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Cinema

Roberto Farias

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 30.09.2019
27.03.1932 Brasil / Rio de Janeiro / Nova Friburgo
14.05.2018 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Roberto Figueira de Farias (Nova Friburgo, Rio de Janeiro,1932). Diretor, produtor, distribuidor e roteirista. Inicia a carreira no cinema no começo dos anos 1950 como assistente de direção da Atlântida e em algumas produções do diretor Watson Macedo (1919-1981). Seu primeiro trabalho, como gerente de produção, é o filme Maior que o Ódio (1951),...

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Roberto Figueira de Farias (Nova Friburgo, Rio de Janeiro,1932). Diretor, produtor, distribuidor e roteirista. Inicia a carreira no cinema no começo dos anos 1950 como assistente de direção da Atlântida e em algumas produções do diretor Watson Macedo (1919-1981). Seu primeiro trabalho, como gerente de produção, é o filme Maior que o Ódio (1951), de José Carlos Burle (1910-1983). Nos estúdios da Brasil Vita Filmes, dirige seu primeiro longa, a chanchada Rico Ri à Toa (1957) e, no ano seguinte, No Mundo da Lua (1958), também chanchada. Em seguida, realiza o policial sobre a vida do bandido Promessinha, Cidade Ameaçada (1959), depois de o cineasta Roberto Santos (1928-1987) abandonar as filmagens. Dois anos depois, lança a comédia Um Candango na Belacap (1961), produção de Herbert Richers (1923-2009), com o ator Grande Otelo (1915-1993). Pela mesma produtora, faz Assalto ao Trem Pagador (1962), um dos filmes mais conhecidos de sua carreira, premiado como Melhor Filme e  Melhor Roteiro no Festival da Bahia. Em 1964, dirige a aventura Selva Trágica, protagonizada pelo seu irmão, o ator Reginaldo Faria (1937). Cria a Difilm Distribuidora, em 1965, junto com cineastas e produtores como Luis Carlos Barreto (1928) e Glauber Rocha (1939-1981). Abre também a produtora R. F. Farias, realizando a comédia carioca Toda Donzela Tem um Pai que É uma Fera (1966), seguido da aventura Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1968) e da comédia Os Paqueras (1969). Em 1969, funda outra distribuidora, a Ipanema Filmes, para não ficar preso a um único estilo cinematográfico. Dirige mais dois longas de aventura, Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa (1970) e A 300 Quilômetros por Hora (1971). Ao lado do diretor Hector Babenco (1946-2016), realiza o documentário O Fabuloso Fittipaldi (1973), sobre a vida do corredor de automobilismo Emerson Fittipaldi (1946). Entre 1974 e 1978, ocupa o cargo de diretor geral da Empresa Estatal de Produção e Distribuição de Filmes (Embrafilme), período em que o cinema brasileiro alcança visibilidade no mercado interno e internacional. Como parte de sua gestão, cria o Conselho Nacional de Cinema (Concine) em 1976. Com o apoio da Embrafilme, realiza o longa Pra Frente Brasil (1982), primeiro trabalho que aborda de maneira explícita a tortura na Ditadura Militar, premiado Melhor Filme no Festival de Gramado do mesmo ano. Cinco anos depois, faz a comédia Os Trapalhões no Auto da Compadecida (1987), baseado na peça teatral O Auto da Compadecida (1955), do escritor Ariano Suassuna (1927-2014). Na televisão, atua como diretor de séries e minisséries, com destaque para As Noivas de Copacabana (1992) e Contos de Verão (1993), exibidas pela Rede Globo.

Análise

Roberto Farias começa a carreira com as chanchadas nos estúdios da Atlântida, como assistente do diretor Watson Macedo, e com os primeiros filmes Rico Ri À Toa e No Mundo da Lua nos estúdios da Brasil Vita Filmes. Depois, tem a obra marcada pela mistura entre o cinema de estúdio e o de locação, entre o gênero policial e o neorrealismo, preocupado com o espetáculo desde Assalto ao Trem Pagador.

Em Assalto ao Trem Pagador, introduz o gênero policial, influenciado pelos filmes noir norte-americanos, e uma crítica sociológica adaptada à atualidade brasileira. O filme tem como ponto de partida o assalto ao trem pagador da Central do Brasil no Rio de Janeiro. Aproxima-se da realidade, mesclando documento e espetáculo dentro da história de personagens marginalizadas que procuram, por meio da violência, uma solução para seus problemas. A trama é dividida em três polos: o da favela, o de Copacabana e o da polícia, identificada como defesa da sociedade capitalista. Escolhe os atores pela aparência, caracterizando-os como tipos sociais, pelo jeito de se vestir ou da cor da pele, para explorar as nuances de comportamento de cada um. Exemplos disso são os papéis de Tião Medonho [Eliezer Gomes (1920-1979)] e Grilo (Reginaldo Faria). Segundo o crítico Hélio Nascimento, Farias realiza “um cinema de personagens e não de símbolos desumanos e desprovidos de autenticidade, ou seja, a simbologia não necessita deturpar a realidade (...)” 1.

O filme seguinte, Selva Trágica, repete o modelo do anterior, mais simbólico pela representação da força opressora da Companhia de Erva-Mate. Os empregados vivem sob um regime feudal, num ambiente cruel e desumano, comandado por proprietários. Nesse sentido, Selva Trágica revela a contraposição entre o patrão (opressor) e funcionário (oprimido), representado pelo homem rebelde (Reginaldo Faria). Demonstra como a revolta e a liberdade podem ser destruídas pelos detentores do poder. O cineasta Glauber Rocha considera-o mais realista do que Assalto: “Não sendo um filme de imitação americana, Selva Trágica era um filme brasileiro de denúncia social: um filme forte e triste, mais Brasil do que Estados Unidos” 2.

A falta de público faz com que Farias volte a fazer longas ligados a comédia e aventura comerciais. Mesmo com a fundação da Difilm, distribuidora de filmes ligada ao movimento do cinema novo, junto com Glauber Rocha, Farias cria sua própria distribuidora, a Ipanema Filmes e a produtora R.F. Filmes. Assim, deixa de se limitar aos trabalhos dos cinemanovistas, abrindo possibilidade para filmes de outros gêneros, como Toda Donzela Tem Um Pai Que é Uma Fera, e outros interpretados pelo cantor Roberto Carlos (1941): Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa, e A 300 Quilômetros por Hora. A afinidade com os mecanismos de distribuição e de política cinematográfica fazem com que Farias seja indicado para o cargo de diretor geral da Embrafilme, de 1974 a 1978, afastando-o da carreira de cineasta por alguns anos.

Em 1982, depois de ter deixado o cargo, Farias dirige Pra Frente, Brasil! O filme retrata a prática da tortura no Brasil no auge da Ditadura Militar, no início da década de 1970, em paralelo com a Copa do Mundo no México naquele ano. O título da trama é retirado da música tema do evento futebolístico. O longa mostra os acontecimentos na vida de um homem de classe média preso por "engano" pelos agentes da repressão, submetido à tortura e sem contato com a família. Expõe como a repressão à liberdade passa a atingir pessoas "apolíticas" (indivíduos que dizem não ter envolvimento com política, mas que acabam prejudicados pela omissão diante da ditadura). Para o cineasta, a intenção é “contar uma história no estilo policial para atingir a maioria das pessoas e fazê-las entenderem que havia uma força misteriosa que se escondia na sombra, mas que era capaz de prender uma pessoa comum que não era subversiva, apolítica e torturá-las até a morte”3.  Esteticamente, opta por uma narrativa ficcional clássica, sem a intenção de ser um documentário, mas um filme-denúncia que conduz o espectador por meio de montagem ágil e cortes rápidos.   

Identifica-se, assim, um elemento característico de sua obra: a capacidade de transitar entre gêneros cinematográficos. Mesmo com filmes policiais de destaque, como Assalto ao Trem Pagador e Pra Frente, Brasil!, Farias não se limita a esse gênero. Também faz comédias, como Um Candango na Belacap e Os Paqueras, influência recebida das chanchadas no início da carreira. Tampouco se limita ao cinema novo. Constrói uma obra mais comercial, que prioriza o espetáculo e o entendimento do espectador, como nos moldes norte-americanos, adaptada à realidade brasileira.

Notas

1. NASCIMENTO, Hélio. O Reino da imagem. Secretaria Municipal da Cultura, 2002. p. 176.

2. ROCHA, Glauber. Revolução do cinema novo. São Paulo: Cosac & Naify, 2004. p. 130.

3. SIMIS, Anita (Org.). Cinema e televisão durante a ditadura militar: depoimentos e reflexões. Araraquara: Cultura Acadêmica Editora, 2005. p. 21.

Obras 1

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Fontes de pesquisa 8

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  • BILHARINHO, Guido. O cinema brasileiro nos anos 80. Uberaba: Instituto Triângulo da Cultura, 2002.
  • Cineasta Robeto Faris morre no Rio. G1. Rio de Janeiro. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/cineasta-roberto-farias-morre-no-rio.ghtml. Acesso em: 14 maio 2018.
  • NASCIMENTO, Hélio. Cinema Brasileiro. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1981.
  • NASCIMENTO, Hélio. O Reino da imagem. Secretaria Municipal da Cultura, 2002.
  • RAMOS, Fernão Pessoa; MIRANDA, Luiz Felipe (Orgs). Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2000.
  • ROCHA, Glauber. Revolução do Cinema Novo. 2. ed. São Paulo: Cosac Naify, 2004.
  • SIMIS, Anita (org). Cinema e televisão durante a ditadura militar: depoimentos e reflexões. Orelha de Marcelo Ridenti. Textos de Roberto Farias e outros. Araraquara, 2005.
  • SOUZA, Enéas de. Trajetórias do cinema moderno e outros textos. Porto Alegre: Secretaria Municipal da Cultura, 2007. p. 119-123.

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