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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Gustavo Dall´Ara

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
22.12.1865 Itália / Vêneto / Veneza
30.08.1923 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Reprodução fotográfica Henrique Sodré

Draga na Baía de Guanabara, 1906
Gustavo Dall´Ara
Óleo sobre madeira, c.i.d.
15,00 cm x 10,60 cm

Gustavo Giovanni Dall'Ara (Rovigo, Itália 1865 - Vargem Alegre RJ 1923). Pintor, ilustrador, decorador. Em 1881, é aceito no curso preparatório à Accademia di Belle Arti di Venezia [Academia de Belas Artes de Veneza], Itália, que frequenta regularmente até 1883, e é aluno de Franco Dall'Andrea. Em Veneza, conhece os pintores Luigi Nono, Ettore T...

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Biografia
Gustavo Giovanni Dall'Ara (Rovigo, Itália 1865 - Vargem Alegre RJ 1923). Pintor, ilustrador, decorador. Em 1881, é aceito no curso preparatório à Accademia di Belle Arti di Venezia [Academia de Belas Artes de Veneza], Itália, que frequenta regularmente até 1883, e é aluno de Franco Dall'Andrea. Em Veneza, conhece os pintores Luigi Nono, Ettore Tito e Beppe Ciardi e trabalha como desenhista e caricaturista do periódico Sior Tonin Bonagrazia em 1889. No ano seguinte viaja para o Brasil e fixa residência no Rio de Janeiro. É convidado a exercer o cargo de diretor artístico, desenhista e caricaturista do semanário Vida Fluminense. Entre 1893 e 1895, integra a comissão de estudo dirigida pelo engenheiro Aarão Reis, encarregada pelo governo da província de Minas Gerais de planejar e construir a nova capital da província, em Arraial do Curral d´El Rei, atual Belo Horizonte. Realiza, em 1904, pinturas decorativas em uma das salas da Vila Itararé, em Petrópolis, Rio de Janeiro. O historiador Laudelino Freire dedica um fascículo à biografia de Dall'Ara na obra Galeria Histórica dos Pintores, trazendo informações em sua maior parte relatadas pelo próprio artista. Em 1986, é publicado o livro Gustavo Dall´Ara, de autoria de Ronaldo do Valle Simões, Sandra Quintella e Umberto Cosentino, pela editora Winston.

Comentário crítico
Gustavo Dall'Ara é conhecido como o "pintor da cidade do Rio de Janeiro". De fato, a parte mais significativa de sua obra é composta de retratos da cidade, de suas paisagens, seus habitantes e, sobretudo, das transformações pelas quais o Rio de Janeiro passa no início do século XX. Sua pintura alterna o realismo de cores fortes - não faltam, portanto, céus azuis, lavadeiras carregando montes de roupas coloridas, habitantes trajando roupas de cores vivas e paisagens tropicais cenográficas, elementos que Dall'Ara retrata com grande verossimilhança - e a influência impressionista, quando o artista abre mão das formas mais definidas para mostrar, por exemplo, o efeito ótico da chuva ou de uma situação de pouca luminosidade. Em muitos casos, deixa transparecer um certo olhar estrangeiro sobre o Brasil, e seu interesse aí não é o de registro histórico, como seria se a intenção fosse mesmo realizar a crônica pictográfica de uma época, e sim o registro do inusitado: a chegada do carro a uma sociedade atrasada, o último tílburi1 a circular nas ruas etc. Como o efeito esperado por Dall'Ara, imagina-se, é o de exaltação ao país e suas virtudes (tanto naturais como as do progresso), cria-se um interessante jogo duplo, em que a vontade de mostrar a beleza natural de seu segundo país - o artista naturaliza-se brasileiro em 1910 -, acaba revelando o eterno gosto do estrangeiro por retratar os contrastes da sociedade arcaica que se vê diante da modernidade. Paradoxalmente, é justo desse contraste que vem a força de sua pintura.

O que distingue o trabalho de Dall'Ara é a criação de um Rio de Janeiro próprio. Embora a maioria dos retratos seja de cenas públicas, o universo carioca é mostrado por um recorte particular, que privilegia uma espécie de crônica da inserção do indivíduo e da sociedade em um novo estágio do progresso. É o caso, por exemplo, do quadro Automóvel e Bonde, pintado na década de 1910. A cena se passa no largo São Francisco, e mostra um automóvel estacionado (com o chofer apoiado na porta) e, ao fundo, um bonde. Vale lembrar que o largo São Francisco é ponto de partida tradicional dos tílburis. As mulheres que circulam pelo quadro vestem roupas e chapéus luxuosos e o garoto ao lado de uma delas, um uniforme de marinheiro. É o Rio de Janeiro se tornando uma metrópole, aderindo em massa a padrões e costumes europeus - o que explica ser o carro encarado de maneira tão natural pelos passantes. De fato, se o cenário e a arquitetura não são tão característicos, pode-se imaginar que a obra retrata Paris, e não o Rio de Janeiro. O mesmo movimento de traçar um paralelo entre o passado e o futuro acontece na pintura O Último Tilbury, de 1918. O quadro mostra um tílburi, um dos poucos ainda em circulação, parado na rua, o cavalo aparentando sinais de cansaço e até derrota. Apesar da nostalgia de um Rio de Janeiro mais provinciano, a cena é mais um registro histórico-afetivo do que uma crítica aos efeitos da modernidade.

Num trabalho quase etnográfico, o artista registra os tipos que compõem a cidade - madames, lavadeiras, cavalheiros, ambulantes - e também sua arquitetura, ruas, praças e vegetação. Em Casario em Santa Teresa, 1907, por exemplo, na encosta do morro há aglomeração de casas típicas da época e, ao fundo, uma floresta tropical. A atenção aos detalhes confere à obra de Dall'Ara estatura de importante documento do panorama visual e de costumes do início do século XX. Do retrato de uma lavadeira carregando uma pilha de roupas aos arcos da Lapa, passando por portos, parques e cenas do interior, Dall'Ara sabe capturar os instantâneos da cidade que o acolhe, e sabe também gravá-los quase como se os congelasse em movimento. Apesar de sua técnica pouco inovadora, fica o registro de uma época e um lugar.

Nota
1 Espécie de charrete puxada a cavalo que funciona como transporte de aluguel

Obras 43

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Exposições 42

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Feiras de arte 1

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Fontes de pesquisa 17

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  • BIENAL BRASIL SÉCULO XX, 1994, São Paulo, SP. Bienal Brasil Século XX: catálogo. Curadoria Nelson Aguilar, José Roberto Teixeira Leite, Annateresa Fabris, Tadeu Chiarelli, Maria Alice Milliet, Walter Zanini, Cacilda Teixeira da Costa, Agnaldo Farias. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1994.
  • BIENAL BRASIL SÉCULO XX, 1994, São Paulo, SP. Bienal Brasil Século XX: catálogo. Curadoria Nelson Aguilar, José Roberto Teixeira Leite, Annateresa Fabris, Tadeu Chiarelli, Maria Alice Milliet, Walter Zanini, Cacilda Teixeira da Costa, Agnaldo Farias. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1994. 700 BI588sp Sec.XX
  • CAMPOFIORITO, Quirino. História da pintura brasileira no século XIX. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1983.
  • CAMPOFIORITO, Quirino. História da pintura brasileira no século XIX. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1983. 759.981034 C198hi
  • DEZENOVEVINTE: uma virada no século. São Paulo: Pinacoteca do Estado, 1986.
  • DEZENOVEVINTE: uma virada no século. São Paulo: Pinacoteca do Estado, 1986. 709.81034 P645d
  • LEVY, Carlos Roberto Maciel. Exposições gerais de Belas Artes: catálogo de artistas e obras 1840-1933. s.l.: ArteData, 1990. 1 CD-ROM.
  • LEVY, Carlos Roberto Maciel. Exposições gerais de Belas Artes: catálogo de artistas e obras 1840-1933. s.l.: ArteData, 1990. 1 CD-ROM. CDR 700.981 L6682e
  • LOUZADA, Júlio. Artes plásticas Brasil 1985: seu mercado, seus leilões. São Paulo: J. Louzada, 1984. v. 1.
  • MARINHAS em grandes coleções paulistas. Curadoria John Lionel Toledano; apresentação Max Justo Guedes; texto Francisco de Paula Simões Vicente de Azevedo. São Paulo: Sociarte, 1998. 32p. il. color.
  • MARINHAS em grandes coleções paulistas. São Paulo: Sociarte, 1998. SPsociarte 1998/m
  • REIS JÚNIOR, José Maria dos. História da pintura no Brasil. Prefácio Oswaldo Teixeira. São Paulo: Leia, 1944.
  • REIS JÚNIOR, José Maria dos. História da pintura no Brasil. Prefácio Oswaldo Teixeira. São Paulo: Leia, 1944. 759.981 R375h
  • RIBEIRO, Marília Andrés (org.); SILVA, Fernando Pedro da (org.). Um século de história das artes plásticas em Belo Horizonte. Belo Horizonte: C/Arte, 1997. (Centenário).
  • RIBEIRO, Marília Andrés (org.); SILVA, Fernando Pedro da (org.). Um século de história das artes plásticas em Belo Horizonte. Belo Horizonte: C/Arte, 1997. (Centenário). 709.8151 S446
  • SIMÕES, Ronaldo do Valle; QUINTELLA, Sandra; COSENTINO, Umberto. Gustavo Dall'Ara. Prefácio Alcídio Mafra de Souza; fotografia Henrique Sodré. Rio de Janeiro: Winston, 1986. 139 p., il., p&b color.
  • SIMÕES, Ronaldo do Valle; QUINTELLA, Sandra; COSENTINO, Umberto. Gustavo Dall'Ara. Rio de Janeiro: Winston, 1986. 139 p. 759.98105 D144s

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