Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Voltolino

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 14.12.2017
13.07.1884 Brasil / São Paulo / São Paulo
22.08.1926 Brasil / São Paulo / São Paulo

Marechal Hermes da Fonseca, 1911
Voltolino

João Paulo Lemmo Lemmi (São Paulo, São Paulo, 1884 - idem 1926). Caricaturista, desenhista, ilustrador. Em 1896 muda-se para a cidade italiana de Piza onde inicia sua carreira ilustrando alguns periódicos. Retorna a São Paulo em 1904 e emprega-se em estabelecimentos gráficos. No ano seguinte, publica suas primeiras caricaturas no jornal Cara Dur...

Texto

Abrir módulo

Biografia

João Paulo Lemmo Lemmi (São Paulo, São Paulo, 1884 - idem 1926). Caricaturista, desenhista, ilustrador. Em 1896 muda-se para a cidade italiana de Piza onde inicia sua carreira ilustrando alguns periódicos. Retorna a São Paulo em 1904 e emprega-se em estabelecimentos gráficos. No ano seguinte, publica suas primeiras caricaturas no jornal Cara Dura, editado na tipografia de Emilio Riedel, que lhe ensina os primeiros rudimentos do desenho caricatural. Entre 1905 e 1908, trabalha como colaborador ilustrando diversas publicações de língua italiana editadas na cidade. Neste último ano passa a colaborar na revista carioca O Malho. Paralelamente continua a publicar seus desenhos em diversos outros jornais paulistas e, em 1911, trabalha no semanário O Pirralho, fundado por Oswald de Andrade (1890 - 1954). Nesse periódico cria a ilustração para Juó Bananére, pseudônimo utilizado por Alexandre Marcondes Machado (1892 - 1933) nos textos publicados na coluna O Rigalegio - dromedário ilustrato, organo independento do Abax'o Piques i do Bó retiro. O personagem Juó Bananére foi utilizado como porta-voz de crônicas satíricas e impiedosas, principalmente durante a Campanha Civilista, promovida por Rui Barbosa (1849 - 1923) e pelo escritor Olavo Bilac (1865 - 1918). Seus trabalhos possuem conotação combativa e anticlerical, desenvolvendo-se no ambiente urbano paulistano, revelando através da caricatura os contrastes sociais próprios do incipiente processo de industrialização da cidade. Em 1916, funda, com Alexandre Marcondes Machado, o periódico A Vespa, em que retomam as críticas de caráter político personificadas pelo personagem Juó Bananére na coluna intitulada Cartas d'Abax'o Piques.

Análise

Um dos desenhistas de humor mais importantes e atuantes da imprensa paulistana em expansão no início do século XX, João Paulo Lemmo Lemmi, apesar de filho de imigrantes italianos, declarava-se paulistano da gema. Filho do artesão Ernesto Lemmi, aos 12 anos é levado a Pisa, Itália, para completar seus estudos técnicos. De volta ao Brasil, se dedica à caricatura de forma autodidata, tendo colaborado com alguns jornais locais na Itália.

É na imprensa paulistana de língua italiana que encontra espaço para iniciar sua carreira por volta de 1905. Em jornais como Cara Dura: il giornale piu stupido del mondo,1 Il Grilo di Flora e Il Pasquino Coloniale,2 Voltolino consolida os principais traços de seu trabalho: de teor combativo, seu desenho satírico coloca-se a serviço dos problemas sociais e políticos de seu tempo. Como ítalo-paulistano, a figura do imigrante e seu processo de aculturação na nova cidade tornam-se os temas mais freqüentes do artista, ao lado dos efeitos da industrialização nascente no âmbito do espaço urbano e as agruras do cotidiano dos seus novos agentes sociais, como o operariado e a pequena burguesia comercial, sem esquecer da velha oligarquia e da igreja.Dá vida gráfica a Juó Bananére, personagem e pseudônimo literário de Alexandre Marcondes Machado (1892 - 1933), tipo ítalo-paulista criado em 1911 para expressar a mistura das duas culturas através da linguagem falada e escrita.

É somente com sua participação na revista carioca O Malho, entre 1908 e 1909, que seu nome torna-se mais conhecido. Contudo, o reconhecimento nacional de Voltolino é consolidado por sua colaboração na revista O Pirralho, entre 1911 e 1917, na qual chega a publicar 20 desenhos por edição, inclusive diversas capas. A publicação, fundada por Oswald de Andrade (1890 - 1954) e Dolor de Brito, dedica-se ao mesmo tempo à crônica mundana, ao comentário político e à crítica da vida cultural de São Paulo, e é considerada por historiadores "o balão-de-ensaio" do modernismo de 22. Em sua redação, Voltolino trava contato com as polêmicas artísticas de seu tempo ao trabalhar com os artistas Di Cavalcanti (1897 - 1976), Ferrignac (1892 - 1958), Guilherme de Almeida (1890 - 1969) e, naturalmente, o próprio Oswald. Por outro lado, reconhece-se que suas charges e ilustrações são responsáveis pela crítica política mais vigorosa da revista, sendo impossível, como observa o crítico Sérgio Milliet (1898 - 1966), "entender o início do século XX paulista sem os desenhos de Voltolino do Pirralho".

Seus desenhos são conhecidos pela audácia, pelo traçado ágil, nervoso e despreocupado, em que o efeito cômico é atingido mediante um grande poder de síntese, no qual a economia gráfica se destaca. A determinação do risco e rapidez da execução dão organicidade a seus personagens. Voltolino desenha-os primeiro a lápis para depois, já totalmente decidido, finalizá-los com contorno a nanquim. Com relação às cores, gosta de usar as puras e intensas, usualmente trabalhadas em contraste. Salvo quando precisa desenhar em papel couché, em que utiliza a aguada em nanquim e a aquarela, suas cores são saturadas.

A linguagem teatral e sua coleção de gestos humanos, a animalização das personagens, os trocadilhos visuais e verbais, a ironia, o disfarce e o simbolismo são típicos de Voltolino. Contudo, deve-se notar que seu humor não é agressivo, ao contrário, por vezes é complacente, principalmente com o imigrante italiano, pelo qual nutre uma relação de afeto. Na verdade, soube distinguir em suas charges aqueles que "fizeram a América", e lutavam por reconhecimento social no Brasil às vezes de forma ridícula, dos que não conseguiram chegar lá.

Em 1914, passa a contribuir para uma nova revista, A Cigarra, conhecida por seu cuidado com a qualidade gráfica. Também colabora com outras revistas importantes como a D. Quixote, Revista do Brasil, Panoplia, O Parafuso, O Queixoso, O Sacy.

Voltolino trabalha também como ilustrador de anúncios e cartazes, além da ilustração de livros. É responsável pelas ilustrações coloridas da primeira edição de A Menina do Narizinho Arrebitado (1920) e Marquês de Rabicó (1922), ambos de Monteiro Lobato (1882 - 1948).

Notas

1. Cara dura era o nome dado na época ao bonde de segunda classe, ou seja, o bonde dos trabalhadores.
2. Fundado em 1907, o semanário humorístico de língua italiana Il Pasquino Coloniale corporifica a colônia italiana de São Paulo, acompanhando tanto a vida do imigrado e seus descendentes na cidade quanto as aventuras da Itália no cenário internacional. O jornal acaba em 1941 por falta de público. Voltolino colabora com o jornal até o ano de sua morte.

Obras 30

Abrir módulo

Exposições 2

Abrir módulo

Fontes de pesquisa 9

Abrir módulo
  • BELLUZZO, Ana Maria de Moraes. Voltolino e as raízes do modernismo. 220f. 1980. Dissertação (Mestrado) - Escola de Comunicações e Artes - ECA/USP. São Paulo, 1980.
  • CRUZ, Heloisa de Faria (org.). São Paulo em revista: catálogo de publicações da imprensa cultural e de variedades paulistana 1870-1930. São Paulo: Arquivo do Estado, 1997. 280 p., il. p.b. (Coleção memória, documentação e pesquisa, 4).
  • FONSECA, Joaquim da. Caricatura: a imagem gráfica do humor. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1999.
  • GULLAR, Ferreira (et. al). 150 anos de pintura no Brasil: 1820-1970. Rio de Janeiro: Colorama, 1989.
  • LAGO, Pedro Corrêa do. Caricaturistas brasileiros: 1836-1999. Rio de Janeiro: Sextante Artes, 1999. p. 98-99.
  • LEMOS, Renato (org.). Uma história do Brasil através da caricatura: 1840/2001. Rio de Janeiro: Bom Texto: Letras e Expressões, 2001.
  • LIMA, Herman. História da caricatura no Brasil III. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1963.
  • LOBATO, Monteiro. Obras completas de Monteiro LOBATO - 04: idéias de Jéca Tatú. São Paulo: Brasiliense, 1946. 275 p., il. p.b. (Literatura Geral - Série, 1).
  • LOUZADA, Maria Alice do Amaral. Artes plásticas Brasil 1997: seu mercado, seus leilões. São Paulo: Júlio Louzada, 1997. v. 9.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: