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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Emygdio de Barros

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 31.05.2022
1895 Brasil / Rio de Janeiro / Paraíba do Sul
05.05.1986 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro

Sem Título, 1968
Emygdio de Barros
Óleo sobre papel, c.i.d.

Emygdio de Barros (Paraíba do Sul, Rio de Janeiro, 1895 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1986). Pintor. A obra e a vida de Barros se confundem com trabalho realizado pela psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999) no hospital psiquiátrico. Com um elevado talento artístico e diagnosticado com esquizofrenia, o artista começa a dar vazão a sua criati...

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Emygdio de Barros (Paraíba do Sul, Rio de Janeiro, 1895 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1986). Pintor. A obra e a vida de Barros se confundem com trabalho realizado pela psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999) no hospital psiquiátrico. Com um elevado talento artístico e diagnosticado com esquizofrenia, o artista começa a dar vazão a sua criatividade ao frequentar o ateliê de práticas artistas, em 1940, instalado por Silveira. As telas demonstram um grande  domínio de cor e composição do artista, que se destaca diante dos outros internos

As habilidades manuais de Emygdio de Barros são notadas desde a infância. Na juventude, faz curso técnico de torneiro mecânico e ingressa no Arsenal da Marinha. Devido ao seu destacado desempenho no trabalho é enviado à França para fazer um curso de aperfeiçoamento. De volta ao Brasil, em 1924, após um trauma emocional, para de trabalhar e começa a perambular pelas ruas. Diagnosticado com esquizofrenia, ainda na década de 1920, é internado pela primeira vez no Velho Hospital da Praia Vermelha1.

No início de 1944, Barros tem contato com a psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999), que começa a trabalhar no hospital e não compactua com os tratamentos praticados – como eletrochoque, coma insulínico e lobotomia. Influenciada pelas teorias do psiquiatra suíço Carl Jung (1875-1961), de quem havia sido aluna, implanta na instituição o Setor de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (STOR), em que oferece aos internos atividades artísticas como oficina de pintura e de modelagem. O objetivo é estimular o convívio entre os internos, desenvolvendo uma relação mais afetiva e melhorando a autoestima deles. 

Um dos assistentes de Silveira é o artista Almir Mavignier (1925-2018), que desenvolve uma amizade com Barros, frequentador das atividades do STOR. Mavignier proíbe que revistas de arte circulem entre os internos para evitar qualquer influência externa. Observando o trabalho incessante de Barros, que costuma fazer uma pintura sobre a outra, Mavignier oferece com regularidade telas novas ao pintor para que ele finalize um trabalho e comece um novo. Assim ajuda o artista a compreender quando uma pintura está pronta.

Suas primeiras pinturas retratam memórias e paisagens. Mas, em pouco tempo, Barros começa a dar espaço ao seu inconsciente, usando cores mais intensas. Em suas telas, o pintor dá vazão a sua imaginação a partir de dados da realidade, explorando principalmente o contraste de cores. O crítico de arte Mário Pedrosa (1900-1981) analisa que Barros constrói suas pinturas pela cor. "Pode-se dizer que ele pinta de perto e imagina de longe. Suas paisagens, mesmo quando ao natural, não copiam a realidade, resultando formas tiradas do local e entrelaçadas a outros elementos imaginários"2. Em Universal, de 1948, uma profusão de cores puras compõem uma paisagem em que figura e fundo se confundem. 

Pedrosa tem contato com a obra de Barros na primeira Mostra dos Internos do Centro Psiquiátrico Nacional, realizada no Ministério da Educação, em 1947. Em uma segunda edição da exposição, dois anos depois, Pedrosa convida o crítico e então diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), Léon Degand (1907-1958), para conhecer os trabalhos dos internos realizados com a supervisão de Silveira. O diretor fica impressionado com a produção e propõe à psiquiatra expôr as obras no museu paulistano. 

As pinturas de Barros estão entre as selecionadas para participar da mostra "9 Artistas do Engenho de Dentro", no MAM-SP, em 1950, e se destacam ao lado dos desenhos de Raphael Domingues (1913-1979). Sem qualquer estudo formal de artes visuais, Barros demonstra o domínio de composição dentro dos princípios da arte moderna.

Segundo o poeta Ferreira Gullar (1930-2016), a obra de Barros expressa uma rica variação cromática. "As cores, que surgem como relâmpagos do fundo da noite – noite psíquica? –, pertencem a uma outra dimensão do imaginário. Há, em seus quadros, uma carga psíquica de tal densidade que certamente só quem, como ele, visitou outros "estados do ser" pode revelar", analisa3

O uso livre das cores faz com que as telas de Barros sejam comparadas pela crítica com as do pintor francês Henri Matisse (1869-1954). Um exemplo da ousadia cromática é Sem Título (1968). Uma cena de duas pessoas conversando coloridas nos tons complementares de vermelho e verde. Outra tela também sem título, de 1971, mostra uma composição com contornos bem delineados colorida em tons de azul, mas com alguns pontos em amarelo habilmente composto por Barros para iluminar a cena. 

Em uma véspera de Natal, Silveira pergunta a Barros o que ele gostaria de ganhar de presente. Ele responde: um guarda-chuva. A resposta sugere à psiquiatra que o pintor gostaria de voltar para casa. Silveira promove a venda de alguns trabalhos seus para comprar material de pintura para ele continuar a produzir suas telas fora do hospital. 

No entanto, a vida fora do Hospital não é produtiva para o pintor. Cerca de dois anos depois, Barros volta ao Engenho de Dentro, de maleta e guarda-chuva, e pede à Silveira para se internar novamente pois quer voltar a pintar, mas em casa não consegue. Barros vive e trabalha no hospital até completar 80 anos, quando compulsoriamente é obrigado a deixar o local, sendo transferido a um asilo onde vive seus últimos anos de vida. 

Diagnosticado com esquizofrenia, Barros começa a expressar suas habilidades artísticas no Setor de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação, implantado pela psiquiatra Nise da Silveira. Embora seja autodidata, Barros apresenta em suas telas um grande domínio de expressão e composição. Seus trabalhos são comparados pelos críticos ao do pintor francês Henri Matisse.    

Notas

1. Nos anos 1940, a Instituição é renomeada como Centro Psiquiátrico Pedro II, também conhecido como Hospital do Engenho de Dentro, e atualmente é chamado de Instituto Municipal Nise da Silveira.

2. PEDROSA, Mário; SILVEIRA, Nise da. Museu De Imagens do Inconsciente. Instituto Nacional de Artes Plásticas. 2ª Ed. Rio de Janeiro, RJ, 1994, p. 62.

3. GULLAR, Ferreira, "Fora da História" in Folha de S. Paulo, de domingo, 22 de out. de 2006. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2210200625.htm. (Acesso em 10 abr. 2022). 

Obras 12

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Exposições 20

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Fontes de pesquisa 17

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  • 150 anos de pintura no Brasil: 1820-1970. Rio de Janeiro: Colorama, 1989.
  • ARANTES, Otília Beatriz Fiori. Mário Pedrosa: itinerário crítico. São Paulo, Cosac Naify, 1994.
  • ARAÚJO, Paula Vaz Guimarães de. "Artistas ou Alienados – Reflexões sobre uma Pesquisa em andamento". XI EHA – Encontro de História da Arte – UNICAMP, 2015. Disponível em: https://www.ifch.unicamp.br/eha/atas/2015/Paula%20Vaz%20Guimaraes%20de%20Araujo.pdf. Acesso em: 17 maio 2022.
  • BÔAS, Gláucia Villas. A estética da conversão: O ateliê do Engenho de Dentro e a arte concreta carioca (1946-1951). XVI Congresso da Associação Internacional de Sociologia, Durban, jul de 2006. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ts/a/TycDtQdLyYyJfWMy3hrFGSN/?lang=pt. Acesso em: 17 maio 2022.
  • CHAN, Glória Thereza. Emygdio de Barros: a pintura como caminho. Revista Ensaios – n.1, v.1, ano 1, 2o semestre de 2008.
  • DICIONÁRIO brasileiro de artistas plásticos. Organização Carlos Cavalcanti e Walmir Ayala. Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1973-1980. 4v. (Dicionários especializados, 5). p. 111.
  • ESPADA, Heloisa, NAVES, Rodrigo. Raphael e Emygdio: dois modernos no Engenho de Dentro. IMS, 2012.
  • GULLAR, Ferreira, "Fora da História". Folha de S.Paulo. 22 de out. de 2006. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2210200625.htm. Acesso em: 10 abr. 2022.
  • GULLAR, Ferreira. Relâmpagos: dizer o ver. Coordenação editorial Augusto Massi; projeto gráfico Raul Loureiro; apresentação Ferreira Gullar. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
  • LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário crítico da pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988.
  • MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO, 2000, SÃO PAULO, SP. Imagens do inconsciente. Curadoria Nise da Silveira, Luiz Carlos Mello; tradução John Norman. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo: Associação Brasil 500 anos Artes Visuais, 2000.
  • MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO, 2000, São Paulo, SP. Mostra do Redescobrimento: Brasil 500 anos. Curadoria Nelson Aguilar, Maria Cristina Mineiro Scatamacchia, Eduardo Góes Neves, Cristiana Barreto, Lúcia Hussak Van Velthem, José António Braga Fernandes Dias, Luiz Donisete Benzi Grupioni, Regina Pólo Miller, Emanoel Araújo, Maria Lúcia Montes, Carlos Eugênio Marcondes de Moura, François Neyt, Catherine Vanderhaeghe, Kabengele Munanga, Marta Heloísa Leuba Salum, Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, Luciano Migliaccio, Pedro Martins Caldas Xexéo, Frederico Pernambucano de Mello, Nise da Silveira, Luiz Carlos Mello, Franklin Espath Pedroso, Maria Alice Milliet, Glória Ferreira, Jean Galard, Pedro Corrêa do Lago; apresentação Fernando Henrique Cardoso, Luiz Felipe Palmeira Lampreia, Francisco Weffort, Rafael Greca de Macedo, Marcos Maciel, Edemar Cid Ferreira. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2000.
  • Museu de Imagens do Inconsciente. Apresentação de Mário Pedrosa e Afonso Henriques Neto. Editado por INSTITUTO NACIONAL DE ARTES PLÁSTICAS, Rio de Janeiro, RJ. Texto de Nise da Silveira et al. Rio de Janeiro: 1980. (Museus brasileiros, 2).
  • PEDROSA, Mário. Obras escolhidas, Vol. II: Forma e percepção estética. Em Arantes, O. (org.) São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1996.
  • PEDROSA, Mário.; SILVEIRA, Nise. Museu De Imagens do Inconsciente. Instituto Nacional de Artes Plásticas. 2ª Ed. Rio de Janeiro, RJ,1994.
  • SILVEIRA, Nise da. Imagens do inconsciente. Rio de Janeiro: Alhambra, 1981.
  • SILVEIRA, Nise. Vinte anos de terapêutica ocupacional em Engenho de Dentro (1946-1966). Revista Brasileira de Saúde Mental Rio de Janeiro, Vol. 5, XII no editado, p. 18-159. 1966.

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