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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Mira Schendel

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 29.07.2022
07.06.1919 Suíça / a definir / Zurique
24.07.1988 Brasil / São Paulo / São Paulo
Reprodução Fotográfica Paulo Scheuenstuhl

Sem Título, 1975
Mira Schendel
Técnica-mista sobre papel
50,00 cm x 40,00 cm
,

Myrrha Dagmar Dub (Zurique, Suíça, 1919 – São Paulo, São Paulo, 1988). Desenhista, pintora, escultora. A produção artística de Mira Schendel é constituída por séries de trabalhos, marcadas por experiências bastante diversas em relação ao formato, às  dimensões, aos suportes escolhidos e à técnica adotada.

Texto

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Myrrha Dagmar Dub (Zurique, Suíça, 1919 – São Paulo, São Paulo, 1988). Desenhista, pintora, escultora. A produção artística de Mira Schendel é constituída por séries de trabalhos, marcadas por experiências bastante diversas em relação ao formato, às  dimensões, aos suportes escolhidos e à técnica adotada.

Muda-se para Milão, na Itália, na década de 1930, onde estuda arte e filosofia. Abandona os estudos durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Estabelece-se em Roma em 1946 e, em 1949, obtém permissão para se mudar para o Brasil. 

Inicialmente se fixa em Porto Alegre, onde trabalha com design gráfico, escultura de cerâmica, poemas e restauro de imagens barrocas. Realiza retratos e naturezas-mortas de tons escuros, assinando com seu nome de casada, Mirra Hargesheimer. Sua participação na 1ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1951, permite contato com experiências internacionais e a inserção na cena nacional.

Em 1953, muda-se para São Paulo e adota o sobrenome Schendel. Sua linguagem pictórica se simplifica progressivamente em trabalhos que exploram o tratamento dado à superfície. De 1954 a 1956, realiza pinturas encorpadas em tons geralmente sombrios, como cinza e ocre, de matéria densa e opaca, em têmpera ou óleo sobre madeira ou tela.

A década de 1960 é um período de intensa e variada produção. Nos primeiros anos, dedica-se sobretudo à pintura, misturando técnicas e usando diferentes suportes e materiais, como gesso, cimento, areia e argila. Essas superfícies densas evidenciam o suporte como constituinte ativo da obra. De 1962 a 1964, realiza diversos Bordados, seus primeiros trabalhos com papel japonês, feitos com tinta ecoline, geralmente com desenhos geométricos e cores escuras, mas transparentes, depois retomados na década de 1970.

De 1964 a 1966, produz grande quantidade de desenhos em papel de arroz, conhecidos como Monotipias. Essas obras são feitas a partir do entintamento de uma lâmina de vidro sobre a qual é aplicada uma folha de papel. O traçado de linhas é feito no avesso do papel com a unha ou algum instrumento pontiagudo. Desenhar pelo verso é uma opção conceitual, pois a artista pesquisa assiduamente um meio de se aproximar da transparência. Como afirma o crítico de arte Rodrigo Naves (1955), esse traço indireto diminui o controle sobre o resultado, incorporando irregularidades e imprecisões que interessam à artista mais do que a vontade de ordenação e o controle dos meios1 O procedimento integra a investigação sobre as potencialidades plásticas dos elementos da linguagem, além de explorar a liberdade e delicadeza do gesto, que traça formas abertas e imprecisas.

Numa série de desenhos de 1965, postumamente chamados Bombas, a artista cria, com nanquim sobre papel úmido, grandes massas negras de contornos indefinidos, mais ou menos retangulares. Em 1966, cria Droguinhas, objetos tridimensionais vazados sem forma definida, elaborados com papel de arroz retorcido e trançado, tramado com nós. Segundo a historiadora da arte Maria Eduarda Marques, a série representa uma intenção desmistificadora diante do mercado e da institucionalização da arte, pois está, segundo palavras da própria artista, "em oposição ao 'permanente' e ao 'possível'”.2 

Em 1968, começa a produzir obras com acrílico, como Objetos gráficos e Toquinhos. Em 1969, realiza na 10ª Bienal Internacional de São Paulo a instalação Ondas paradas de probabilidade, constituída por fios de nylon pendentes do teto ao chão, pendurados em grades quadriculadas. Nesse período, explora as projeções da luz sobre a parede com Transformáveis, pequenas tiras de acrílico transparente articuladas umas às outras, semelhante ao metro dobrável.

Em 1970 e 1971, realiza um conjunto de 150 cadernos, desdobrados em várias séries, muitas das quais são expostas no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC/USP). Nos anos seguintes, retoma séries antigas, faz gravuras a partir de desenhos relacionados a trabalhos anteriores e cria séries curtas de trabalhos de pequenas dimensões, menos divulgadas, em muitas das quais se percebe influência da filosofia oriental e características místicas, como em Mandalas e Paisagens noturnas, em ecoline sobre papel.

Entre 1978 e 1979, produz a série Paisagens de Itatiaia, em têmpera negra sobre papel, com letras aplicadas, mais informais, em que se delineiam montanhas. Para a 16ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1981, produz 12 pequenos trabalhos chamados I Ching.

Volta às naturezas-mortas com uma linguagem ainda mais econômica em Mais ou menos frutas, conjunto de 1983. Dessa vez, compõe com traço seco, sem manchas ou sombras, valendo-se do recurso de ordenação e seriação. Para o crítico Alberto Tassinari, "estes desenhos estão, de fato, a meio caminho entre a figuração e a abstração. São esquemas de frutas [...]. O fato de serem esquemas, porém, não lhes retira a singularidade"3.

Em 1987, concebe a série Sarrafos, com têmpera e gesso sobre madeira, a última que chega a concluir. Para o crítico Ronaldo Brito, "muito além de transgredir o limite entre categorias (pintura, relevo, escultura), os Sarrafos exibem uma evidência desconcertante que por si só torna teóricas tais divisões". Operando sobre a superfície branca do retângulo e a tridimensionalidade da barra de madeira preta que se projeta no espaço, a artista obtém o que o autor qualifica como um "salto à dimensão do corpóreo"4

Os elementos que reaparecem constantemente e se desdobram entre uma série e outra costuram as variadas ramificações da obra de Mira Schendel, conferindo coerência às suas questões e tornando inconfundível a sua linguagem. 

Notas

1. NAVES, Rodrigo. Pelas costas. In: SCHENDEL, Mira. No vazio do mundo. São Paulo: Editora Marca D'Água, 1996. p. 63. [Catálogo da exposição realizada na Galeria de Arte do Sesi, em São Paulo, com curadoria de Sônia Salzstein].

2. A autora desenvolve esse argumento recorrendo a trecho extraído de carta de Mira Schendel ao crítico de arte Guy Brett. Ver: MARQUES, Maria Eduarda. Mira Schendel. São Paulo: Cosac & Naify, 2001. p. 35.

3. TASSINARI, Alberto. Mais ou menos frutas. In: SCHENDEL, Mira. No vazio do mundo, op. cit. p. 271.

4. BRITO, Ronaldo. Singular no plural: experiência crítica. São Paulo: Cosac & Naify, 2005. p. 294.

 

Obras 54

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Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Composição

Técnica-mista sobre madeira
Reprodução fotográfica Iara Venanzi/Itaú Cultural

Geladeira

Nanquim, grafite e guache sobre papel
Reprodução fotográfica The Museum of Modern Art, New York

Perfurados III

Papel perfurado
Reprodução fotográfica Romulo Fialdini

Sem Título

Naquim sobre papel

Exposições 405

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Feiras de arte 5

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Fontes de pesquisa 16

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  • CHIARELLI, Tadeu. Arte internacional brasileira. São Paulo: Lemos, 1999.
  • DO SILÊNCIO: vers Leonilson. São Paulo: Galeria Marilia Razuk, 2017. Disponível em: www.galeriamariliarazuk.com.br/exposicoes/do-silencio-vers-leonilson. Acesso em: 29 set. 2021. Exposição realizada de 11 ago. 2017 a 29 out. 2017.
  • GESTO e estrutura. Texto Ronaldo Brito. São Paulo: Gabinete de Arte Raquel Arnaud, [19--].
  • LEITE, José Roberto Teixeira. 500 anos da pintura brasileira. [S.l.]: Log On Informática, 1999. 1 CD-ROM.
  • LOUZADA, Júlio. Artes plásticas Brasil 1985: seu mercado, seus leilões. São Paulo: J. Louzada, 1984. v. 1.
  • MARQUES, Maria Eduarda, EUVALDO, Célia (coord.). Mira Schendel. Coordenação editorial Rodrigo Naves; projeto gráfico Fábio Miguez; apresentação Pedro Henrique Mariani. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.
  • PONTUAL, Roberto. Entre dois séculos: arte brasileira do século XX na coleção Gilberto Chateaubriand. Rio de Janeiro: Edições Jornal do Brasil, 1987.
  • SCHENBERG, Mario. Pensando a arte. São Paulo: Nova Stella, 1988.
  • SCHENDEL, Mira. Mira Schendel a forma volátil. Apresentação Helena Severo, Vanda Mangia Klabin; texto Sônia Salzstein, Paulo Venancio Filho, Célia Euvaldo. Rio de Janeiro: Centro de Arte Hélio Oiticica, 1997.
  • SCHENDEL, Mira. Mira Schendel. São Paulo: Paulo Figueiredo Galeria de Arte, 1982.
  • SCHENDEL, Mira. Mira Schendel: pinturas recentes. São Paulo: Paulo Figueiredo Galeria de Arte; Porto Alegre: Galeria Tina Presser, 1985.
  • SCHENDEL, Mira. Mira Schendel: singular no plural. Rio de Janeiro: Funarte/Galeria Sérgio Milliet, 1988.
  • SCHENDEL, Mira. Mira Schendel: óleos e desenhos. Apresentação de Mário Schenberg. São Paulo: Galeria Astréia, 1964.
  • SCHENDEL, Mira. Mira. Campinas: Galeria Aremar, 1964.
  • SCHENDEL, Mira. Mira. Mira Schendel. Apresentação Claudia Toni; texto Gabriela Suzana Wilder, Agnaldo Farias. São Paulo: MAC/USP, 1990.
  • SCHENDEL, Mira. No vazio do mundo. Curadoria Sônia Salzstein; apresentação Carlos Eduardo Moreira Ferreira. São Paulo: Marca D'Água, 1996.

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