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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Lia de Itamaracá

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 28.06.2022
12.01.1944 Brasil / Pernambuco / Itamaracá
Registro fotográfico Marcus Leoni

Lia de Itamaracá, 2022

Maria Madalena Correia do Nascimento (Itamaracá, Pernambuco, 1944). Cantora, compositora, cirandeira. Patrimônio vivo do estado de Pernambuco, é reconhecida por sua atuação como divulgadora da ciranda no Brasil e no exterior.

Texto

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Maria Madalena Correia do Nascimento (Itamaracá, Pernambuco, 1944). Cantora, compositora, cirandeira. Patrimônio vivo do estado de Pernambuco, é reconhecida por sua atuação como divulgadora da ciranda no Brasil e no exterior.

Nascida em uma família pobre, seu contato com a música se dá por meio dos folguedos católicos celebrados na Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, como a Festa de Nossa Senhora do Pilar, os reisados e os pastoris, nos quais aprende loas e canções. Apaixonada pelas rodas de coco e ciranda, aos 12 anos se torna cantora amadora nas festas de São João. Adulta, frequenta a ciranda de Dona Duda (1923-2022) na Praia do Janga, importante ponto de encontro de mestres cirandeiros. Essa experiência contribui para seu aprendizado e para a formação de seu repertório.

A inserção na cena musical ocorre nos anos 1970, momento em que a ciranda conquista visibilidade nos meios de comunicação, em grande parte devido à ação de intelectuais ligados ao Movimento de Cultura Popular (MCP), no final da década de 1960, e ao Movimento Armorial, surgido na década de 1970. É o caso da pesquisadora e cantora Teca Calazans (1940), que lança um compacto simples em 1967 com uma seleção de cirandas, entre as quais “Quem me Deu Foi Lia”, de Antonio Baracho (1907-1988). A canção se populariza e contribui para divulgar a carreira de Lia de Itamaracá, que, apesar de desmentida sobre sua suposta participação na composição, torna-se uma de suas principais intérpretes.

A cirandeira assume o papel de agitadora cultural na ilha, conduzindo rodas no bar O Sargaço, onde também trabalha como cozinheira. Participa ainda de concursos públicos promovidos para fomentar o turismo na região e, em 1974, vence o V Festival de Cirandas, realizado no Pátio de São Pedro, na capital pernambucana. Nessa época, a ciranda se transforma num espetáculo direcionado para a classe média, deslocando-se de lugares públicos, como a praia e a praça, para ambientes privados, como bares e teatros. O processo de criação também passa por mudanças, substituindo-se a produção coletiva pela autoria individual – muitas vezes disputada entre diferentes compositores – e a prática da improvisação pelo registro em um suporte físico. A trajetória de Lia reflete esse processo, que culmina na transformação da ciranda em gênero fonográfico.

Sua voz chega ao disco, entretanto, apenas em 1977. Intitulado Rainha da Ciranda, o LP traz composições de mestres como Baracho e Dona Duda, além de canções de Ozires Diniz e Fernando Borges – produtores do álbum –, Capiba (1904-1997) e da própria Lia, como o sucesso “Moça Namoradeira”. Com exceções das marchas-rancho “Pai Baracho” (Ozires Diniz) e “Ciranda de Lia” (Paulo Fernando Ferreira), cuja instrumentação é marcada por violão e flauta, a marcação da caixa e do bombo perpassa a sonoridade do álbum, base para o canto puxado pela cirandeira. Nessa época, Lia usa um timbre mais metálico, tipo de emissão que favorece a projeção da voz em lugares abertos. Embora o disco possibilite a divulgação do trabalho da artista para além do âmbito regional, ele não lhe proporciona retorno financeiro. Para sobreviver, trabalha como merendeira em uma escola pública e como guia de turismo. 

Após um hiato de trinta anos sem gravar, seu nome volta a receber atenção da mídia em 1998, quando participa do evento Abril Pro Rock, em Olinda. Na mesma época, estabelece uma parceria duradoura com o produtor Beto Hees, que promove suas apresentações no Brasil e no exterior. Ainda em 1998, Lia participa do festival internacional Vozes do Mundo, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro. O áudio captado no festival dá origem ao CD Eu Sou Lia (2000), que recebe acréscimo de faixas gravadas em estúdio. Além das mudanças das características do canto da cirandeira, então com 56 anos de idade e um registro de voz mais grave, esse trabalho se diferencia do anterior pela gravação digital e pelo desenho dos arranjos, como na regravação de “Minha Ciranda” (Capiba). No álbum de 1977, há o contracanto do coro e o saxofone aparece de maneira discreta, enquanto a caixa é mais estridente. No segundo registro, o coro é suprimido, o saxofone assume o protagonismo, a percussão aparece de modo mais equilibrado e há diminuição gradual do andamento na passagem para a canção “Preta Cirandeira” (Neres e Saúde). Reeditado pelo selo francês Arion, o disco é lançado com uma turnê da cantora por Paris e Berlim, em 2001.

Nos anos seguintes, faz novas turnês e recebe a atenção da imprensa internacional, que caracteriza sua produção como trance music, pelo transe causado no público. Sampleada por DJs, sua música ganha pistas de dança no exterior. No Brasil, a cirandeira participa de projetos de músicos de gerações mais novas, como os álbuns Rádio S.Amb.A. (2000), do grupo Nação Zumbi e Galanga Livre (2017), do rapper Rincon Sapiência (1985). Nos trabalhos individuais, a artista envereda por outros ritmos, incluindo o frevo, o coco e o maracatu no álbum Ciranda de Ritmos (2008). Em Ciranda sem Fim (2019), produzido por DJ Dolores (1966), além de ritmos ligados à música popular pernambucana, encontram-se gêneros como o bolero e o brega, que dialogam com a base eletrônica. Utilizando a voz de peito, grave, com a qual se torna internacionalmente conhecida, a cantora experimenta outros estilos de interpretar, como em “Quem Sabe?”, empregando melismas1 e vibratos característicos do bolero.

Navegando por diferentes mares e sons, Lia de Itamaracá atravessa o tempo levando consigo o legado da ciranda. Ao assimilar diferentes tendências, sua obra transforma essa manifestação, ao mesmo tempo em que a perpetua.

Nota

1. Entonação de uma mesma sílaba em diferentes notas musicais

Exposições 1

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Fontes de pesquisa 5

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  • ANDRADE, Marcelo Henrique. O Mito, a Mulher, a Ciranda: Lia de Itamaracá em livro-reportagem. 2018. 191 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Jornalismo) – Centro de Comunicação, Turismo e Artes, UFPB, João Pessoa, 2018.
  • ASSUMPÇÃO, Michelle de. Lia de Itamaracá: nas rodas da cultura popular. Recife: Cepe, 2020.
  • FRANÇA, Déborah Gwendolyne Callender. Quem deu a ciranda a Lia?: A história das mil e uma Lias da ciranda (1960-1980). 2011. 203 f. Dissertação (Mestrado) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, UFPE, Recife, 2011.
  • MUNIZ, Erika; LAPROVITERA, Breno (fotos e vídeos). Esta ciranda... Revista Continente, ed. 222, Recife, 5 jun. 2019. Disponível em: https://revistacontinente.com.br/edicoes/222/esta-ciranda---. Acesso em 6 ago. 2021.
  • TELLER, Sonia. História do corpo através da dança da ciranda: Lia de Itamaracá. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP, São Paulo, 2009.

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