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Música

Alberto Ribeiro

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 02.09.2019
27.08.1902 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
10.11.1971 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Alberto Ribeiro da Vinha (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro,1902 - 1971, Rio de Janeiro). Compositor, cantor, violonista. Nascido no bairro da Cidade Nova (RJ) inicia sua carreira musical compondo para o bloco carnavalesco Só de Tanga. Sua primeira composição, "Água de coco", parceria com Antonio Vertulo, é editada em 1923.

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Alberto Ribeiro da Vinha (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro,1902 - 1971, Rio de Janeiro). Compositor, cantor, violonista. Nascido no bairro da Cidade Nova (RJ) inicia sua carreira musical compondo para o bloco carnavalesco Só de Tanga. Sua primeira composição, "Água de coco", parceria com Antonio Vertulo, é editada em 1923.

Em fins de 1929 forma o Grupo dos Enfezados, com Nelson Boina, Sátiro de Melo (violão) e Mesquita (violino), com o qual grava dois discos pela Odeon. Mora no bairro do Estácio, onde conhece o sambista Bide (Alcebíades Barcelos), com quem faz parcerias. Diploma-se em Medicina em 1931, dividindo seu tempo entre a música e um consultório de homeopatia.

Em 1934 a marcha "Tipo 7", parceria com Nássara, ganha o primeiro lugar no concurso de carnaval da prefeitura do Distrito Federal, gravada na Odeon por Francisco Alves. Em 1935 conhece seu mais constante parceiro de composições, João de Barro (Braguinha), com quem compõe a marcha "Deixa a Lua Sossegada", com gravação feita por Almirante.

No mesmo ano Alberto Ribeiro e João de Barro são convidados a compor a trilha sonora do filme Alô, Alô Brasil!, de Wallace Downey que conta com a participação de artistas como Almirante, Dircinha Batista, Francisco Alves, Ari Barroso, Sílvio Caldas, Virgínia Lane e Carmen Miranda. São creditados também como argumentistas e diretores do filme. Escrevem e compõem para outros três filmes: Estudantes (1935), Alô, Alô, Carnaval! (1936), João Ninguém (1936), além do score de O Bobo do Rei, (1937). A parceria dos dois compositores volta a fazer sucesso no carnaval de 1938, com a marcha "Yes! Nós temos bananas" e "Touradas de Madri", ambas gravadas por Almirante. A última vence o concurso da prefeitura do Rio de Janeiro, antes de ser desclassificada por ser considerada um ritmo estrangeiro (paso doble). Em 1950 a música é cantada por toda a torcida brasileira no Maracanã, no jogo contra a seleção espanhola pela Copa do Mundo de futebol. São fruto da parceria com João de Barro outras canções consagradas no carnaval: "Adolfito Mata-Moros", "China Pau" (1943), "Tem Gato na Tuba" (1948) e "Chiquita Bacana" (1949).

Em 1938 ajuda a fundar a Associação Brasileira de Compositores e Autores (ABCA), seguida pela União Brasileira de Compositores (UBC, 1942), da qual é presidente por dez anos.  Com Marino Pinto e Arlindo Marques Jr. compõe "Dolores" (1942) e Eu quero é sambar (1945), parceria com Peter Pan. Em 1979, uma regravação de Balancê por Gal Costa alcança sucesso maior que a versão original, na voz de Carmen Miranda, de 1937. Em 1956 lança o LP Aviso aos Navegantes, muito elogiado pela crítica especializada, em que canta 16 composições próprias. Após quase 20 anos de exercício da medicina, aposenta-se 1959. Em 1967 grava seu depoimento no Museu da Imagem e do Som no Rio de Janeiro (MIS/RJ).

 

Análise

A memória e a historiografia da música popular alinham Alberto Ribeiro como um dos grandes compositores brasileiros. Isso porque elas concedem a Ribeiro papel importante para a consolidação da chamada “Era de Ouro” da música popular brasileira, situada na primeira metade do século XX. Esta geração, beneficiando-se de adventos como o rádio, a gravação eletromagnética e o cinema sonoro, é responsável por conferir uma identidade à música popular, sobretudo na fixação de dois gêneros, a marchinha e o samba. Alberto Ribeiro se destaca, sobretudo na composição de marchinhas, assim como João de Barro, seu parceiro mais frequente. Alguns dos maiores sucessos carnavalescos são frutos desta parceria. O Carnaval, cuja movimentação já se iniciava em outubro, na Festa da Penha, é então o período por excelência dos lançamentos musicais. Após consolidarem-se no repertório dos foliões que cantam nos dias da festa, eles eram lançados pela indústria fonográfica e executados nas rádios durante o ano. Algumas destas canções carnavalescas demonstram ainda a habilidade de seus compositores em fixar certos acontecimentos marcantes de cada época. Em Adolfito Mata-Moros (1943), por exemplo, o contexto é o da II Guerra Mundial, cujo personagem de Hitler é caricaturado como um toureiro desastrado e fanfarrão. Já a marcha China Pau (1943) trata da resistência dos chineses ante a invasão japonesa, servindo-se de uma letra cheia de nonsense, capaz de rimar “pé-de-moleque” com “Chiang Kai-shek”. Outro destaque é a referência espirituosa ao Existencialismo em Chiquita Bacana (1949), assunto bastante explorado pela imprensa da época, sobretudo com relação ao lado não científico do movimento – a boêmia e seus costumes exóticos.

Além de realizar papel central na consolidação e difusão das marchinhas carnavalescas, Alberto Ribeiro destaca-se ainda na criação de versões de músicas estrangeiras, traduzindo ao português canções de Cole Porter e Paul F. Webster e Alfred Newman. Acompanhado por Antonio Almeida, faz Polonaise em Ritmo de Samba, adaptando a composição de Chopin. Este é um aspecto que desperta a atenção em sua obra, posto que, num momento de crescente nacionalização da música popular, esta prática é vista com certo receio por parte dos críticos. No entanto, ao criar uma letra brasileira para uma canção já cantada em inglês corriqueiramente, a lógica parece ser a de assegurar a “reserva do mercado” nacional, através da boa qualidade da música vertida. Apesar disso, suas composições carregam também em alguns momentos aspectos nacionalistas, bem característicos da época, como se percebe na marcha Yes! Nós temos bananas, parceria com João de Barro (1938), uma resposta ao foxtrote Yes! We have no bananas, de Frank Silver e Irving Cohn e no paso doble Touradas em Madrid, ambos gravados por Almirante.

A atuação de Ribeiro assinala também os mecanismos de uma produção musical que visa o ascendente mercado de bens culturais. O samba Tem Dó (1943), por exemplo, parceria com Caymmi, Antônio Almeida e Braguinha, e gravado pelos Anjos do Inferno, não alcança grande êxito, e é composta apenas para aumentar o repertório dos quatro autores no catálogo da União Brasileira dos Compositores. Já outro sucesso da carreira de João de Barro e Ribeiro, Copacabana (1946), é uma encomenda feita por Downey para identificar musicalmente uma boate inaugurada em Nova York, e marca o começo da fase áurea da Continental. Composto a princípio como um fox, aproveitando alguns compassos de Era uma vez (Ribeiro e Braguinha, 1939), e lançado sem grande sucesso por Arnaldo Amaral e Neide Martins, é transformado em samba-canção e consagrado na voz de Dick Farney (1946), que, com arranjos de Radamés Gnatalli, é considerada precursora da bossa nova.

A obra de Ribeiro, contudo, não está apenas vinculada à necessidade e oportunidade de “viver de música”. Na verdade, sua primeira profissão, de médico homeopata permite, como declara a Lúcio Rangel na década de 1960, que observe muito a vida, e seja “uma espécie de crivo”, retendo “experiências amargas ou tristes”, e transformando-as em música popular. Nesta perspectiva, o compositor cria o LP Aviso aos Navegantes, trazendo composições de fundo caricatural, que constituem uma espécie de sátira do cotidiano. O próprio compositor não vê a série de sambas que integram o LP como de caráter político, mas sim como uma fotografia daquela realidade. Como explica na época ao jornalista Lúcio Rangel: “apenas fixo os problemas como eles são, faço crônica no samba”. (RANGEL, 1962, p. 127). Através deste olhar aguçado, o compositor busca no cotidiano os temas para suas produções, marcadas ao mesmo tempo pela sagacidade na sua abordagem e pela simplicidade de sua linguagem.

A importância de Alberto Ribeiro pode ser medida também pelas parcerias que realiza durante sua trajetória artística e pelas gravações realizadas por dezenas de interpretes, a exemplo de Cantores do Rádio, em parceria com Lamartine Babo e João de Barro, sucesso de Carmen e Aurora Miranda, regravado por Nara Leão, Chico Buarque e Maria Bethania na trilha do filme Quando o Carnaval Chegar; Cachorro Vira Lata, choro em parceria com Pixinguinha e João de Barro, lançado por Déo em 1944 e regravado por Paulinho da Viola em 1979; Amargura, samba canção gravada por Lúcio Alves em 1950 e Nana Caymmi em 1979. Estima-se que tenha escrito cerca de 400 canções, das quais pelo menos 100 encontram-se gravadas.

Fontes de pesquisa 6

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  • ALENCAR, Edigar de. Esse era dos maiores. In: Claridade e Sombra na Música do Povo. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves/INL, 1984. p. 209 - 213.
  • ALENCAR, Edigar de. O carnaval carioca através da música. 3ª ed., Rio de Janeiro, Ed Francisco Alves, 1979.
  • RANGEL, Lúcio. Alberto Ribeiro. In: Sambistas e Chorões. Aspectos e figuras da música popular brasileira. São Paulo: Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1962.
  • RANGEL, Lúcio. Alberto Ribeiro: novos rumos para o samba. In: Samba, Jazz e outras notas. Rio de Janeiro: Agir Editora, 2007. p.98 - 103.
  • RIBEIRO, Alberto. Depoimento para posteridade. Museu da Imagem e do Som (MIS-RJ), 12 jan. 1967.
  • SEVERIANO, Jairo. Yes, nós temos Braguinha. Rio de Janeiro: FUNARTE, Instituto Nacional de Música, 1987.

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