Artigo da seção pessoas Abel Ferreira

Abel Ferreira

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deAbel Ferreira: 15-02-1915 Local de nascimento: (Brasil / Minas Gerais / Coromandel) | Data de morte 13-04-1980 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Abel Ferreira (Coromandel, Minas Gerais, 1915 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1980). Compositor e instrumentista. Inicia os estudos de música aos 12 anos, com aulas de teoria musical e clarineta. Em 1932, é contratado pela Rádio Guarani, de Belo Horizonte. Começa a tocar saxofone alto e tenor. Em 1935, muda-se para São Paulo, para atuar na orquestra de Maurício Cascapera. Em 1937, retorna a Belo Horizonte e trabalha com J. França e Banda, grupo com o qual se apresenta também em São Paulo. Pressionado pela família, retorna a Coromandel para gerir a sorveteria do pai. O negócio não prospera, e Ferreira volta a tocar.

Assume a direção da emissora Rádio Triângulo Mineiro PRA-5, de Uberaba, e, à noite, atua como instrumentista no cabaré de Dona Tiburtina. Em 1942, grava composições de sua autoria: “Chorando Baixinho” (solo de clarinete) e “Vânia” (valsa), acompanhado pelo regional do Pinheirinho. No ano seguinte, muda-se para o Rio de Janeiro e atua na orquestra de Ferreira Filho, no Cassino da Urca. Entre 1945 e 1946, toca nas orquestras de Vicente Paiva (1908-1964) e Bené Nunes (1920-1997), que se apresentam em rádios e cassinos. Ali acompanha os principais cantores da época, como Carmen Miranda (1909-1955), Francisco Alves (1898-1952), Emilinha Borba (1923-2005) e Marlene (1922-2014). Em 1949, ingressa na Rádio Nacional e participa do programa criado por Paulinho Tapajós (1945-2013), Turma do Sereno, mesmo nome do regional que acompanha serestas e modinhas ao vivo. Em 1951, grava “Lua Branca” [Chiquinha Gonzaga (1847-1935)], e a polca “Se Querem Eu Choro” [Felisberto Marques (ca. 1860-ca. 1920)]. No ano seguinte, registra as valsas “Saudade de Varginha”, composta por ele, e “Saudade Eterna” [Santos Coelho (1870-1927)]. Em 1952, forma com Paulinho Tapajós a Escola de Ritmos, projeto desenvolvido por todo o Brasil. Participa do álbum 5 Companheiros – Pixinguinha e os Chorões Daquele Tempo (1958) e, no mesmo ano, lança Jantar Dançante. Em 1959, registra o disco No Tempo do Cabaré

Em 1958, integra o conjunto Os Brasileiros – formado por Sivuca (1930-2006), Trio Irakitan, Dimas (1930), Pernambuco e Guio Morais (1920) –, que excursiona por vários países europeus e grava o LP Os Brasileiros na Europa. Em 1963, lança o álbum Chorando Baixinho – Abel Ferreira e seu Conjunto. Realiza excursões com Bené Nunes (1920-1997) e Waldir Azevedo (1923-1980). Em 1977, registra Abel Ferreira e Filhos, com o maestro e compositor Leonardo Bruno (1945) e a cantora Vânia Ferreira (1940), seus dois filhos. No mesmo ano, participa do LP Altamiro Carrilho, Abel Ferreira, Formiga e Paulo Moura Interpretam Vivaldi, Weber, Purcell e Villa-Lobos. 

Em 1979, produz o disco Chorando Baixinho – Um Encontro Histórico, com Joel Nascimento (1937), Arthur Moreira Lima (1940), Copinha (1910-1984), Conjunto Época de Ouro, Zé da Velha (1942) e Silvério Pontes (ca. 1970). Sua clarineta e saxofone podem ser ouvidos ainda em álbuns dos principais cantores e compositores brasileiros, como Cartola (1908-1980), Roberto Silva (1920-2012) e Beth Carvalho (1946)

Em 1977, é agraciado com o Golfinho de Ouro, oferecido pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS/RJ).

Se existe uma escola brasileira de sopro, de origem urbana e popular, Abel Ferreira está entre seus principais representantes. O estilo de tocar do instrumentista é partilhado entre aqueles que se convenciona chamar de chorões. Sua maneira de fazer música concentra-se sobre a relação rítmica entre melodia e acompanhamento, vínculo em que solista e conjunto parecem independentes ou em sincronismo relaxado. Sobre a base do conjunto regional do choro, o solista realiza melodias resultantes de combinação métrica típica da música urbana brasileira do início do século XX. Nessa combinação, o solista encaixa a melodia de forma displicente. É esse o estilo de Abel Ferreira, presente em Luiz Americano (1900-1960) e continuado em Paulo Moura (1933-2010).

Embora as biografias de Abel Ferreira relatem os momentos nos quais o instrumentista atua em orquestras, é ao flexibilizar a rítmica da música orquestral europeia que o solista de choro encontra seu estilo. Desse modo, é preciso avaliar o trabalho do músico em cabarés, boates e gafieiras – como o Cabaré da Gruta Vermelha, onde, segundo o próprio Abel, “[tocava-se] das 21 às 4 da manhã, sem parar, por 12 mil réis”. Nesses locais, a função da música é fazer as pessoas dançarem. O balanço dos chorões é também o das gafieiras, e o músico procura valorizar as síncopes e deslocar a melodia do acompanhamento, como forma de deixá-la mais dançante.

Nesse sentido, os primeiros álbuns lançados por Abel Ferreira são exemplares. Em Jantar Dançante (1954), há interpretações de clássicos, como o bolero “Bésame Mucho”, da compositora mexicana Consuelo Velásquez (1916-2005); de sambas, como “Morena Boca de Ouro” [Ary Barroso (1903-1964)] e “Ai que Saudade da Amélia” [Mário Lago (1911-2002) e Ataulfo Alves (1909-1969)]; e de “Baião no Deserto”, composto por Abel Ferreira em parceria com Zé Menezes (1921-2014). No disco No Tempo do Cabaré (1955), maxixes e polcas evocam o ambiente de dança e sedução de um cabaré. Entre os maxixes, estão os famosos “Gosto que me Enrosco” [Sinhô (1888-1930)] e “Pelo Telefone” [Donga (1890-1974)], e os choros “Corta-Jaca” (Chiquinha Gonzaga) e “Brejeiro” [Ernesto Nazareth (1863-1934)]. Nesse disco, Abel Ferreira assina os arranjos e canta algumas faixas.

Algumas de suas composições tornam-se clássicos entre os chorões. A mais conhecida é “Chorando Baixinho”, que Abel Ferreira grava diversas vezes. A estreia em disco é num 78 rotações, acompanhado por regional. Em seguida, passa pela regravação à frente da orquestra da Rádio Nacional, com arranjo de Radamés Gnatalli (1906-1988) e pelo dueto com Arthur Moreira Lima, no disco Chorando Baixinho – Um Encontro Histórico. Além desses registros realizados pelo compositor, o choro tem regravações de outros músicos, como a interpretação de Paulo Moura (1933-2010) com Raphael Rabello (1962-1995) e a versão de Yamandu Costa (1980) em duo com Dominguinhos (1941-2013). Outras composições do músico são frequentes no repertório das rodas de choro, como “Doce Melodia” e “Haroldo no Choro”.

Outras informações de Abel Ferreira:

  • Habilidades
    • Clarinetista

Fontes de pesquisa (3)

  • ABEL Ferreira e o Choro. Nova história da música popular brasileira, LP de 10'', São Paulo: Abril Cultural, 1978.
  • MARCONDES, Marcos Antônio. Enciclopédia da música brasileira: popular erudita e folclórica. 2. ed. São Paulo: Art Editora: Publifolha, 1998.
  • TAUBKIN, Myriam (Org.). Um sopro de Brasil. Verbetes redigidos por Maria Luiza Kfouri. [s.l.]; [s.d.], 2006. (Projeto Memória Brasileira).

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ABEL Ferreira. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa2577/abel-ferreira>. Acesso em: 18 de Abr. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7