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Luiz Melodia

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 03.09.2021
07.01.1951 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
04.08.2017 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Luiz Carlos dos Santos (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1951 – idem, 2017). Cantor e compositor. Autor de canções caracterizadas pelo trânsito entre gêneros, sobretudo samba, blues, jazz e rock, além de poética virtuosa. Situa-se no panteão da música popular brasileira (MPB) de sua geração, alçada à fama na década de 1970. Destaca-se, ainda, por...

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Luiz Carlos dos Santos (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1951 – idem, 2017). Cantor e compositor. Autor de canções caracterizadas pelo trânsito entre gêneros, sobretudo samba, blues, jazz e rock, além de poética virtuosa. Situa-se no panteão da música popular brasileira (MPB) de sua geração, alçada à fama na década de 1970. Destaca-se, ainda, por sua voz original, penetrante e macia, como grande intérprete, tendo a sua versão de “Negro Gato” reconhecida entre as mais inventivas do antigo clássico.

Nascido e criado no Morro de São Carlos, no bairro do Estácio, centro carioca, um dos berços do samba urbano, desde criança, acompanha seu pai, o funcionário público e músico amador Oswaldo Melodia, nas rodas de samba em que este se apresenta. Também do pai e da mãe, a costureira Eurídice, herda o apreço por boleros, sambas-canção e pelo cancioneiro nordestino de Luiz Gonzaga (1912-1989) e Jackson do Pandeiro (1919-1982). Essa orgânica mistura de influências talvez ajude a explicar a elegância com que, anos mais tarde, tece composições de arriscada rotulagem estética, com mistura de instrumentos e sonoridades então atreladas a um ou outro gênero.

Interessa-se pelo iê-iê-iê da Jovem Guarda durante a adolescência. Suas primeiras bandas têm mais de Roberto Carlos (1941) e bossa nova do que de Ismael Silva (1905-1978), precursor das escolas de samba. Abandona o colégio para se dedicar à música, a contragosto do pai, que quer vê-lo se formar “doutor”. No final dos anos 1960, amplia o repertório ao som do cantor e pianista norte-americano Nat King Cole (1919-1965), do multi-instrumentista norte-americano Taj Mahal (1942), expoente do blues, e do movimento da Tropicália, que, em suas palavras, tem efeito libertador em sua vida.

Naquele período, toma contato com os poetas Waly Salomão (1943-2003) e Torquato Neto (1944-1972), ligados ao tropicalismo. O primeiro, frequentador do morro, o influencia na lírica de algumas composições, inclusive no título de faixas, com destaque para “Pérola Negra”, canção que ganha a simpatia da cantora Gal Costa (1945), a quem Luiz Melodia é apresentado por meio de Waly. A música se revela um sucesso no LP ao vivo Fa-tal – Gal A Todo Vapor (1971). Em seguida, a cantora Maria Bethânia (1946) empresta a voz para outra composição do novato, “Estácio, Holly Estácio”, no disco de estúdio Drama – Anjo Exterminado (1972).

Em 1973, Luiz Melodia lança seu primeiro álbum, Pérola Negra, com a faixa que o consagra. A concisão do disco, limitado a cerca de 28 minutos e dez faixas, explica-se pelo peso do aparato censório da ditadura civil-militar sobre algumas das composições, inclusive a nostálgica “Pra Aquietar”, sobre passeios infantis à Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro.

A provocativa “Feras que Virão”, vetada, ganha espaço apenas em 1980, no LP Nós. A obra, também ilustre por sua capa com grãos de feijão preto e cliques do fotógrafo Rubens Maia (1946-2012), tem recepção morna. Ao longo das décadas, a aclamação do disco cresce, passando a constar dos principais cânones, e é eleito em 2007 um dos cem melhores da música brasileira pela revista Rolling Stone.

O êxito popular o encontra em seu segundo disco de estúdio, Maravilhas Contemporâneas (1976). Do rock ao samba-choro, com pitadas de blues e lírica potente, o disco traz a faixa  “Juventude Transviada”, de grande apelo por figurar na trilha da novela Pecado Capital (1975-1976), da TV Globo. O álbum também carrega aguda nota autobiográfica, reveladora de casos de racismo vividos pelo artista. Por outro lado, a negritude de Luiz Melodia é destacada pela crítica já nos anos 1970 por escapar de clichês em que por vezes buscam encaixá-la, associando-a apenas ao samba, por exemplo. Apesar disso, o artista segue enfrentando episódios racistas, como na noite em que é impedido de se hospedar num hotel de Salvador.

Refratário a soluções fáceis, é visto por alguns como “difícil” e “maldito”, pechas que rebate. Prefere uma abordagem artística que desafie correntes limitadoras a estilos comercialmente consagrados. Também não vê grandes motivos para lançar álbuns em curtos intervalos, conforme a sanha das gravadoras, dificultando a relação com parte de seus executivos. Alguns críticos insistem em classificá-lo como “hermético” nas letras, que, em geral, detêm uma poética simples mas de profundidade desconcertante.

Dono de uma presença de palco audaciosa, seus shows são consagrados também em turnês internacionais. Nos anos 1980, apresenta-se na França e na Suíça. Nessa década, destaca-se o LP Felino (1983), com parte das canções composta em conjunto com Ricardo Augusto e Papa Kid, os maiores parceiros. Os lançamentos ficam mais espaçados e, em 1999, um CD acústico lhe rende um disco de ouro. Dois anos depois, decide musicar um texto do poeta Manoel de Barros (1916-2014), “Retrato do Artista Quando Coisa”, que empresta como título a um novo disco. O último álbum de inéditas vem em 2014, Zerima, e, em 2015, vence o Prêmio da Música Brasileira.

Inovador, elegante e livre em seu criativo caldeirão de gêneros, Luiz Melodia consagra-se na música popular no Brasil da segunda metade do século XX e começo do XXI. O menino que desce o morro e vai recolher do mundo novas fontes de inspiração volta fazendo uma arte toda própria, avessa a rótulos estanques.

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