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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Geraldo Ferraz

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 19.11.2014
1905 Brasil / São Paulo / Campos Novos Paulista
1979 Brasil / São Paulo / Santos
Benedito Geraldo Ferraz Gonçalves (Campos Novos de Paranapanema, atual Campos Novos Paulista, SP, 1905 – Santos, SP, 1979). Jornalista, crítico de arte e escritor. Perde os pais aos dez anos, e passa a viver com o irmão, a tia e a avó. Aos 14 anos, trabalha como entregador e tipógrafo nas tipografias Magone e Condor. No início da década de 1920,...

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Biografia
Benedito Geraldo Ferraz Gonçalves (Campos Novos de Paranapanema, atual Campos Novos Paulista, SP, 1905 – Santos, SP, 1979). Jornalista, crítico de arte e escritor. Perde os pais aos dez anos, e passa a viver com o irmão, a tia e a avó. Aos 14 anos, trabalha como entregador e tipógrafo nas tipografias Magone e Condor. No início da década de 1920, escreve o romance Sombras e Reflexos.

Por intermédio do escritor Monteiro Lobato (1882-1948), trabalha como revisor na Revista do Brasil. Com a transferência da edição da revista para o Rio de Janeiro, procura trabalho em jornais, iniciando assim sua carreira como profissional da imprensa, atividade que exerce até o fim da vida, atuando como repórter, secretário, articulista, editor e crítico de arte. Colabora com os periódicos de São Paulo Jornal do Comércio, Diário da Noite, Correio da Tarde, A Gazeta, Diário de S. Paulo e O Estado de S. Paulo; A Tribuna, de Santos; e o Diário da Noite e O Jornal, ambos do Rio de Janeiro.

Em 1927, publica seu primeiro ensaio, na revista carioca Festa, sobre o escritor Lima Barreto (1881-1922). No ano seguinte, conhece o escritor Oswald de Andrade (1890-1954) e frequenta o grupo modernista, tornando-se responsável pela edição e diagramação da “segunda dentição” da Revista de Antropofagia, em 1929. Entre 1933 e 1934, atua junto à Frente Única Anti-Fascista. Em 1937, funda, junto com colegas do Diário da Noite, a revista O Homem Livre, semanário criado para combater a Ação Integralista Brasileira (AIB).1 Ao lado de Quirino da Silva (1897-1981) e outros, participa da organização das duas primeiras edições do Salão de Maio, em 1937 e 1938.

Em 1940, passa a viver com a escritora Patrícia Galvão (1910-1962), a Pagu, transferindo-se para o Rio de Janeiro em 1942. Edita a revista Vanguarda Socialista, dirigida pelo crítico Mario Pedrosa (1900-1981), que circula entre 1945 e 1948. Em 1946, retorna a São Paulo e assume a direção do Suplemento Literário do Diário de S. Paulo, cargo que ocupa até 1948. Nesse período, colabora também com a agência France Press.

Em 1953, integra o júri de seleção da 2ª Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP). No ano seguinte, muda-se para Santos. Em 1956, substitui o crítico Lourival Gomes Machado (1917-1967) nas colunas de artes plásticas do jornal O Estado de S. Paulo, permanecendo por 15 anos nessa função. Em 1961, viaja pela primeira vez à Europa, enviando artigos e entrevistas para publicação na coluna. De volta ao país, participa do processo de instituição da Fundação Bienal, em 1962, e compõe a assessoria de artes plásticas, ao lado de Sérgio Milliet (1898-1966) e Walter Zanini (1925-2013).2

Como crítico de arte, publica os livros Lívio Abramo (1955), Warchavchik e a Introdução da Nova Arquitetura no Brasil 1925-1940 (1965), Wega Liberta em Arte e a coletânea de ensaios críticos Retrospectiva. Figuras, Raízes e Problemas da Arte Contemporânea (ambos em 1975), além de redigir prefácios para diversos catálogos. É autor dos romances A Famosa Revista (1945), em coautoria com Pagu, e Doramundo (1957); do livro de memórias Depois de Tudo; e do livro de contos Km 63 (1979).

Comentário crítico
No exercício constante do que Ana Hoffmann afirma ser “uma crítica didática, orientadora e formadora de opinião, que intermedeia o acesso do público dos leitores de um jornal ao sistema das artes”,3 Geraldo Ferraz é referência para o entendimento das bases do processo de institucionalização da arte moderna no Brasil na segunda metade do século XX. A partir da década de 1940, o autor desenvolve uma atuação mais consistente como crítico de arte, principalmente depois que assume, em 1956, a coluna de artes plásticas do jornal O Estado de S. Paulo. Os artigos para essas colunas, somados aos ensaios que publica em livros e catálogos, constituem o núcleo de sua atividade como crítico de arte.

Esse período é marcado pelo esforço de sistematização da atividade da crítica de arte, que chega ao Brasil com a fundação da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), em 1949, tendo como primeiro presidente Sérgio Milliet. Além de Milliet, os principais críticos em atuação no país nesse momento são Lourival Gomes Machado, Mário Pedrosa e Geraldo Ferraz, sucedendo Mário de Andrade (1893-1945) na difusão do modernismo no Brasil. É também o período da criação do MAM/SP, em 1948, e de sua bienal internacional, em 1951. As salas especiais que as primeiras bienais dedicam aos modernistas brasileiros são parte do projeto de institucionalização e fruto de um primeiro discurso histórico sobre o modernismo, com o qual Ferraz contribui publicando artigos sobre Anita Malfatti (1889-1964), Tarsila do Amaral (1886-1973) e Lasar Segall (1891-1957).

Um traço que marca os escritos de Geraldo Ferraz nesse contexto é a preocupação em instruir o leitor, pois ele tem consciência da carência de informação por parte do público, especialmente a respeito da arte e da literatura modernas. Sintoma dessa preocupação é o fato de diversos artigos selecionados para a coletânea Retrospectiva tomarem como ponto de partida uma efeméride. Fixar uma data na memória do leitor se configura como uma estratégia possível, dentro dos limites de uma coluna de jornal, para a formação de um quadro de referências históricas. Assim, há artigos como Corinth e o Teor Erótico, em comemoração ao centenário de nascimento do pintor alemão Lovis Corinth (1858-1925); Georges Braque Octogenário, motivado pelo aniversário do pintor cubista francês; ou ainda Noventa Anos de Impressionismo, relembrando a exposição que reuniu, em 1874, diversos artistas ligados a essa corrente no ateliê do fotógrafo Nadar (1820-1910), em Paris.

Explicadas as razões das efemérides, Ferraz procura realizar um balanço histórico da importância desses artistas e movimentos, apontando o possível interesse que ainda poderiam ter. É nesse ponto que se pode notar em seus escritos algo além do objetivo didático. Em suas análises, Ferraz introduz uma concepção expressionista da criação artística que perpassa toda sua produção crítica. Já no texto de apresentação para Lívio Abramo, o autor sugere a necessidade que o gravador sentia de “domar a realidade e transfigurá-la”. Semelhante concepção do ato criativo surge também no texto sobre Lovis Corinth, publicado em 1958. O crítico mostra um interesse particular pelo modo como a visão de mundo do artista tomava “expressão material” nos trabalhos, chamando a atenção para o caráter “palpitante” de sua técnica pictórica e para a “grafia furiosa” de suas litografias, águas-fortes e xilogravuras.

Ferraz desenvolve também um interesse especial pelas raízes históricas do expressionismo. Quando tem oportunidade de viajar à Alemanha, em 1961, entrevista justamente os últimos participantes vivos do grupo die brücke [a ponte], fundado em 1905 e considerado o marco inaugural do expressionismo alemão: os pintores Karl Schmidt-Rottluff (1884-1976) e Erich Heckel (1883-1970). Na pequena introdução à entrevista com Schmidt-Rottluff, além de um conhecimento significativo de sua história, é possível notar outro aspecto interessante do pensamento estético de Ferraz sobre o expressionismo. O crítico o qualifica como “uma constante da expressão pictórica”4 e cita artistas de diversas épocas e países nos quais seria possível observar traços expressionistas. Compartilha assim uma concepção trans-histórica do expressionismo, próxima à de outros críticos brasileiros, como Mário de Andrade ou Lourival Gomes Machado, que conduzem análises sobre o barroco mineiro do século XVIII, especialmente as esculturas de Aleijadinho (1730-1814).

Também como Gomes Machado, Geraldo Ferraz valoriza a abstração expressiva das décadas de 1950 e 1960 em detrimento das vertentes construtivas. O gesto e a expressividade dos materiais pictóricos, que no expressionismo histórico são uma estratégia de transfiguração do real, são agora considerados em sua autonomia. Sua expressividade tem valor em si. Esse é o caminho percorrido nas entrelinhas de seu texto crítico de maior fôlego: Wega Liberta em Arte 1954-1974. Na avaliação das duas décadas da pintura de Wega Nery, ganha destaque ainda o debate internacional acerca da abstração expressiva, que o crítico acompanha de perto em seus artigos sobre as últimas bienais da década de 1950.

 

Notas
1Partido político fundado pelo jornalista Plínio Salgado (1895-1975) em 1932, que defende as ideias nazi-fascistas, como o branqueamento da população brasileira.
2HOFFMANN, Ana Maria Pimenta. Crítica de arte e bienais: as contribuições de Geraldo Ferraz. Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, 2007, p. 133.
3 Ibdem, p. 189.
4 FERRAZ, Geraldo. Um criador do expressionismo continua produzindo em Berlim. In: Retrospectiva. Figuras, raízes e problemas da arte contemporânea. São Paulo: Cultrix: Ed. da Universidade de São Paulo, 1975, p. 193.

Exposições 13

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Fontes de pesquisa 4

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  • DICIONÁRIO brasileiro de artistas plásticos. Organização Carlos Cavalcanti e Walmir Ayala. Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1973-1980. 4v. (Dicionários especializados, 5). IC R703.0981 C376d v.2 pt. 1
  • Destinos Mistos/Heloisa Pontes. - São Paulo, Companhia das Letras, 1998. xxxxxx
  • HOFFMANN, Ana Maria Pimenta. Crítica de Arte e Bienais: as contribuições de Geraldo Ferraz. 2007. 251 f. Tese (Doutorado em Artes Visuais) - Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), São Paulo, 2007. Não catalogado
  • Pontual. R703.0981 P818d

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