Artigo da seção pessoas Paulo Moura

Paulo Moura

Artigo da seção pessoas
Música / artes visuais  
Data de nascimento dePaulo Moura: 15-07-1932 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São José do Rio Preto) | Data de morte 12-07-2010 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)
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Consertão - Elomar, Arthur Moreira Lima, Paulo Moura e Heraldo do Monte , 1982 , Elomar | Artur Moreira Lima | Paulo Moura | Heraldo do Monte | Mario de Aratanha | João Pedro Borges | Mario de Aratanha | Artur Moreira Lima
Kuarup Foto Itaú Cultural

Paulo Moura (São José do Rio Preto, São Paulo, 1932 1 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010). Compositor, arranjador, clarinetista e saxofonista. Recebe as primeiras lições de música do pai, Pedro Gonçalves de Moura, marceneiro que atua como clarinetista e saxofonista na banda local. Aos nove anos, ganha o primeiro clarinete e, aos doze, começa a tocar em bailes e festas. Em 1945, a família muda-se para o Rio de Janeiro. Seis anos depois, o músico é contratado como primeiro saxofonista da Orquestra de Oswaldo Borba, pela Rádio Globo. Estuda clarinete erudito e teoria musical na Escola Nacional de Música, com Jayoleno dos Santos. Participa da gravação de “Palhaço”, de Nelson Cavaquinho (1911-1986), com a cantora Dalva de Oliveira (1917-1972). Lança o primeiro disco em 1956, com “Moto Perpetuo”, composição do italiano Niccolò Paganini (1782-1840), e “Vôo do Besouro”, do russo Nicolay Rimsky-Korsakov (1844-1908). 

Em 1956, trabalha como músico na Rádio Nacional e, em 1958, como arranjador e orquestrador, acompanhando artistas como Jorge Goulart (1926-2012), Dolores Duran (1930-1959), Nora Ney (1922-2003) e Conjunto Farroupilha. Em 1959, integra a orquestra sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro como solista de clarinete. Dividido entre orquestras populares e eruditas, ensaia no Teatro Municipal à tarde e toca em programas de TV à noite. Por vezes, frequenta o Beco das Garrafas, onde conhece o pianista Sérgio Mendes (1941) e o baixista Otávio Bailly. Com eles, forma o conjunto instrumental Samba Rio, liderado por Sérgio Mendes, que se torna Bossa Rio, nome com o qual se apresenta no Festival de Bossa Nova, no Carnegie Hall de Nova York, em 1962. 

O décimo disco da carreira, Confusão Urbana, Suburbana e Rural (1976), permite ao clarinetista deixar seu posto no Teatro Municipal para dedicar-se à carreira solo. Alcançando prestígio internacional, frequenta os principais festivais de música popular, como Festival Internacional de Jazz de Berlin (1982), Free Jazz Festival (1986) e Montreaux Jazz Festival (1992). Em 1978, o maestro Júlio Medaglia (1938) convida-o para compor uma peça para Orquestra Sinfônica e Bateria de Escola de Samba. No mesmo ano, assina a trilha sonora do filme A Lira do Delírio, de Walter Lima Junior (1938). Em 1983, compõe a trilha do filme Parahyba Mulher Macho, de Tizuka Yamazaki (1949).

Recebe o Prêmio Sharp de Melhor Grupo Instrumental e de Melhor Solista (1999), Prêmio Tim de Melhor Solista Popular (2005), Grammy Latino para Música de Raiz (2000), além de mais duas indicações ao Grammy (2003, 2008) e a Medalha de Honra ao Mérito Cultural, comenda da Presidência da República (2008). 

Enquanto gravadoras relançam registros antigos e esgotados, o músico lança novas experimentações. O último disco, AfroBossaNova (2009), é uma parceria com Armandinho (1953). Paulo Moura participa de duetos nos discos Dois Irmãos (1992),de Raphael Rabelo (1962-1995); Dois Panos pra Manga (2006), de João Donato (1934) e El Negro del Blanco (2006), de Yamandu Costa (1980).

 

Análise

O primeiro disco lançado por Paulo Moura como solista é um 78 rpm contendo os clássicos “Moto Perpétuo” e “Vôo do Besouro”. Sua interpretação a clarinete realizada aos 23 anos apresenta estilo diferente, por exemplo, daquelas executadas por clarinetistas europeus. Apesar de as duas faixas serem peças do repertório erudito de difícil execução, seu modo de tocar é “abrasileirado”, popular, de técnica menos rígida. A interpretação lembra menos a dos mestres europeus e aproxima-se da realizada pelo gaúcho Edu da Gaita (1916-1982), que grava “Moto Perpétuo” algum tempo antes. Ambos tocam essa peça como se tocassem um choro: algumas notas são “escondidas”, outras swingadas, diferentemente da homogeneidade e constância dos intérpretes europeus.

Nesse disco, constata-se o início daquilo que Paulo Moura desenvolve em sua carreira. Na erudição do repertório ou no experimentalismo da escrita, nunca deixa de lado o modo popular de tocar. O músico atua nos mais diversos ambientes musicais, escrevendo arranjos para a Rádio Nacional, tocando na Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, animando bailes de salão com gafieiras ou tocando em rodas de choro. 

Paulo Moura interessa-se pelo cruzamento desses diferentes estilos, desde a simplicidade da interpretação do “Moto Perpetuo” até suas experimentações mais radicais. Em 1968, realiza a estreia brasileira do Ebony Concert para clarinete e jazz band, do compositor russo Igor Stravinski (1882-1971), ouvida na sala Cecília Meirelles com sua Orquestra de Música Popular. 

A inspiração como compositor e arranjador abre caminho para as maiores contribuições de Paulo Moura. Movendo-se com facilidade por diferentes ambientes, tocando com desenvoltura em grupo de samba e com solistas de música erudita, realiza, em seus momentos mais criativos, arranjos musicais com essa diversidade. Compõe uma fusão, ou “confusão”, entre o Brasil urbanizado dos grandes centros e o interior rural.

É essa a novidade do disco Confusão Urbana Suburbana e Rural, de 1976. Nesse álbum, o músico combina o conjunto regional típico dos chorões com naipes de sopros vindos das big-bands, arranjos para cordas de cunho mais orquestral e um aparato de percussão afro-brasileira. Instrumentos da bateria de escola de samba marcam presença na montagem das faixas, encaixando-se à formação de baixo e bateria típica do jazz. Ritmos tradicionais do Brasil rural, como o carimbó, e do Brasil urbano, como o choro, harmonizam-se em faixas de experimentação mais livre, orquestrando os elementos, que são a receita básica do estilo inaugurado por Paulo Moura.

A partir desse álbum, sua verve criativa depura-se disco a disco, em processo de autoanálise. O disco Mistura e Manda (1984), por exemplo, de grande êxito, tem como campo de experimentação o choro. “Chorinho pra Você” e “Chorinho pra Ele” são os temas que abrem o álbum, inteiramente dedicado aos chorões. As formas do choro tradicional, entretanto, estão abertas à criatividade e espontaneidade da improvisação, marca jazzística que se desdobra em novas sonoridades e novos timbres. Ao cavaco centrista dos chorões está somado um outro, com afinação diferente, mais comum ao samba. Ao pandeiro tradicional soma-se a novidade do repique de mão – criado por Ubirany (1940), do grupo Fundo de Quintal –, o tam-tam, o ganzá e a caixa de guerra. O resultado é uma combinação de choro, samba e jazz inovadora.

A versatilidade e a intensa atuação de Paulo Moura em várias frentes são a marca de sua carreira.  No disco Paulo Moura visita Gershwin & Jobim (1998) e em sua participação no disco Cannoball’s Bossa Nova (1962), com o jazzista estadunidense Cannonball Adderley (1928-1975), Moura explora as aproximações entre jazz e bossa-nova, assim como nos três discos em parceria com o pianista estadunidense Cliff Korman: Gafieira Jazz (2006), Gafieira Dance Brasil (2001) e Mood Ingênuo (1991). Como solista de música erudita, grava Fantasia para saxofone e orquestra, de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), e Concertino para clarinete e orquestra, do compositor russo Carl Maria Von Weber (1786-1826), com a Orquestra Sinfônica Brasileira sob regência de Júlio Medaglia. Grava ainda quatro discos com a pianista erudita Clara Sverner (1936), dois deles dedicados a compositores de choro, em especial a Pixinguinha (1897-1973).

Entre os chorões, grava com Os Batutas outro disco dedicado a Pixinguinha – Pixinguinha: Paulo Moura e Os Batutas (1998) –, com o qual conquista o Primeiro Grammy Latino para Música de Raiz. Registra ainda discos dedicados a Radamés Gnatalli (1906-1988) (Paulo Moura interpreta Radamés Gnattali, 1959), a Dorival Caymmi (1914-2008) (Paulo Moura e Ociladocê Interpretam Dorival Caymmi, 1991) e a K-Ximbinho (1917-1980) (K-Ximblues, 2001). Na companhia de Elomar (1937), Heraldo do Monte (1935) e Arthur Moreira Lima (1940), experimenta a música regional em Consertão (1981) e, com Josildo Sá, grava forrós e baiões em Samba de Latada (2007).

O álbum Gafieira Etc. & Tal (1986) tem como abertura uma faixa representativa do trabalho de Paulo Moura: “Diálogo (Para a Paz Mundial)” é uma composição pacífica entre ritmos e estilos, surgidos em diversas culturas, como o rock e a gafieira. 

Assim é o conjunto da obra de Paulo Moura: em sua música, o compositor guarda o momento de distinção entre culturas e tradições das quais se vale, ao mesmo tempo em que, como arranjador, organiza o encontro dessas diferenças, trazendo-as para um novo patamar. Em sua obra, convivem o negro e o branco, o popular e o erudito, o maxixe e o fox-trot, e essa convivência é feita de liberdade e opções conjuntas.

 

 

Nota

1.  A Revolução Constitucionalista de 1932, iniciada em São Paulo contra o governo de Getúlio Vargas (1882-1954), impede que o pai de Paulo Moura registre o nascimento do filho naquele ano. Os documentos oficiais inscrevem a data de nascimento de 17 de fevereiro de 1933.

Outras informações de Paulo Moura:

  • Habilidades
    • Instrumentista
    • Compositor
    • Regente/maestro
    • Arranjador
    • Clarinetista
    • Saxofonista

Obras de Paulo Moura: (12) obras disponíveis:

Exposições (1)

Eventos relacionados (1)

Fontes de pesquisa (6)

  • MOURA, Paulo. Site oficial do artista. Rio de Janeiro, 2006. Disponível em: http://www.institutopaulomoura.com.br/home/index.html. Acesso em: 5 mar. 2011.
  • O GLOBO. Paulo Moura, saxofone e clarineta. O Globo, Rio de Janeiro, 27 abr. 2005. Entrevista.
  • PAULO MOURA – Documentário. Direção e fotografia Paulo Roberto Martins; Produção Flávio Tambellini. Rio de Janeiro,1978
  • PAULO MOURA, une infinie musique. Direção: Ariel de Bigault; Produção: Feeling Productions/TF1/PI Productions. França, 1987.
  • PROGRAMA Ensaio – Paulo Moura e João Donato. Direção de Fernando Faro, gravado em 12 set. 2006. São Paulo, 2006.
  • SÁ, MIGUEL. Paulo Moura: um sopro de versatilidade. Jornal Musical, set. 2007. p. 3. 

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • PAULO Moura. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa26115/paulo-moura>. Acesso em: 29 de Fev. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7