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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Priscila Rezende

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 15.12.2021
1985 Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte
Priscila Rezende Pinto (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1985). Artista visual e performer. Faz do seu corpo a matéria para suas criações artísticas, problematizando a inserção e a presença do indivíduo negro na sociedade brasileira, a partir de um diálogo direto com o público por meio da performance.

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Priscila Rezende Pinto (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1985). Artista visual e performer. Faz do seu corpo a matéria para suas criações artísticas, problematizando a inserção e a presença do indivíduo negro na sociedade brasileira, a partir de um diálogo direto com o público por meio da performance.

Em 2011, forma-se em artes plásticas com habilitação em fotografia e cerâmica pela Escola Guignard, da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG). Durante a graduação inicia seus estudos em performance com o artista Marcos Paulo Rolla (1967), dedicando-se à investigação do seu corpo feminino negro, confrontando as limitações impostas socialmente por meio de ações corporais viscerais.

A produção de Priscila ganha visibilidade com a performance Bombril (2010), com duração de uma hora, na qual a performer esfrega repetitivamente seu cabelo crespo contra panelas e outros utensílios domésticos de alumínio, numa crítica às ofensas pejorativas e racistas comumente dirigidas a esse tipo de cabelo, que é comparado à esponja de aço fabricada pela marca Bombril. Durante a ação, a artista evidencia corporalmente o desconforto físico e moral, o cansaço, com movimentos contínuos que buscam materializar as sensações causadas pelas agressões racistas.

Ainda que suas experiências pessoais atuem como propulsoras para suas criações artísticas, as articulações com a história das populações negras escravizadas em diversas partes do mundo são presentes em seus trabalhos e reconfiguram pela performance os acontecimentos e circunstâncias deturpados e amenizados historicamente.

Em muitos de seus trabalhos, sua condição de mulher negra demarca elementos peculiares com relevância estética e conceitual em sua produção artística, como a mercantilização, desumanização e estereotipação das pessoas negras.

Em Barganha (2014), o corpo da artista é puxado por uma mulher branca dentro de um mercado popular, como se o seu próprio corpo estivesse à venda, numa alusão à mercantilização e desumanização de pessoas negras. Na superfície da pele estão etiquetas de preços que são inseridas gradativamente durante o percurso e tornam explícita a condição de exploração a que o corpo negro é submetido.

O conflito enfrentado por mulheres negras em decorrência das imposições de padrões estéticos e midiáticos de beleza é apresentado na obra Deformação (2015). Em um estranhamento diante do espelho, a artista inicia a alteração gradativa da sua imagem com o uso de maquiagens e ações desesperadas e agressivas de alisamento do cabelo crespo com o uso da escova, colocando sua imagem à margem de um padrão estético de beleza e de “boa aparência” exigido das mulheres negras.

Na obra Vem... Pra Ser Infeliz (2017), seu corpo é exposto tal qual a estereotipação das palavras que o deturpam, que não correspondem ao conceito de beleza universal incorporado ao longo dos anos. Utiliza ainda a máscara de Flandres1, e, ao som do enredo de escolas de samba tradicionais, dança samba incessantemente até a exaustão. Esses três trabalhos fazem parte da exposição Negros Indícios (2017), que apresenta artistas afrodescendentes de diferentes regiões brasileiras.

Em 2018, é artista residente na Central Saint Martins, que promove o Performance Artist in Residence em parceria com a Universidade de Londres e o Serviço Social do Comércio. Desenvolve ações que se referem à exploração escravagista entre os séculos XVI e XIX no continente europeu, uma delas é a performance £20m, em referência ao valor pago a proprietários de escravizados pós-abolição da escravatura em 1833 no Reino Unido. Priscila seleciona nomes de navios negreiros ingleses e a quantidade de escravizados por eles negociados, pesa esta mesma quantidade em açúcar e carimba notas de £20 com esses dados e frases como “Sorry, is not enough” [Desculpa não é o bastante]. Depois, coloca essas notas em circulação em comércios diversos na cidade de Londres. 

A segunda performance, November 29,1781, rememora o dia em que o capitão do navio negreiro Zong, Luke Collingwood, determina que 133 escravizados sejam atirados ao mar devido à escassez de água potável no curso da viagem. Na ação, Priscila utiliza materiais produzidos por mão de obra escravizada, como açúcar, café, tabaco, similares a ouro e diamante, e desenha diversas cruzes no solo. 

Ainda em 2018, é residente também na instituição Art Omai, no interior dos Estados Unidos, onde desenvolve a instalação e performance All of Which Are American Dream, composta de 38 peças de roupa e 5 balas calibre 38 fixadas na parede, que expõe de forma incisiva e poética a ausência causada em decorrência da violência sofrida pela população negra tanto nos EUA quanto no Brasil. As camisas usadas têm um recorte em formato de coração e fazem referência direta às vestimentas usadas por vítimas de violência policial, com símbolos e frases conhecidos popularmente, como a bandeira dos Estados Unidos e a camisa da seleção brasileira de futebol.

Os trabalhos de Priscila Rezende evidenciam de forma direta situações às quais a população negra é submetida, em que indivíduos ainda são vistos como corpos, peças, e não como cidadãos, como no período colonial e imperial. A artista realiza esta explicitação baseada em profunda pesquisa sobre os acontecimentos históricos em relação a violências e escravização de povos africanos.

Nota:

1. Objeto de tortura símbolo do projeto de escravidão colonial, utilizado para silenciar e torturar a população negra escravizada.

Exposições 5

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Festivais 2

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Mostras 1

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Fontes de pesquisa 6

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