Artigo da seção pessoas Éolo Maia

Éolo Maia

Artigo da seção pessoas
Artes visuais  
Data de nascimento deÉolo Maia: 1942 Local de nascimento: (Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte) | Data de morte 2002 Local de morte: (Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte)

Biografia
Éolo Maia (Belo Horizonte MG 1942 - idem 2002). Arquiteto, engenheiro de obra e editor. Forma-se, em 1967, pela Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Tendo freqüentado anteriormente cursos técnicos de mineração e metalurgia em Ouro Preto, Minas Gerais, trabalha inicialmente como engenheiro de obras. Em seguida, passa um período em Brasília trabalhando, já como arquiteto, ao lado de João Filgueiras Lima, o Lelé (1932), onde toma contato com experiências de pré-fabricação (de quê???). Suas primeiras obras têm influência direta do brutalismo da "escola paulista", marcado pelo uso intensivo do concreto armado, e pela construção de volumes prismáticos (????) e regulares. É exemplar dessa fase a Residência João Henrique Grossi, 1969, em Belo Horizonte. No início dos anos 1970, passa a ter como influência predominante a obra de Louis I. Kahn (1901 - 1974), lançando mão de aberturas em formas geométricas puras, como na Residência Renan Alvim, 1971, em Belo Horizonte. Progressivamente, parte para a exploração de volumetrias mais livres, como o prisma triangular da Residência Hélio Carvalho, 1978, em Belo Horizonte.

A obra da Capela de Santana do Pé do Morro, 1979, em Ouro Branco, Minas Gerais, marca uma ruptura em sua linguagem, em direção à liberdade de expressão plástica que o conduzirá à crítica pós-moderna. Nesse período, participa da fundação das revistas Vão Livre e Pampulha, 1979/1982, que se tornam veículos catalisadores da crítica arquitetônica pós-moderna em Minas Gerais e no Brasil. Em 1981, consolida uma parceria profissional com Jô Vasconcellos e Sylvio de Podestá: o escritório Três Arquitetos. A produção do trio assume o caráter híbrido das citações e colagens, utilizando perfis metálicos coloridos, e elementos tomados ironicamente junto à tradição clássica, como no Centro de Apoio Turístico Tancredo Neves, 1984, em Belo Horizonte, conhecido popularmente como "Rainha da Sucata". Simultaneamente, valorizam também o uso de materiais e elementos regionais, como o tijolo cerâmico e a abóbada, próprios à tradição construtiva de fornos de carvão vegetal na região de Timóteo, Minas Gerais, onde constroem o Grupo Escolar Vale Verde, 1983. Suas referências principais são Robert Venturi (1925), por um lado, e Mario Botta (1943), por outro.

Em 1989, com o afastamento de Podestá, o escritório é renomeado como Maia Arquitetos Associados, construindo uma série de edifícios verticais de grande porte, como o Centro Empresarial Raja Gabaglia e o Condomínio Officenter, 1989, e o edifício Le Corbusier, 1991, todos em Belo Horizonte. Em 2002, o arquiteto fica em primeiro lugar no concurso para o Centro de Arte Corpo, com projeto feito em parceria com o escultor Amilcar de Castro (1920 - 2002). Ao longo da carreira, recebe a medalha de ouro "Cerâmica Zanon" na 2ª Bienal Internacional de Arquitetura de Buenos Aires, 1987, e o Premio Latinoamericano Diário La Nación, na 6ª edição do mesmo evento, em 1995, entre outros.

Comentário Crítico
Éolo Maia é o principal introdutor da arquitetura pós-moderna no Brasil, numa "cruzada" que se inicia logo no início dos anos 1980, quando funda as revistas Vão Livre e Pampulha, 1979/1982, em Belo Horizonte, ao mesmo tempo que se associa a Jô Vasconcellos e Sylvio de Podestá no escritório Três Arquitetos, em 1981. Irreverente e polêmico, é o autor de projetos que são considerados manifestos do "estilo" revisionista, entre os quais se destaca o Centro de Apoio Turístico Tancredo Neves, 1984, em Belo Horizonte. Edifício marcante na capital mineira, se torna conhecido popularmente como "Rainha da Sucata", dada a sua mistura iconoclasta de materiais e elementos construtivos, tais como arcadas, fachada escalonada que se destaca da volumetria interna, colunas que fazem citações da arquitetura clássica, clarabóias de vidro e passadiços metálicos em cores berrantes, e elementos alegóricos figurativos de teor pop, como uma grande laranja seccionada, que serve para camuflar o sistema de ventilação dos sanitários.

Como reconhece o ensaísta Bruno Santa Cecília, Éolo sempre "canibalizou" a obra de outros arquitetos, privilegiando o uso de "formas já experimentadas" ao invés de buscar o ineditismo.1  Nesse sentido, se aproxima da idéia de invenção como apropriação criativa de um léxico dado, defendida pelo arquiteto americano Robert Venturi (1925). Daí a sua vocação essencialmente pós-moderna, verificável mesmo na primeira fase de sua carreira, entre 1966 e 1981, quando trabalha a partir de um repertório racionalista. Inicialmente influenciado pelo "brutalismo" de Vilanova Artigas (1915 - 1985) e dos arquitetos "metabolistas" japoneses, Maia projeta edifícios que nitidamente tomam de empréstimo soluções dos mestres. É o caso da grande viga-empena com apoios afinados e diagonais na Residência Marcos Tadeu, 1966, que cita a Garagem de Barcos do Iate Clube Santa Paula, 1961, de Artigas, ou os cilindros verticais e escultóricos do Condomínio Tinguá, 1968, que se reportam ao Centro de Comunicações de Kofu, 1964, de Kenzo Tange (1913 - 2005).

Essa predisposição para o hibridismo se inspira principalmente no modernismo tardio de Louis I. Kahn (1901 - 1974), que introduz um geometrismo compositivo de fundo simbólico em suas obras. Maia, contudo, abstrai a correspondência hierárquica entre forma e programa estabelecida pelo arquiteto americano, vazando suas fachadas com formas "puras" - predominantemente circulares -, em edifícios feitos para os mais diversos programas. É o caso, por exemplo, do Colégio Pré-Universitário de Brasília, 1970, da Residência Renan Alvim, 1971, do Hotel Verdes Mares, 1976, e da Sede do Instituto de Arquitetos do Brasil de Minas Gerais, 1978. Visivelmente, no caso do arquiteto mineiro, essa incorporação simbólica não busca destacar funções, mas acentuar uma liberdade plástica eminentemente volumétrica.

Não há duvida de que o seu freqüente recurso ao pastiche fala muito sobre a superficialidade da arquitetura pós-moderna no Brasil, distante de uma preocupação mais consistente em relação a qualquer contextualismo histórico ou distorção formal. Por outro lado, essa produção encontra legitimidade na medida em que pôde evidenciar o maneirismo da cartilha moderna no Brasil àquela altura, tornada, em muitos casos, um novo academicismo. São interessantes, nesse sentido, suas obras que se colocam um pouco mais distantes da estridência formal, contrariando os princípios modernos pelo modo como rompem o monoblocos contínuo, ou utilizam materiais mais próximos a uma tradição artesanal popular, em obras que lembram os trabalhos do arquiteto suíço Mario Botta (1943). Tal é o caso, por exemplo, do Hotel Verdes Mares, 1976, cuja planta é uma sobreposição não alinhada de duas cruzes, gerando blocos independentes mas articulados, e do Grupo Escolar Vale Verde, 1983, em que a utilização intensiva de tijolo cerâmico para paredes e abóbadas toma partido da tradição construtiva dos fornos, dominantes na região de Timóteo, Minas Gerais.

São dignas de destaque suas intervenções em sítios históricos, como a Capela de Santana do Pé do Morro, 1979, considerada sua obra-prima, e a Residência Arcebiscopal de Mariana, 1982. A primeira, incorpora as ruínas de uma edificação próxima à fazenda transformando-a em altar-mor, que é envolvido por um pavilhão de aço, vidro e madeira, com uma cobertura que avança sobre plano de vedação, funcionando como quebra-sol. Na segunda, erige uma volumetria silenciosa que reproduz a tipologia das edificações históricas vizinhas, mas cujos planos caiados ficam destacados pela estrutura metálica recuada.

A partir do final da década de 1980, Éolo Maia projeta e constrói uma série de edifícios verticais de grande porte em Belo Horizonte, como o Centro Empresarial Raja Gabaglia e o Condomínio Officenter, 1989, e o edifício Le Corbusier e o Fashion Center, 1991. Eles, valorizam a cobertura dos volumes utilizando materiais de texturas e cores variadas, aproximando-se da linguagem corrente da arquitetura corporativa internacional. Mais interessante, no entanto, são os seus últimos projetos, como a Academia Wanda Bambirra, 1997, e o Centro de Arte Corpo, 2002. O primeiro, um volume compacto revestido por um plano irregular de chapa metálica, em clara referência ao organicismo expressionista de Frank O. Gehry (1929), e o segundo, ao contrário, composto por volumes prismáticos fendidos diagonalmente. Este, concebido a partir de uma clara matriz construtiva, e feito em parceria com o escultor mineiro Amilcar de Castro (1920 - 2002). Em ambos os casos, percebe-se uma integração mais efetiva entre construção e plasticidade, superando a mera citação ou colagem de elementos isolados.

 

Nota
1 SANTA CECÍLIA, Bruno. O mito da originalidade e a obra de Éolo Maia, In: ______. Éolo Maia: complexidade e contradição na arquitetura brasileira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006, pp. 185-187.

Outras informações de Éolo Maia:

  • Outros nomes
    • Eolo Maia
  • Habilidades
    • Arquiteto

Exposições (1)

Fontes de pesquisa (4)

  • MAIA, Éolo; VASCONCELLOS, Jô; PODESTÁ, Sylvio Enrich de. 3 Arquitetos. Belo Horizonte: 1981.
  • PEREIRA, Marcos da Veiga (ed.). Éolo Maia & Jô Vasconcellos - arquitetos. Belo Horizonte: Salamandra, 1991.
  • SABBAG, Haifa Yázigi. Éolo Maia: uma trajetória com o espírito de Minas, e muita festa. Arcoweb, 2002. Disponível em: http://www.arcoweb.com.br/debate/debate41.asp, 2002.
  • SANTA CECÍLIA, Bruno. Éolo Maia: complexidade e contradição na arquitetura brasileira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ÉOLO Maia. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa245489/eolo-maia>. Acesso em: 14 de Out. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7