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José Paulo Paes

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 22.03.2017
22.06.1926 Brasil / São Paulo / Taquaritinga
09.10.1998 Brasil / São Paulo / São Paulo
José Paulo Paes (Taquaritinga, São Paulo, 1926 - São Paulo, São Paulo, 1998). Poeta, tradutor, ensaísta e crítico literário. Filho de Paulo Artur Paes da Silva, português, e de Diva Guimarães, brasileira, cresce na casa do avô materno, J. V. Guimarães, livreiro e tipógrafo. Em 1943, vai a São Paulo para tentar vaga no curso técnico do Colégio Ma...

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Biografia

José Paulo Paes (Taquaritinga, São Paulo, 1926 - São Paulo, São Paulo, 1998). Poeta, tradutor, ensaísta e crítico literário. Filho de Paulo Artur Paes da Silva, português, e de Diva Guimarães, brasileira, cresce na casa do avô materno, J. V. Guimarães, livreiro e tipógrafo. Em 1943, vai a São Paulo para tentar vaga no curso técnico do Colégio Mackenzie, não consegue, e para manter-se na cidade, trabalha com assistente do escritor Tito Batini. A morte do avô, contudo, o leva de volta a Taquaritinga. No início de 1944, presta exames e ingressa no Instituto de Química de Curitiba, formando-se químico industrial, em 1948. Nos cinco anos em que permanece em Curitiba, frequenta o Café Belas Artes, ponto de encontro de escritores, jornalistas, artistas plásticos e músicos. Colabora nos suplementos literários de O Dia e Diário Popular e na revista O Livro, como poeta e divulgador das ideias de artistas modernos. Em 1946, frequenta a Livraria Ghignone, onde conhece Dalton Trevisan (1925), Wilson Martins (1921-2010) e Temístocles Linhares (1905-1933). Torna-se colaborador da revista Joaquim, fundada e dirigida por Dalton Trevisan, de quem se torna amigo. Em 1947, participa, em Belo Horizonte, do 2º Congresso Brasileiro de Escritores, onde conhece Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), que exerce grande influência em sua primeira publicação, o livro de poesia O Aluno, com projeto gráfico do pintor Carlos Scliar (1920-2001). Ainda em Curitiba, aproxima-se do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e envolve-se temporariamente na militância política. Em 1949, estabelece-se em São Paulo, e trabalha por 11 anos no Laboratório Squibb, como químico analista. A partir da década de 1950, contribui com artigos e poemas para o Jornal de Notícias e O Tempo. Casa-se, em 1952 com Doroteia Costa, mais conhecida como Dora, primeira bailarina do Theatro Municipal de São Paulo, com quem vive até sua morte. Nesse ano, entra para a seção paulista da Associação Brasileira de Escritores, da qual se torna secretário e onde ministra cursos de literatura. Em 1960, deixa a indústria farmacêutica e passa a dirigir o departamento editorial da Cultrix, em que permanece até 1982. A partir de então, dedica-se exclusivamente a escrever e a traduzir, colaborando mais regularmente nos suplementos literários de O Estado de S.Paulo e da Folha de S.Paulo. Em 1987, atua como professor visitante do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP) e dirige a oficina de tradução de poesia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Reconhecido por sua importante contribuição como tradutor de diversos idiomas, em 1989, recebe do presidente da Grécia a Cruz de Ouro da Ordem de Honras, por suas traduções do grego antigo e moderno.  

Análise

A obra de José Paulo Paes exige comentários críticos em várias áreas, uma vez que sua importância se deve à sua obra poética, à produção ensaística e ao trabalho com tradução e teoria da tradução.

Estreando com O Aluno, em 1947, e colaborando em Joaquim, uma das revistas porta-vozes da chamada Geração de 45, figura como um dos representantes dos poetas que buscam superar a herança modernista da geração de 22. Para isso, pretendia-se retomar a dicção nobre e elevada da lírica, bem com as formas e a métrica tradicionais - estas já revisitadas, nessa época, pelos poetas do primeiro modernismo. À elevação do tom e à linguagem nobre, mesclava-se uma poesia de tonalidade intimista, com certa filiação surrealista. Mas, desde o livro de estreia, a poesia de José Paulo Paes não encontra plena afinidade com temas e linguagem mais típicos da Geração de 45, uma vez que se concentra no mal-estar e na angústia do lugar do escritor, num mundo governado pelas mercadorias.

Nas obras consecutivas, Cúmplices (1951), Novas Cartas Chilenas (1954) e Epigramas (1958), revela-se a formação de um poeta de voz própria, não tão marcado pela influência de Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes (1901-1975). A linguagem e os temas do cotidiano infundem novos sentidos à retomada das formas clássicas, como em Madrigal: "Meu amor é simples, Dora, / Como a água e o pão. / / Como o céu refletido / Nas pupilas de um cão" (de Cúmplices, inteiramente centrado no amor por Doroteia Costa, sua mulher). Também as tensões sociais do período começam a ocupar lugar na produção do poeta, que revisita formas literárias de crítica ao poder, como ocorre em Novas Cartas Chilenas, em alusão ao texto de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). O tom paródico e irônico da poesia ganha força, numa espécie de continuidade transformada do poema-piada de Oswald de Andrade (1890-1954). Pode-se ver a retomada da influência do primeiro modernismo num poema como L´Affaire Sardinha: "O bispo ensinou ao bugre / que pão não é pão, mas Deus / presente em eucaristia. / / E como um dia faltasse / pão ao bugre, ele comeu / o bispo, eucaristicamente". Já nesse período, o verso epigramático marca a novidade da poesia de Paes.

Em 1967, aproxima-se da poesia concreta. Trata-se de pesquisar a sintaxe espacial, abandonando o verso como unidade poética e propondo a unidade verbivocovisual do poema. Em vez da poética intimista e estetizante, que domina a Geração de 45, é preciso formular e pôr em prática novos temas, formas e concepções da linguagem poética. Buscando a antiexpressão (dos sentimentos), propõe uma poética fundada na exploração dos materiais da língua (o som, os trocadilhos, a letra impressa, a superfície da palavra, os tipos gráficos etc.). Anatomias é um livro que exercita tais proposições, ao mesmo tempo que permite o desenvolvimento da linha de força que se mostra anteriormente na poesia de Paes: a paródia e a ironia. É o que se pode ler, por exemplo, em Kipling Revisitado: "Se etc. / se etc. / se etc. / se etc. / se etc. / se etc. / se etc. / / serás um teorema / meu filho". Em Anatomias, o humor se dirige também contra o momento ditatorial, pós-1964, numa versão particular do que é proposto como "salto participante" da poesia concreta.

Em Meia Palavra (1973), José Paulo Paes atinge excelência poética. O humor, antes mais diretamente oswaldiano, presta-se menos ao jogo, e se volta como arma catártica contra a opressão da ditadura brasileira. Na obra Resíduo (1980) persistem as concepções da poesia concreta, com relativa radicalização, dada a inclusão de elementos propriamente visuais (fotos, cartazes) na construção do poema. Ao mesmo tempo, o traço mais particular da obra do poeta - a ironia e a autoironia - ganha contundência. A fidelidade relativa ao abandono do verso não o impede de retomar as formas consagradas e reativá-las com a linguagem coloquial. A isso se soma, de forma mais contundente, o tom epigramático, que, no caso de sua obra, tende ao irônico ou satírico. Além disso, esses epigramas costumam focalizar a perspectiva do pequeno (a casa, o jardim, a rua) para expressar a amplitude do drama do homem contemporâneo da cidade.

Com a reunião de seus poemas em Um por Todos (1986), torna-se mais perceptível que a força poética da obra se dá no agrupamento dos poemas isolados, pois revela linhas de continuidade e de superação da construção da "voz própria", que o poeta procura desde a publicação de O Aluno. O melhor de sua produção vem logo a seguir, com Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992) e A Meu Esmo (1995).

O mesmo recurso do jogo verbal, usado na obra adulta, quando aplicado à produção de poesia para crianças, assim como a tematização do cotidiano, ou, ainda, a perspectiva da voz lírica pelo ângulo infantil, permitem efeitos de surpresa e de estranhamento que encantam o público infantil e lhe possibilita a entrada no universo artístico. José Paulo Paes, assim, busca contribuir para superar a aversão que tivera pela poesia, ainda criança, devida a escolhas de poemas convencionais e sem humor que é obrigado a conhecer nessa época.

Sua formação em literatura e línguas estrangeiras, fundamentalmente autodidata, leva-o também a compreender as exigências e necessidades do público leigo que, alheio à linguagem especializada das academias, não deixa contudo de ter interesse no literário e no interpretativo. Vem daí a dedicação de Paes à tradução - cujos prêmios recebidos atestam a importância - bem como, e especialmente, ao trabalho de crítico e ensaísta. Voltados inicialmente para um público não especializado e originalmente publicados em periódicos, seus textos têm o objetivo de formar o leitor comum para os sentidos da obra literária, devolvendo-lhe o prazer da leitura.

Outros objetos de interesse de seus estudos são, por exemplo, as questões de influência na obra literária e as implicações e dificuldades que cercam o ofício da tradução. Visando sempre à perspectiva do "homem comum" - e não a do especialista em letras, título que sempre recusa -, vários desses ensaios trazem contribuição decisiva para os estudos literários no Brasil (como O Pobre-Diabo no Romance Brasileiro, As Dimensões da Aventura e Por uma Literatura Brasileira de Entretenimento, que integram a obra A Aventura Literária, 1990).

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Fontes de pesquisa 14

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  • ARRIGUCCI Júnior, Davi. O Livro do Alquimista. In: PAES, José Paulo. Um por Todos. São Paulo: Brasiliense, 1986. (Republicado em Céu, Inferno. São Paulo: Ática, 1988, p. 103-113.).
  • ARRIGUCCI Júnior, Davi.Agora É Tudo História. In: PAES, José Paulo. Melhores Poemas. São Paulo: Global, 1983, p. 7-53.
  • ARÊAS, Vilma. O armazém literário de José Paulo Paes. In: PAES, José Paulo. Armazém Literário. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 7-11.
  • BOSI, Viviana. Poesia em trânsito. In: Revista de Letras, n. 45, São Paulo: Unesp, 2005, p. 71-87.
  • CAMPOS, Augusto. Do Epigrama ao Ideograma (orelha de Apresentação). In PAES, José Paulo. Anatomias. São Paulo: Cultrix, 1967.
  • FORTUNA, Felipe. Passeio Irônico. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro. 27/abr/1986.
  • GRÜNEWALD, José Lino. O Quarto. O Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 22 mar 1969.
  • MARTINS, Wilson. Itinerário de um Poeta. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 9/ma/1981.
  • MARTINS, Wilson. Itinerário de um Poeta. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 9/ma/1981.
  • MOISÉS, Carlos Felipe. A Poesia e a Vida na Obra de José Paulo Paes. O Estado de S. Paulo. São Paulo. 06/jan/1987.
  • NAVES, Rodrigo. Um homem como outro qualquer: José Paulo Paes. In: PAES, José Paulo. Poesia Completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.17-30.
  • Programa da Jornada Internacional do Teatro para a Infância e Juventude - Mostra de Teatro Infantil nos Centros Educacionais Unificados CEUs - espetáculo: Poemas pra Brincar - 2004. não catalogado
  • RIBEIRO, Ésio Macedo. Brincadeiras de Palavras. A ênese da Poesia Infantil de José Paulo Paes. São Paulo: Giordano, 1998.
  • VILLAÇA, Alcides. Meia Palavra de Paes, ou Uma Palavra e Meia. Suplemento Literário de Minas Gerais. 12/abr/1975.

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