Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

A Enciclopédia é o projeto mais antigo do Itaú Cultural. Ela nasce como um banco de dados sobre pintura brasileira, em 1987, e vem sendo construída por muitas mãos.

Se você deseja contribuir com sugestões ou tem dúvidas sobre a Enciclopédia, escreva para nós.

Caso tenha alguma dúvida, sugerimos que você dê uma olhada nas nossas Perguntas Frequentes, onde esclarecemos alguns questionamentos sobre nossa plataforma.

Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Mestre Didi

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.08.2022
02.12.1917 Brasil / Bahia / Salvador
06.10.2013 Brasil / Bahia / Salvador

Opá esin Ati Ejo Meji, 1992
Mestre Didi
Nervura de palmeira, couro, contas e búzio

Deoscóredes Maximiliano dos Santos (Salvador, Bahia, 1917 – Idem, 2013). Escultor, escritor e sacerdote. Com projeção no panorama nacional e internacional da arte contemporânea, é famoso por suas recriações de objetos rituais do candomblé. Um dos mais importantes sacerdotes da tradição nagô. Sua vida e seu trabalho são dedicados à religião, à ar...

Texto

Abrir módulo

Deoscóredes Maximiliano dos Santos (Salvador, Bahia, 1917 – Idem, 2013). Escultor, escritor e sacerdote. Com projeção no panorama nacional e internacional da arte contemporânea, é famoso por suas recriações de objetos rituais do candomblé. Um dos mais importantes sacerdotes da tradição nagô. Sua vida e seu trabalho são dedicados à religião, à arte e à preservação do legado ancestral.

É filho de Arsênio dos Santos, um grande alfaiate baiano também conhecido como Alabá Paizinho, e de Maria Bibiana do Espírito Santo (1890-1967), a importante ialorixá Mãe Senhora, do Ilê Axé Opô Afonjá. Descendente da linhagem real Asipá, uma das famílias fundadoras do reino de Ketu, importante cidade do Império Iorubá, o jovem Didi é criado nos ritos do candomblé e ainda muito novo passa a ser tratado como mestre. Ele se torna uma respeitada autoridade religiosa e recebe vários títulos ao longo da vida, entre os quais o de Alapini, sumo sacerdote do culto dos Egungun, e o de Assogbá, sumo sacerdote do culto a Obaluaiê. A devoção aos ancestrais, a preservação da memória africana e a recriação das tradições afro-brasileiras formam a base de seu trabalho.

Mestre Didi é autor de uma extensa obra escrita. Em 1946, ele publica Iorubá tal qual se fala, a primeira compilação do vocabulário iorubá-português, um registro fundamental para a manutenção da ancestralidade africana no Brasil. O impacto causado pelo livro impulsiona a criação, quatorze anos depois, da cadeira voltada ao ensino do idioma na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Em 1962, publica Axé Opô Afonjá (reeditado como História de um terreiro nagô, em 1989), uma narrativa historiográfica na qual ele analisa a inserção das comunidades Ilê Axé na formação da sociedade brasileira. Em parceria com sua esposa, a antropóloga Juana Elbein dos Santos, publica também outros estudos sobre rituais africanos e cultura nagô.

Em 1961, vem a público seu primeiro livro de contos, Contos negros da Bahia, uma coletânea de histórias populares de ascendência africana, com prefácio de Jorge Amado (1912-2001) e ilustrações de Carybé (1911-1997), artista de origem argentina conhecido por retratar os rituais da religião e da cultura baiana, cujo trabalho ilustra também Contos de Nagô, publicado por Mestre Didi em 1962. Segue-se a esses uma série de outros livros do gênero: Porque Oxalá usa ekodidé (1966), Contos crioulos da Bahia (1976), Contos de Mestre Didi (1981) e Mito da criação do mundo (1988).

Profundamente influenciada pela cosmogonia nagô, a obra literária de Mestre Didi consiste em recriações altamente inventivas, que incorporam anedotas, histórias do cotidiano das comunidades negras e material de variadas outras fontes, como os itans, relatos míticos da tradição iorubana. Seu texto é marcado pela oralidade dos saberes transmitidos pelos povos da diáspora negra e pelo uso altamente simbólico de elementos do cotidiano, da cultura, da natureza e da religião.

Em 1964, inicia a carreira como artista plástico, abrindo uma exposição individual em Salvador. A partir de então, passa a expor em grandes capitais do Brasil e de outros países. Destacam-se a Sala Especial da 23ª Bienal de São Paulo (1996), dedicada a ele, e a mostra Mestre Didi: o Escultor do Sagrado (2009), realizada no Museu Afro Brasil, em São Paulo, por ocasião da comemoração dos 90 anos do artista. Também participa de importantes exposições coletivas, como A Mão Afro-Brasileira (1988), no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP), Magiciens de la Terre (1989), no Centre Pompidou, em Paris, Brazil: Body and Soul (2001-2002), no Guggenheim Museum, em Nova York, entre outras.

Assim como a obra literária, seu trabalho plástico é todo voltado para o universo da África mítica. As peças de Mestre Didi remetem aos Eguns, os ancestrais, e aos quatro orixás que compõem o Panteão da Terra: Nanã, Obaluaiê, Oxumaré e Ossain. Suas recriações transfiguram ferramentas do culto do candomblé, como o xaxará e o ibiri, em esculturas totêmicas, que fundam uma verticalidade na qual está simbolizada a conexão com as raízes, na terra, e com o infinito, no céu. Os objetos rituais são particularizados por meio da modelagem e com a aplicação de variados materiais, geralmente orgânicos, como nervuras de palmeira, couro pintado, búzios e contas. Esses elementos ganham um sentido próprio em cada peça, combinando-se para mobilizar e fazer circular a força ritual do axé, como explica o cientista social Marco Aurélio Luz1.

Intimamente ligadas à religiosidade de matriz-africana, as realizações de Mestre Didi desempenham um importante papel no resgate da história, da cultura e da memória do povo negro. O trabalho produzido por ele abrange, por um lado, a revisão da história e a denúncia da escravidão e do racismo; por outro, a celebração da língua, da cultura e da identidade afro-brasileira. É devido, no entanto, à sua capacidade de atribuir valor estético aos elementos sagrados do candomblé que ele desponta como figura de relevância nacional e internacional no panorama da literatura e das artes plásticas.

Notas

1. SILVA, Jean Paul d’Antony Costa; ASSIS, Kleyson Rosário; SEIDEL, Roberto Henrique. Deoscóredes Maximiliano dos Santos Mestre Didi: o reverberar ancestral africano-brasileiro. Salvador: Eduneb, 2017. p. 20.

Obras 9

Abrir módulo

Exposições 91

Abrir módulo

Feiras de arte 1

Abrir módulo

Fontes de pesquisa 15

Abrir módulo
  • ARAÚJO, Emanoel (org.). A Mão afro-brasileira: significado da contribuição artística e histórica. São Paulo, SP: Tenenge, 1988.
  • BIENAL INTERNACIONAL DE SÃO PAULO, 23. , 1996, São Paulo, SP. Catálogo das salas especiais. Organização e coordenação Nelson Aguilar. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1996.
  • BIENAL INTERNACIONAL DE SÃO PAULO, 23., 1996, São Paulo, SP. Catálogo geral dos participantes. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1996.
  • DIDI, Mestre. Ancestralidade africana no Brasil: Mestre Didi, 80 anos. Organização Juana Elbein dos Santos. Salvador : SECNEB, 1997.
  • DIDI, Mestre. Esculturas. Salvador: Prova do Artista, 1996.
  • DIDI, Mestre. Mestre Didi: Mo qui gbogbo in (Eu saúdo a todos). Curadoria Denise Mattar; co-curadoria Thais Darzé. São Paulo: Almeida e Dale Galeria de Arte, 2018.
  • DIDI, Mestre. Mestre Didi: sacred afro-brazilian sculpture. Miami: Bass Museum of Art, 1998.
  • MATTAR, Denise; DARZÉ, Thais. Mestre Didi: mo qui gbogbo in (eu saúdo a todos). São Paulo: Almeida e Dale Galeria de Arte, 2018.
  • MESTRE Didi: arte ritual. Direção: Maria Ester Rabello. Produção: Rede SescSenac de Televisão, São Paulo, 2000. (26 min), documentário. Disponível em: https://youtu.be/AxE6kY5c1vs. Acesso em: 11 ago. 2021.
  • MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO, 2000, SÃO PAULO, SP. Arte afro-brasileira. Curadoria François Neyt, Catherine Vanderhaeghe, Kabengele Munanga, Marta Heloísa Leuba Salum; tradução Arnaldo Marques, Rachel McCorriston, Paulo Henriques Britto, John Norman. São Paulo: Associação Brasil 500 anos Artes Visuais; Fundação Bienal de São Paulo, 2000.
  • MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO, 2000, SÃO PAULO, SP. Negro de corpo e alma. Curadoria Emanoel Araújo, Maria Lúcia Montes, Carlos Eugênio Marcondes de Moura; tradução Christopher Ainsbury, Denise Kato, Doris Hefti, Douglas V. Smith, Eduardo Hardman, Eugênia Deheinzelin, Grant Ellis, H. Sabrina Gledhill, John Norman, Katica Szabó, Lilian Escorel, Regina Alfarano, Ricardo Gomes Quintana, Robert Slenes, Carlos Galvão, Suzanne Oboler, Elitza Bachvarova, Thomas William Nerney. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo : Associação Brasil 500 anos Artes Visuais, 2000.
  • MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO, 2000, São Paulo, SP. Mostra do Redescobrimento: Brasil 500 anos. Curadoria Nelson Aguilar, Maria Cristina Mineiro Scatamacchia, Eduardo Góes Neves, Cristiana Barreto, Lúcia Hussak Van Velthem, José António Braga Fernandes Dias, Luiz Donisete Benzi Grupioni, Regina Pólo Miller, Emanoel Araújo, Maria Lúcia Montes, Carlos Eugênio Marcondes de Moura, François Neyt, Catherine Vanderhaeghe, Kabengele Munanga, Marta Heloísa Leuba Salum, Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, Luciano Migliaccio, Pedro Martins Caldas Xexéo, Frederico Pernambucano de Mello, Nise da Silveira, Luiz Carlos Mello, Franklin Espath Pedroso, Maria Alice Milliet, Glória Ferreira, Jean Galard, Pedro Corrêa do Lago; apresentação Fernando Henrique Cardoso, Luiz Felipe Palmeira Lampreia, Francisco Weffort, Rafael Greca de Macedo, Marcos Maciel, Edemar Cid Ferreira. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2000.
  • Revue Noire. Brésil/Brasil Afro-brasileiro, 22, Sept/Oct/Nov, 1996.
  • SANTANA FILHO, Élcior Ferreira de (coord.); FILUS, Cláudio (coord.). Escultura Brasileira: perfil de uma identidade. Curadoria Emanoel Araújo, Sérgio Pizoli; tradução David Coles, Eloisa Marques, Daril Collard. São Paulo: Imprensa Oficial, 1997.
  • SILVA, Jean Paul d’Antony Costa; ASSIS, Kleyson Rosário; SEIDEL, Roberto Henrique. Deoscóredes Maximiliano dos Santos Mestre Didi: o reverberar ancestral africano-brasileiro. Salvador: Eduneb, 2017.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: