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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Sidney Amaral

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 30.04.2021
13.05.1973 Brasil / São Paulo / São Paulo
20.05.2017 Brasil / São Paulo / São Paulo
Sidney Carlos do Amaral (São Paulo, São Paulo, 1973 – Idem, 2017). Artista visual e professor. A extensa produção de Amaral explora, em diferentes linguagens, a versatilidade poética e formal dos objetos cotidianos. Nas pinturas, problematiza questões identitárias, ampliando o debate artístico brasileiro sobre a representação do homem negro cont...

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Sidney Carlos do Amaral (São Paulo, São Paulo, 1973 – Idem, 2017). Artista visual e professor. A extensa produção de Amaral explora, em diferentes linguagens, a versatilidade poética e formal dos objetos cotidianos. Nas pinturas, problematiza questões identitárias, ampliando o debate artístico brasileiro sobre a representação do homem negro contemporâneo.

Na década de 1990, estuda no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo (Laosp), na Escola Panamericana de Artes, na ECOS Escola de Fotografia e forma-se em Educação Artística pela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), em 1998. No ano seguinte, é aluno da artista Ana Maria Tavares (1958) no curso de orientação e desenvolvimento de projetos artísticos do Museu Brasileiro de Escultura (Mube). Durante toda a carreira, concilia a produção artística com o trabalho de professor de artes na rede pública de ensino. Em 2001, realiza a primeira exposição individual no Centro Cultural São Paulo (CCSP).

Interessa-se a princípio pela elaboração de objetos prosaicos, deslocados de contexto e forjados em materiais nobres, como o mármore, o bronze e a porcelana. A série Balões em Suspensão (2009) explora paradoxos semânticos e visuais entre a leveza da forma e o peso do bronze, a delicadeza do polimento dos balões e a rusticidade da corrente de motosserra que os prende. Elege temas impalpáveis e efêmeros, como Os Chinelos da Namorada (2ª versão, 2014), escultura na qual o bronze polido sublima e fixa um episódio cotidiano. O encontro do refinamento material com a banalidade temática provoca tensão entre ambos, já que tema e formas estão longe do sintetismo e da idealização associados aos materiais nobres. 

O autorretrato fotográfico é usado como suporte para a criação de pinturas nas quais o artista se coloca em meio a objetos que falam de relações afetivas. Essas relações são amplificadas pela dramaticidade narrativa e por uma atmosfera enigmática e perturbadora, familiar à pintura metafísica. Muitos de seus personagens se encontram em situações de impasse. Em Imolação (2009/2014), o autorretrato descreve uma “auto-imolação”, que para Amaral pode ser interpretada como libertação: “ao ver no meio da tela um homem com uma arma apontada para a cabeça, a primeira coisa que se pensa é que a pessoa representada no quadro quer se matar. Mas não é verdade. Justamente por isso eu coloco o nome de Imolação. Imolação é aquilo que se faz por uma coisa maior [...] Você está se matando porque não quer ser escravo, não quer perder sua identidade, sua liberdade”1

Em residência artística no Tamarind Institute (EUA), em 2013, trabalha questões de identidade racial por meio da litografia. O uso dessa técnica, bem como da aquarela, aproxima sua crônica visual dos registros sobre os escravizados, feitos pelos artistas viajantes no Brasil. Amaral atualiza essa iconografia, dando voz ao sujeito representado. Aquarelas pesadas, introspectivas, com abundantes áreas escuras, contrapõem-se à exterioridade das tarefas registradas pelos viajantes. Em O Estrangeiro (2011), o próprio artista negro é representado num caminho dificultoso rumo ao mundo das artes. Já na aquarela Gargalheira, Quem Falará por Nós? (2014), o instrumento de tortura do passado se mescla à opressão social midiatizada do presente. Une sentimentos de invisibilidade e de superexposição do negro que, interpelado massivamente por microfones, assume silêncio altivo e recusa ao sistema.

Como observa o crítico Tadeu Chiarelli (1956), a recorrência do autorretrato na obra de Sidney Amaral, assim como na de outros artistas negros em fins do século XIX, pode ser compreendida como meio de afirmação social, profissional e identitária2. Na produção de Amaral, dilemas coletivos são trazidos para a primeira pessoa como estratégia expressiva e, assim, ganham concretude.

Contrapondo-se à Libertação dos Escravos (1888) de Pedro Américo (1843-1905), obra que alegoriza a abolição segundo o poder imperial, no políptico Incômodo (2014)3, Amaral oferece-nos a visão de um homem negro que revê a abolição como resistência, luta e incertezas. A princípio, esta obra evoca as alegorias de Glauco Rodrigues (1929-2004) dos anos 1960/70, sobretudo quanto ao ao diálogo do desenho com a fotografia. No entanto, a narrativa austera de Amaral se afasta do deleite festivo do artista gaúcho. No quadro à esquerda, vê-se a revolta contra a opressão. No centro, danças e personagens emblemáticas como a ama de leite Mônica, extraída da fotografia de João Ferreira Villela (1860), e uma menina que veste sapatos, como símbolo da conquista da cidadania. Ao fundo, o artista se retrata como observador de uma apoteose da cultura negra, que recorda as seguintes personalidades históricas, da esquerda para direita: Francisco José do Nascimento (1839-1914), conhecido como Dragão do Mar ou Chico da Matilde, líder dos jangadeiros nas lutas abolicionistas; os jornalistas José do Patrocínio (1853-1905) e Luiz Gama (1830-1882); e João Cândido Felisberto (1880-1969), o “Almirante negro”, integrante da Revolta da Chibata. No quadro à direita, encontra-se uma gestante e crianças vagando ao fundo da cena.

Seja na construção de objetos paradoxais, provocadores de uma poesia inusitada, seja nas contínuas investigações sobre a própria identidade e as relações urbanas, Amaral procura não se afastar da característica mais marcante de cada objeto. Para isso, o desenho marcado pela referência fotográfica é seu instrumento de apropriação de imagens e formas.

 

Notas:

1. AMARAL, Sidney Apud NABOR JR. Meu passado (não) me condena. O Menelick 2º ato. São Caetano do Sul, dez 2015.

2.  CHIARELLI, Tadeu. Sidney Amaral: entre a afirmação e a imolação. Arte!Brasileiros, São Paulo, 8 out. 2018. Disponível em: https://artebrasileiros.com.br/arte/artigo/sidney-amaral-entre-a-afirmacao-e-a-imolacao/. Acesso em: 12 nov. 2018.

3. As obras de Pedro Américo e Sidney Amaral foram exibidas na exposição Histórias Mestiças, realizada no Instituto Tomie Ohtake entre 16 ago. a 5 out. de 2014.

Exposições 26

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Fontes de pesquisa 17

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  • A NOVA mão afro-brasileira. Curadoria Emanoel Araújo; Fotografia Henrique Luz. São Paulo: Museu Afrobrasil, 2014. 224 p.
  • AMARAL, Sidney. Depoimento do artista no ciclo de debates Diálogos Ausentes. São Paulo, Itaú Cultural, 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=IVT7gx0p-t8. Acesso em: 24 mai. 2018.
  • AMARAL, Sidney. Museu Afro-Brasil. Disponível em: http://www.museuafrobrasil.org.br/pesquisa/indice-biografico/lista-de-biografias/biografia/2016/10/14/sidney-amaral. Acesso em: 18 abr 2017.
  • AMARAL, Sidney. O banzo, o amor e a cozinha de casa. São Paulo: MINC/Funarte: Museu AfroBrasil Ipsis, 2015.
  • ARAÚJO, Emanoel (Org.). Para nunca esquecer. Negras memórias, memórias de negros. O imaginário Luso-Afro-Brasileiro e a Herança da Escravidão. Curitiba: Museu Oscar Niemeyer, 2005.
  • ARAÚJO, Emanoel et al. A mão afro-brasileira: significado da contribuição artística e histórica. 2. ed. Museu Afrobrasil; São Paulo, SP: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2010. v. 2 , 420 p.
  • BISPO, Alexandre Araujo. Nem todo ouro é dourado. Sidney Amaral, desenhos, pinturas e bronzes. O Menelick 2º Ato. São Caetano do Sul, mar 2012.
  • BISPO, Alexandre Araújo; FELINTO, Renata. Arte afro-brasileira para quê? O Menelick 2º ato. São Caetano do Sul, jul. 2014.
  • CHIARELLI, Tadeu. Aqui dentro do lado de fora: apresentando Sidney Amaral. Texto para catálogo de apresentação da exposição individual de Sidney Amaral. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 2001.
  • CHIARELLI, Tadeu. Sidney Amaral: entre a afirmação e a imolação. Arte!Brasileiros, São Paulo, 8 out. 2018. Disponível em: https://artebrasileiros.com.br/arte/artigo/sidney-amaral-entre-a-afirmacao-e-a-imolacao/. Acesso em: 12 nov. 2018.
  • MENEZES NETO, Hélio Santos. Visível e invisível na construção do conceito de arte afro-brasileira. 2017. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017.
  • NABOR JR. Meu passado (não) me condena. O Menelick 2º ato. São Caetano do Sul, dez. 2015.
  • PEDROSA, Adriano; SCHWARCZ, Lilia Moritz. Histórias mestiças. Rio de Janeiro: Cobogó; São Paulo: Instituto Tomie Ohtake, 2015.
  • PINACOTECA do Estado de São Paulo. Metrópole: Experiência Paulistana. São Paulo: Pinacoteca de São Paulo, 2017.
  • RENATA Felinto e Sidney Amaral. O negro nas artes visuais. Ciclo de debates Diálogos Ausentes, 2016. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ODiT3kjCud0&t=65s. Acesso em: 24 maio 2018
  • SILVA, Claudinei Roberto da. A sedução do incômodo. In: AMARAL, Sidney. O banzo, o amor e a cozinha de casa. São Paulo: MINC/Funarte: Museu AfroBrasil Ipsis, 2015.
  • TERRITÓRIOS: artistas afrodescendentes no acervo da Pinacoteca. Curadoria Tadeu Chiarelli. São Paulo: Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2016.

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