembrança do passado.

Notas
[1] ARAÚJO, Inácio. Arte da história e do invisível preenche o filme. Folha de S.Paulo, São Paulo, 15 ago. 2002. Ilustrada, p. E1.
[2] ALPENDRE, Sérgio. Cara ou Coroa. Revista Interlúdio, São Paulo, 11 set.  2012. Disponível em: < http://www.revistainterludio.com.br/?p=4012 >. Acesso em: 01 set. 2015.

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  • ALPENDRE, Sérgio. Cara ou Coroa. Revista Interlúdio, São Paulo, 11 set. 2012. Disponível em: < http://www.revistainterludio.com.br/?p=4012 >. Acesso em: 1 set. 2015.
  • ARANTES, Silvana. A geração da náusea. Folha de S.Paulo, São Paulo, 9 ago. 2002. Ilustrada, p. E11.
  • ARANTES, Silvana. Giorgetti mostra intelectualidade sombria. Folha de S.Paulo, São Paulo, 13 jun. 2001. Ilustrada, p. E4.
  • ARAÚJO, Inácio. Arte da história e do invisível preenche o filme. Folha de S.Paulo, São Paulo, 15 ago. 2002. Ilustrada, p. E1.
  • ARAÚJO, Inácio. ‘Sábado’ observa contradições do Brasil. Folha de S.Paulo, São Paulo, 7 abr. 1995. Ilustrada, p. 7.
  • ARAÚJO, Inácio. “Boleiros” aborda a fugacidade do tempo. Folha de S.Paulo, São Paulo, 24 abr. 1998. Ilustrada, p. 11.
  • BRASIL, Ubiratan. Bairrismo é driblado pela simpatia dos personagens. O Estado de S. Paulo, 24 abr. 1998.
  • CARNEIRO, Gabriel. Ugo Giorgetti e o porão da sociedade. Pós-créditos, São Paulo, 19 dez. 2014. Disponível em: < http://revistaposcreditos.com/cinema-2/ugo-giorgetti-e-o-porao-da-sociedade/ >. Acesso em: 01 set. 2015.
  • GIORGETTI, Ugo. Diretor foge ao debate e vira “camelô de filme”. Folha de S.Paulo, São Paulo, 2 jul. 1989. Ilustrada, p. E-6.
  • GIORGETTI, experiência obtida nos comerciais. Filme Cultura. Rio de Janeiro, n. 48, p. 158-160, nov. de 1988.
  • ORMOND, Andrea. Festa. Estranho Encontro, Rio de Janeiro, 4 nov. 2005. Disponível em: < http://estranhoencontro.blogspot.com.br/2005/11/festa.html >. Acesso em: 1 set. 2015.

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