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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Eduardo das Neves

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 10.01.2022
1874 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
11.11.1919 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Eduardo Sebastião das Neves (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1874 - Idem, 1919). Cantor, compositor, instrumentista, palhaço, poeta, ator. Atuante em diferentes áreas de expressão artística, é um dos primeiros a gravar discos no Brasil. Utiliza crônicas da sociedade em que vive como base os versos, em que suas gargalhadas muitas vezes acompanham...

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Eduardo Sebastião das Neves (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1874 - Idem, 1919). Cantor, compositor, instrumentista, palhaço, poeta, ator. Atuante em diferentes áreas de expressão artística, é um dos primeiros a gravar discos no Brasil. Utiliza crônicas da sociedade em que vive como base os versos, em que suas gargalhadas muitas vezes acompanham a interpretação musical. 

Descendente de escravizados, integra a 4ª Companhia do Corpo de Bombeiros entre 1892 e 1893, de onde é expulso por frequentar rodas boêmias e por desrespeitar seus superiores. Em seguida, atua como guarda-freios na estrada de ferro Central do Brasil, trabalho comum entre pessoas negras. Acaba sendo demitido após participar de uma grande greve, evento comum no início da República brasileira.1

A partir de 1895, Neves passa a atuar como palhaço no circo e no circo-teatro. No fim do século XIX, integra o Circo Brasileiro, se apresentando constantemente na cidade de Nova Friburgo, Rio de Janeiro, local importante do circuito circense no Brasil. Palhaço negro e com o rosto pintado de branco em algumas aparições, trabalhando no Circo-Pavilhão Internacional em 1897, no Rio de Janeiro, é apresentado como Dudu das Neves, primeiro palhaço brasileiro a cantar acompanhado de seu violão, muitas vezes em duetos cômicos e amorosos. Vestindo smoking e uma cartola azul, canta músicas já conhecidas, como hinos patrióticos e modinhas, além de suas composições cheias de ironias, sátiras, humor e patriotismo, em grande parte baseadas nos eventos de sua contemporaneidade. É o caso da marcha A conquista do ar (1902), que trata de Santos Dumont (1873-1932), responsável por inventar e voar em um aeronave movida à gasolina, o Dirigível Nº 6, e contornar a Torre Eiffel. Em 1904, Dudu das Neves já conhecido e aclamado pelo público, integra as atrações do Circo Guarany, empreendimento de João Alves, pai do palhaço Xamego (1909-2007)

Suas composições, que passam por diferentes estilos como modinhas, lundus e choros, são registradas e publicadas em livros. A primeira coletânea de versos, O cantor das modinhas brasileiras, é lançada pela Livraria Quaresma entre 1899 e 1900. Em seguida, a mesma livraria publica Trovador da malandragem (1902), nome que também passa a ser utilizado para se referir a Eduardo. No prefácio da publicação de 1905, Mistérios do violão, Neves contesta os comentários de que ele não seria o autor de suas obras, por não pertencer à famílias ricas e por ser negro. 

Ainda em 1902, inicia na indústria fonográfica com sua composição A conquista do ar, gravada pelo cantor Bahiano [Manuel Pedro dos Santos (1870-1944)] na Casa Edison, primeira casa gravadora na América do Sul, fundada em 1900 por Frederico Figner no Rio de Janeiro, local responsável pelo desenvolvimento da nascente indústria fonográfica no Brasil. No mesmo ano, grava sua cançoneta A Gargalhada!, música irônica interpretada com risadas entre seus versos. A partir de 1906, Neves é o primeiro negro contratado como cantor pela Casa Edison, gravando outras obras de sua autoria.

A escravidão e abolição também são temas sociais que integram o repertório de Neves. Um exemplo é o lundu Canoa virada, de autoria desconhecida2 e gravado pela Casa Edison por volta de 1909, durante as comemorações de 21 anos da Abolição da escravatura no Brasil. A música registra os acontecimentos do 13 de maio de 1888 e compara a escravidão como um barco frágil. Através de ironias, a letra registra que há “pretos sem senhores” e que é “a ocasião da negrada bumbar”.3

Neves estabelece uma grande rede de contatos com outros palhaços, como o parceiro de algumas apresentações Benjamim de Oliveira (1870-1954). Um dos trabalhos de destaque de Benjamim, a opereta Viúva Alegre, é adaptada para o cinema em 1910, sendo Eduardo o protagonista.

Músicos negros também fazem parte de seus contatos, como o maestro da banda do Corpo de Bombeiros, Anacleto de Medeiros (1866-1907). Nomes de destaque no samba nas décadas de 1920 e 1930, como Sinhô (1888-1930), acompanham as apresentações de Neves no circo, animando o público, e tem suas composições gravadas pelo artista.

Com sua circulação e reconhecimento público, em 1910 Neves assume a direção musical do Circo Guanabara e torna-se dono do Circo Brasil, nome que vai de encontro com o tema da pátria, muito presente em suas músicas.

Artista de múltiplas habilidades, Eduardo das Neves se consagra com uma grande atuação para além das lonas de circo, ingressando na música e no cinema com suas sátiras, ironias e muitas gargalhadas. 

 

Notas

1. Não há informações sobre o período em que trabalha na estrada de ferro, nem sobre qual greve específica Neves participa. As greves eram muito presentes no setor de serviços públicos e os funcionários da Central do Brasil eram os que mais se mobilizavam.

2. De acordo com a pesquisa de Martha Abreu e Carolina Dantas, a autoria desconhecida pode reforçar a ideia de que é uma canção das ruas, cantada pelo público que comemorava a Abolição.

3. ABREU, Martha; DANTAS, Carolina. Monteiro Lopes e Eduardo das Neves: histórias não contadas da primeira república [livro eletrônico]. Niterói: Eduff, 2020. (Coleção Personagens do pós-abolição: trajetórias e sentidos de liberdade no Brasil republicano, v. 1). p.165. Disponível em: http://www.eduff.uff.br/ebooks/Personagens-do-p%C3%B3s-aboli%C3%A7%C3%A3o-v1-Monteiro-Lopes-e-Eduardo-das-Neves.pdf. Acesso em: 28 dez. 2021.

Fontes de pesquisa 7

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