Artigo da seção pessoas Hermeto Pascoal

Hermeto Pascoal

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deHermeto Pascoal: 22-06-1936 Local de nascimento: (Brasil / Alagoas / Arapiraca)

Biografia

Hermeto Pascoal (Arapiraca, Alagoas, 1936). Compositor, arranjador e multi-instrumentista. Filho de Vergelina E. de Oliveira (dona Divina) e Pascoal José da Costa, Hermeto nasce no povoado (hoje município) de Lagoa da Canoa de Arapiraca. Começa a fazer música desde cedo, atento aos sons da natureza. Seu primeiro instrumento é a sanfona de oito baixos e com ela se apresenta em festas populares da cidade. Posteriormente ganha do pai outra sanfona de 32 baixos. Com 11 anos, toca em bailes e forrós com o irmão José Neto.

Aos 14, muda-se com a família para o Recife, forma um trio de sanfonas com o irmão e Sivuca e se apresenta na Rádio Jornal do Commercio. Vai para Caruaru em 1952 e toca na Rádio Difusora. Retorna ao Recife em 1954 e começa a aprender piano. Três anos mais tarde, muda-se para João Pessoa para participar da Orquestra Tabajara. No ano seguinte vai para o Rio de Janeiro, onde trabalha como instrumentista na Rádio Mauá. Transfere-se para São Paulo,em 1961, aprende a tocar flauta e, integrando vários conjuntos, se apresenta em casas noturnas, tais como Chicote e Stardust. Em 1966 participa do conjunto Quarteto Novo (com Heraldo do Monte, Theo de Barros e Airto Moreira), que acompanha Edu Lobo em Ponteio, canção vitoriosa no 2º Festival da MPB da TV Record, em 1967. O grupo acompanha turnê de Geraldo Vandré e no mesmo ano lança o LP Quarteto Novo.

Convidado por Airto Moreira e Flora Purim viaja para os Estados Unidos, em 1969. Lá grava seu primeiro LP, Hermeto (1970), e participa de gravações com os músicos de jazz Herbie Hancock, Ron Carter, Chick Corea e Miles Davis. Este lança o LP Miles Davis Live Evilcom a participação e duas composições de Hermeto, Igrejinha e Nem um Talvez. Retorna ao Brasil e em 1973 lança seu primeiro LP no país, A Música Livre de Hermeto Pascoal. Grava Slaves Mass, em1976, nos Estados Unidos, Zabumbê-Bum-Á, em 1978, e Ao Vivo em Montreaux, em1979. Na década de 1980 realiza vários espetáculos no Brasil e exterior, lança os discos Cérebro Magnético (1980), Hermeto Pascoal e Grupo (1983), Lagoa da Canoa (1985), Brasil Universo (1986), Só Não Toca Quem Não Quer (1987) e Solo. Por Diferentes Caminhos (1988), compõe trilhas sonoras e faz arranjos. Em 1972, é premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como melhor solista e, no ano seguinte, como melhor arranjador.

Na década seguinte mantém o ritmo de trabalho, grava dois discos, Festas dos Deuses (1992) e Eu e Eles (1999), cria e toca a Sinfonia do Boiadeiro (1995) e, entre 1996 e 1997, faz o Calendário do Som, em que registra uma composição por dia, publicado em partitura em 1999 pela Editora Senac São Paulo. Lança Mundo Verde Esperança (2003) e, com sua atual esposa, Aline Morena, grava os discos Chimarrão com Rapadura (2005) e Bodas de Latão (2010). Por ocasião da comemoração de seu septuagésimo aniversário, elabora em 2006 um Songbook com 15 canções, compilado e editado por Jovino Santos Neto (pianista que acompanha Hermeto Pascoal por mais de 15 anos), com distribuição livre na web. Em 2009 libera o uso de 614 composições, incluindo as listadas no Calendário do Som. Em seus arranjos utiliza instrumentos inusitados, como garrafa, lata, panela e, por outro lado, executa peças musicais em teclado, flauta, saxofone e violão.

Análise

É difícil enquadrar a obra de Hermeto Pascoal em qualquer tipologia ou classificação do gênero musical. Sua prática e composições apresentam indefinições que, no entanto, não é rara na música brasileira. Com o estilo improvisador, ele dilata os limites da música instrumental no Brasil. E, como inventor de instrumentos, amplia a paleta de timbres da música brasileira. Em sua obra as fronteiras entre a chamada música regional, a nacional e a internacional, a popular e a erudita dialogam com intensidade. Essas experiências com as diversas tradições, a formação musical completamente heterodoxa e a condição de multi-instrumentista o colocam numa encruzilhada de onde partem e para onde convergem caminhos e alternativas inovadoras.

Para compreender melhor Hermeto Pascoal talvez seja necessário enquadrá-lo em primeiro lugar na condição musical que o musicólogo italiano Enrico Fubini identifica como "natural, instintiva, pré-linguística e não convencional", que é anterior à linguagem da música e, por isso, sempre difícil de definir. É espantosa sua enorme capacidade de escutar sons e ruídos em qualquer situação e lugar e transformá-los em música logo em seguida. Desse modo, ele realiza como poucos a operação entre o universo mais instintivo e a formação da linguagem. Suas experiências em "tirar música" dos sons da natureza como o dos animais, do vento e da água, como também dos ruídos de objetos do cotidiano (eletrônicos, chaleira, bacias), revelam essa prática. As primeiras experiências nessa direção surgem no LP Slaves Mass, de 1976, quando leva porcos ao estúdio para gravar e participar de seus shows. Após inúmeras experiências com os sons da natureza, dos ruídos e da fala, ele desenvolve uma concepção musical que denomina de "som da aura". No disco Lagoa da Canoa Município de Arapiraca, de 1984, dá sequência a essa prática e realiza incrível fusão com a fala dos locutores esportivos (Vai mais Garotinho e Tiruliruli), o latido de cachorro (Spock na Escada) e a "fala" de papagaio (Papagaio Alegre). Em Festa dos Deuses,de 1992, aprofunda esse exercício e faz música com o canto do uirapuru, sabiá, galo e marreco e com as falas do poeta e ator Mário Lago e do ex-presidente Fernando Collor de Melo.

Essa prática de escutar sons e música em qualquer manifestação cotidiana se complementa em outras experiências inusitadas. A primeira pretende aprofundar o fazer música na convivência diária estabelecendo uma "oficina familiar" que se transforma em uma escola de formação de instrumentistas. Passam por lá Mauro Senise, Carlos Malta, Itiberê Zwarg, Jovino Santos Neto e Marcio Bahia. Para isso cria, entre 1981 e 1993, em sua casa no subúrbio do Rio de Janeiro, uma espécie de comunidade com a banda, formando laços de vizinhança, amizade e parentesco. A outra é quando se obriga, entre 1996 e 1997, a compor uma música por dia, criando assim o Calendário do Som, depois registrado em pentagrama pela Editora Senac São Paulo em 1999. Todo esse processo musical que brota dessa origem "natural e instintiva" é concluído por sua ideia de "som universal" que o impede de circunscrever a música em temas e gêneros. É essa atitude libertária também que o faz abrir mão, em 2009, dos direitos sobre 614 composições.

A curiosidade pelas várias linguagens e experiências o leva a analisar todo tipo de gênero e a se relacionar com músicos de todas as origens e em diversos lugares do mundo. Sua base cultural sempre é regional, expressa na "música nordestina", tão presente em suas composições na forma de baião, frevo e outros gêneros regionais. A partir dela abre diálogo com o modalismo e em seguida com outras tradições de música popular urbana brasileira. Como instrumentista entra em contato com o jazz e a fusion e flerta com a música indígena e africana. Essas experiências muitas vezes são atravessadas por dissonâncias, atonalismos, polirritmias e ruídos que o aproximam da música contemporânea.

Apesar de toda a riqueza e multiplicidade, é possível estabelecer certa linearidade na trajetória do compositor para tentar compreendê-lo melhor. Nesse sentido dá para distinguir algumas etapas que, no entanto, se complementam e se reforçam: a formação, o instrumentista, o arranjador e o compositor. O período formativo ocorre em Alagoas e depois em Pernambuco, quando aprende a tocar a sanfona com o pai e o irmão. Nessa fase apresenta-se em festas e rádios. O período seguinte é de instrumentista, iniciado nos anos 1950 em casas noturnas do Rio de Janeiro e consolidada em São Paulo na década posterior. Nessa fase dedicada à prática instrumental e à execução da obra de outros autores, grava os discos Conjunto Som 4 (1964) e Sambrasa Trio em Som Maior (1966), quando já atua como pianista, flautista e arranjador. Ele termina com a formação do conjunto Quarteto Novo, considerado um marco na música instrumental e na criação de uma espécie de vertente nordestina da bossa nova. Entre 1966 e 1970 começa a compor com mais regularidade e grava O Ovo e Canto Geral. Dedica-se também à realização dos arranjos do grupo e de dezenas de canções nos festivais de música popular brasileira. Em seguida viaja para os Estados Unidos, convidado por Airto Moreira e Flora Purim,e entra em contato com circuito respeitado de jazz e se aproxima dos experimentalismos. Ao retornar ao Brasil passa a construir uma singular discografia, basicamente com composições próprias.

Outras informações de Hermeto Pascoal:

  • Outros nomes
    • Hermeto Paschoal
  • Habilidades
    • Compositor
    • Instrumentista
    • Arranjador
    • Produtor musical

Obras de Hermeto Pascoal: (12) obras disponíveis:

Exposições (2)

Eventos relacionados (3)

Artigo sobre Banana Progressiva

Artigo da seção eventos
Temas do artigo: Artes visuais / música / cinema  
Data de inícioBanana Progressiva: 29-05-1975  |  Data de término | 01-06-1975
Resumo do artigo Banana Progressiva:

Fundação Getúlio Vargas (São Paulo, SP)

Fontes de pesquisa (6)

  • ARRAIS, Marcos Augusto Galvão. A música de Hermeto Pascoal: uma abordagem semiótica. Dissertação de Mestrado, Semiótica e Lingüística, Universidade de São Paulo, 2006.
  • CAMPOS, Lúcia Pompeu de Freitas, Tudo isso junto de uma vez só: o choro, o forró e as bandas de pífanos na música de Hermeto Pascoal, Dissertação Mestre, Escola de Música da
    UFMG, 2006.
  • NETO, Luiz Costa Lima. A música experimental de Hermeto Pascoal e Grupo (1981 - 1993): Concepção e linguagem. Dissertação de Mestrado, Programa de música brasileira, Centro de Letras e Artes, Universidade do Rio de Janeiro, 1999.
  • PASCOAL, Hermeto, A música brasileira deste século por seus autores e intérpretes. Programa Ensaio, Fundação Padre Anchieta, CD, SESC-SP, 2001.
  • SILVA, Camila Perez da, A sonoridade híbrida de Hermeto Pascoal e a indústria cultural, Dissertação de mestrado, Sociologia, UFSCar, 2009. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cp114054.pdf . Acesso em: 16 de março de 2011.
  • VILLAÇA, Edmiriam Módolo, O menino Sinhô. Via e música de Hermeto Pascoal para crianças, SP, Ed Ática 2007.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • HERMETO Pascoal. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa26091/hermeto-pascoal>. Acesso em: 19 de Out. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7