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Cinema

Cláudio Assis

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 26.01.2021
19.12.1959 Brasil / Pernambuco / Caruaru
Cláudio de Assis Ferreira (Caruaru, Pernambuco, 1959). Cineasta, produtor, roteirista e ator. Integra a geração de jovens diretores pernambucanos atuantes a partir de 1980, ao lado de Lírio Ferreira (1965), Marcelo Gomes (1961) e Paulo Caldas (1964). O cinema de Assis é marcado pela dualidade entre poesia e crueza, não raro tendendo à violência,...

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Cláudio de Assis Ferreira (Caruaru, Pernambuco, 1959). Cineasta, produtor, roteirista e ator. Integra a geração de jovens diretores pernambucanos atuantes a partir de 1980, ao lado de Lírio Ferreira (1965), Marcelo Gomes (1961) e Paulo Caldas (1964). O cinema de Assis é marcado pela dualidade entre poesia e crueza, não raro tendendo à violência, em ambiente conflituoso de miséria e personagens à margem social.

Inicia trajetória como ator no Grupo de Teatro Feira de Caruaru. Muda-se para Recife, onde cursa economia, que não conclui, e comunicação. Ativo no cineclubismo da capital, monta o curta-metragem Como se Não Fosse Óbvio (1980), de Vicente Paula Manna de Deus, projeto experimental na bitola Super-8. É um dos produtores de Memória Viva (1987), do diretor de cinema Octávio Bezerra (1955). No mesmo ano, estreia como diretor com o curta em 16 mm Padre Henrique, um Assassinato Político?, realizado com o grupo Vanretrô1. Trata-se de documentário sobre a morte do religioso, assessor do arcebispo dom Hélder Câmara (1909-1999), pela repressão militar nos anos 1960.

No curta Soneto do Desmantelo Blue (1993) passa à bitola 35 mm, mas segue no registro documental ao focar a vida do poeta pernambucano Carlos Pena Filho (1929-1960). Funda com os cineastas Marcelo Gomes e Adelina Pontual (1965) a produtora Parabólica Brasil, com quem realiza os curtas Samydarsh, os Artistas da Rua (1993) e Punk Rock Hard Core, Alto José do Pinho, É do Caralho! (1995). Ainda em 1995, assina a produção dos curtas Maracatu Maracatus, de Gomes, e Cachaça, de Adelina. Produz Baile Perfumado (1996), de Caldas e Ferreira, filme que inspira o conceito batizado de “árido movie”2.

Atua, em 1999, no curta Conceição, dos cineastas Renato Ciasca (1961) e Heitor Dhalia (1970). De volta à direção solo, realiza no mesmo ano Texas Hotel, curta em que esboça a temática e o estilo desenvolvidos nos longas-metragens. No cenário decadente, grotesco, de hotel no centro histórico do Recife, personagens insólitas repercutem o assassinato do proprietário. O toque surreal, as cores exacerbadas, assim como tipos e o mesmo estabelecimento são desdobrados em seu longa-metragem de estreia, Amarelo Manga (2003). Nesse contexto revisitado, o hotel Texas divide a trama com o Bar Avenida, onde a dona sedutora convive com o machismo e a ausência de amor, um açougue como local para o desejo homossexual interdito, e o entorno marginalizado. Sob a égide do amarelo, estrutura-se como filme coral, o procedimento narrativo de não destacar protagonistas e sim dar peso igual a todas as figuras em cena. O drama de ficção com forte apelo documental inaugura parceria permanente com o roteirista Hilton Lacerda (1965) e fundamenta um cinema naturalista e de manifesto visceral.

O projeto seguinte desloca a ação para o interior pernambucano. Baixio das Bestas (2006) expõe, por meio da prostituição, a hipocrisia familiar e a violência contra a mulher. Repetem-se a linguagem chula e o clima sórdido, de perversão, desta vez nas tramas do avô que explora sexualmente a neta para caminhoneiros e o herdeiro de clã tradicional envolvido em orgias e drogas. As cenas carregadas de tensão e sexo geram controvérsia e impõem outras das características da obra de Assis.

Em Febre do Rato (2011), de volta ao Recife urbano, a sexualidade ainda provoca mas ganha intenção anárquica na poesia do inconformado Zizo, interpretado pelo ator Irandhir Santos (1978). A vida transgressora do protagonista, nos versos e no cotidiano de uma comunidade liberal, é confrontada com a paixão não correspondida pela jovem Eneida. Na noção popular da cultura local, a febre do rato se caracteriza por ficar fora de controle, acelerado. A opção pelo preto e branco aponta ousadia formal.  

O longa Big Jato (2015) marca a mudança de rota. É sua primeira adaptação literária, do relato memorialístico homônimo do escritor e jornalista cearense Xico Sá (1962). O tom poético se mescla ao cômico, ao inusitado e à irreverência. Em trato criativo, confirma o senso de dualidade do cineasta. A oposição já se impõe pela personalidade dos protagonistas. Um homem de família tira o sustento como dono de um caminhão limpa-fossa em vilarejo do agreste pernambucano. Seu filho pré-adolescente (Francisco de Assis Moraes, filho do diretor) recusa o ofício ingrato e sonha ser poeta. O pai não aceita, e o garoto encontra acolhida no tio radialista anárquico, sensível, o oposto do irmão. Em lance simbólico, pai e tio são interpretados pelo mesmo ator, Matheus Nachtergaele (1968).   

A representação de uma família e sua convivência de afeto e conflitos prossegue em Piedade (2019), drama de raro ativismo, de causa ecológica. Filmado numa comunidade à beira-mar, o longa traz registro solar como artifício irônico à tragédia consumada na natureza local. A pesca é inviabilizada pela construção de um porto (referência ao Porto de Suape), e a ganância ainda opera com a proposta de um empresário da área petrolífera de comprar a terra do clã. Quem se rebela é o líder primogênito, espécie de Zizo praiano, comparável porque interpretado pelo mesmo Irandhir, outro dos atores de uma trupe contumaz. A presença no elenco de Fernanda Montenegro (1929), como a matriarca, e Cauã Reymond (1980), pivô de um mistério do passado, atesta o prestígio do realizador em atrair artistas respeitados fora do círculo habitual. 

Ainda que os longas sinalizem uma fase de renovação de temas e universo criativo, Claudio Assis mantém coerência à contestação e ao olhar para os excluídos do padrão social. Sustenta, assim, uma obra autoral, personalista, e de independência também a apelos facilitadores do mercado cinematográfico.      

 

Notas:

1. A Vanguarda Retrógrada, ou Vanretrô, é um grupo criado em 1985 por estudantes  do curso de comunicação social do Centro de Artes e Comunicação (CAC), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Seus dez integrantes, entre eles Adelina Pontual e Lírio Ferreira, têm como objetivo a realização de um filme. Cláudio Assis, então estudante de economia na mesma universidade, se liga ao grupo e é em torno de sua estreia que o projeto se viabiliza. A influência temática e estética da turma tem flerte com dados do passado filtrados por proposta vanguardista. É considerado precursor da retomada do cinema em Pernambuco.            

2.  Árido movie é um termo cunhado em meados dos anos 1990 pelo jornalista e diretor Amin Stepple Hiluey (1952-2019). O conceito diz respeito inicialmente ao longa-metragem Baile Perfumado, e passa a designar filmes surgidos nos anos 2000 no estado. A inspiração para a nomenclatura está vinculada ao chamado manguebeat, amplo movimento recifense de contracultura fundamentado sobretudo na música de mistura de ritmos regionais a outros, como eletrônico e rock. Árido movie se propõe a ser a vertente cinematográfica da tendência, de forte ligação com o cinema novo. Busca afirmar uma cultura marginalizada em relação aos grandes polos de produção cultural do Brasil, o eixo Rio-São Paulo, e do mundo. A linguagem é marcada pela liberdade estética.

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