Artigo da seção pessoas Raduan Nassar

Raduan Nassar

Artigo da seção pessoas
Literatura  
Data de nascimento deRaduan Nassar: 27-11-1935 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / Pindorama)
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Lavoura Arcaica , 1975 , Raduan Nassar
Reprodução Fotográfica Horst Merkel

Biografia
Raduan Nassar (Pindorama SP 1935). Romancista e contista. Sétimo filho do casal de libaneses João Nassar e Chafika Cassis, inicia os estudos primários na cidade natal em 1943, e, no ano seguinte, passa a frequentar assiduamente a Igreja, tornando-se coroinha, em 1946. Cursa o ginásio no Colégio Estadual de Catanduva a partir de 1947, o que leva a família a mudar-se para essa cidade após dois anos. Embora tenha iniciado o curso científico, opta por formar-se no clássico, o que ocorre em 1953, no Instituto de Educação Fernão Dias Pais, já na capital paulista, onde os Nassar passam a morar. Ingressa, em 1955, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e no curso de letras, ambos na Universidade de São Paulo (USP). Sua formação, entretanto, é em filosofia, curso iniciado em 1957, na mesma universidade. Em 1961, viaja para o Canadá e os Estados Unidos, afastando-se temporariamente dos estudos e dos negócios da família - o Bazar 13, um armarinho tradicional na zona oeste da capital paulista. Data dessa época o conto Menina a Caminho. De volta ao Brasil, retoma o curso de filosofia e o conclui em 1963. Viaja para a Alemanha Ocidental, com o objetivo de aprender o idioma local, mas retorna ao Brasil após tomar conhecimento do golpe militar. Antes, porém, visita, no Líbano, a aldeia onde viveram seus pais. Em 1967 funda, com os irmãos, o Jornal do Bairro. No ano seguinte, inicia a leitura do Alcorão e esboça um romance, finalizado após seis anos e publicado em 1975, com o título Lavoura Arcaica, seu primeiro livro. Em 1970 escreve a primeira versão de Um Copo de Cólera e os contos O Ventre Seco e Hoje de Madrugada, publicados pela primeira vez em 1997. Lança a novela Um Copo de Cólera em 1978 e compra uma fazenda em Buri, São Paulo, dedicando-se à produção rural. Nos anos seguintes, lança apenas um texto inédito, o conto Mãozinhas de Seda, escrito em 1996 e editado na coletânea Menina a Caminho, de 1997.

Comentário crítico
Criador de um universo literário que retrata o peso da tradição cristã, do patriarcado, do trabalho e das interdições sobre o indivíduo, Raduan Nassar é autor de uma obra engajada, em sentido amplo. Interessa a essa produção não apenas retratar as circunstâncias imediatas do contexto histórico - desejo recorrente na literatura do período, com o objetivo de promover a consciência política contra o autoritarismo -, mas investigar como aspectos sociais determinam a constituição das relações afetivas.

No caso da novela Um Copo de Cólera, escrita sob o regime militar, as referências ao autoritarismo são feitas a partir de dois procedimentos principais: a linguagem empregada pelo narrador-protagonista, que parodia lugares-comuns do discurso de resistência; o ambiente repressivo que leva ao conflito inaugurador da trama.

O livro se centra na discussão travada entre um casal cujo relacionamento pode ser definido por palavras do narrador: "A vontade de poder misturada à volúpia de submissão". Durante o conflito, o homem se refere à "inteligência ágil e atuante (ainda que só debaixo dos meus estímulos)" da mulher, ironiza sua "desenvoltura de femeazinha emancipada" e busca sempre rebaixar os termos empregados pela jornalista que se quer politicamente consciente. Descreve os argumentos da parceira como um "bate-boca de reconfortante conteúdo coletivo", compara-a a um "travesti de carnaval" pois, apesar de privilegiada, fantasia-se de "povo", e conclui que apenas da "enfermidade" nasce "a força amarga do pensamento independente".

As imagens progressivamente reduzem os personagens ao comportamento sexual e acentuam a dominação. Essa relação é cristalizada a partir de três procedimentos: a estrutura circular do livro, iniciado e encerrado por capítulos de mesmo título, "A chegada"; o fato de todas as seções serem nomeadas com um substantivo, indicando a ausência de ação ou mobilidade; e o encerramento, em que a voz feminina, assumindo a narração, revela "o ímpeto de me abrir inteira e prematura para receber de volta aquele enorme feto" - referindo-se à gestação que daria início à repetição dos acontecimentos.

O embate, embora anunciado desde o começo pela atmosfera de contenção e simulação de interesses e desejos, é desencadeado por um fato aparentemente banal: a descoberta, pelo protagonista, de um buraco, cavado por formigas, na cerca viva de sua propriedade. Essa metáfora central não apenas ilustra como a obra de Nassar incorpora a matéria social como estabelece relação fundamental com Lavoura Arcaica, romance considerado a obra-prima do autor. Trata-se de uma recriação da parábola bíblica do filho pródigo, em que André, o narrador-protagonista, ao se preparar para voltar para casa, reflete sobre a estrutura familiar que o fizera partir.

A autoridade é encarnada pela figura paterna, cujo discurso consiste em defender a impossibilidade de vida fora do âmbito da família. Entre as diversas falas do pai referidas pelo narrador, está a imagem afim à de Um Copo de Cólera: "Erguer uma cerca ou guardar simplesmente o corpo, são esses os artifícios que devemos usar para impedir que as trevas de um lado invadam e contaminem a luz do outro". A leitura se completa diante da recorrência com que o protagonista se descreve "escuro por dentro" devido ao desejo de romper com sua história de vida. Esse desejo, aliás, se concretiza naquilo que talvez seja a maior transgressão familiar, o incesto. O amor pela irmã havia levado o homem à fuga.

A trajetória de André, embora perturbe a ordem estabelecida, não chega, entretanto, a provocar mudanças. O primeiro indício reside nos capítulos em que se retrata o retorno. Estando de volta à casa, o personagem narra os eventos de modo conservador, respeitando os parágrafos, a pontuação e a transcrição clássica dos diálogos - enquanto todo o romance, como também Um Copo de Cólera, traz capítulos de período único, com apenas um ponto-final e fundamentados na oralidade. Já a narração da festa oferecida por ocasião do retorno do filho repete trechos de passagem anterior, dedicada também a uma festa. Por fim, é exatamente ao descrever sua fuga que o narrador conclui, citando o escritor alemão Novalis (1772 - 1801): "Estamos indo sempre para casa".

As estruturas circulares são frequentes na obra de Raduan Nassar, estando presentes também em seus contos. Em todos os casos as relações pessoais reproduzem as imposições inexoráveis da sociedade. O protagonista do conto Mãozinhas de Seda segue o caminho indicado pelo avô - "às favas o que a gente pensa" - e sente falta de si mesmo. O sonambulismo da mulher de Hoje de Madrugada é o correlato da insuficiência existencial, contra a qual nada podem ou desejam fazer os indivíduos: "Continuei sem dizer nada, mesmo sabendo que qualquer palavra desprezível poderia quem sabe tranquilizá-la", afirma o marido, narrador do conto. A intensidade dos conflitos na obra de Nassar é tal que até mesmo a palavra, na qual o indivíduo investe sua força, não passa de escape. Nem André, que julga o silêncio "escandaloso" e defende que "a vida se organiza desmentindo", rompe com o discurso do pai: Lavoura Arcaica, após todo o percurso do filho em busca da libertação familiar, encerra-se com a transcrição de um relato ancestral.

Outras informações de Raduan Nassar:

  • Habilidades
    • Romancista

Obras de Raduan Nassar: (1) obras disponíveis:

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • RADUAN Nassar. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa255670/raduan-nassar>. Acesso em: 25 de Ago. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7