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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Chico Tabibuia

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 02.08.2022
20.10.1936 Brasil / Rio de Janeiro / Silva Jardim
13.05.2007 Brasil / Rio de Janeiro / Casimiro de Abreu
Reprodução fotográfica Paulo Pardal

Exu Hermafrodita, 1996
Chico Tabibuia
Madeira

Francisco Moraes da Silva (Silva Jardim, Rio de Janeiro, 1936 – Casimiro de Abreu, Rio de Janeiro, 2007). Escultor. A produção do artista se caracteriza por imagens arquetípicas1 de teor erótico-sagrado. Com um trabalho marcado por padrões fálicos, esculturas que fundem masculino e feminino e, em especial, pela figura de Exu2, o artista apresent...

Texto

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Francisco Moraes da Silva (Silva Jardim, Rio de Janeiro, 1936 – Casimiro de Abreu, Rio de Janeiro, 2007). Escultor. A produção do artista se caracteriza por imagens arquetípicasde teor erótico-sagrado. Com um trabalho marcado por padrões fálicos, esculturas que fundem masculino e feminino e, em especial, pela figura de Exu2, o artista apresenta um processo criador de fundo ritualístico.

Nascido em Aldeia Velha, no município de Silva Jardim, Rio de Janeiro, Chico Tabibuia esculpe seu primeiro boneco de madeira com pênis em destaque aos 10 anos de idade. Repreendido pela mãe, só volta a esculpir regularmente no final da década de 1970, em torno dos 40 anos. Escultor autodidata, exerce várias atividades ao longo da vida, mas trabalha principalmente como lenhador, coletando tabibuia, madeira da Mata Atlântica utilizada na produção de tamancos. Tendo frequentado o terreiro de umbanda como cambono3, dos 13 aos 17 anos, Chico absorve os arquétipos das religiões de matriz africana, em especial a figura do Exu. Essa temática, presente na produção do artista desde o princípio, se torna recorrente quando adota o culto protestante da igreja Assembleia de Deus. Os Exus produzidos por Chico seriam, segundo o artista, um meio de retirá-los das matas, aprisionando-os às esculturas e impedindo que fizessem mal às pessoas4. Ainda sobre a temática, é possível identificar no trabalho de Tabibuia um meio de processar a complexa relação que estabelece com a mãe5 e com a própria sexualidade6.

Feitas a partir de peças inteiriças de madeira, sem encaixes e com raros acréscimos, as esculturas respeitam as formas originais das raízes e troncos coletados pelo artista. Inicialmente, as madeiras utilizadas são oiticica, sangue-de-burro e mangue. A partir do final dos anos 1980, passa a trabalhar com cedro, vinhático e, mais raramente, jaqueira e guanandi-carvalho. Quanto às ferramentas, na infância trabalha apenas com canivete. Posteriormente, esculpe com formão e martelo até conseguir adquirir serra portátil a motor, enxó, goivas, plainas, grosa, lixadeira e lixas. As superfícies são usualmente lisas, sem ranhuras ou texturas, com rara presença da cor.

As esculturas de Chico Tabibuia resultam de revelações que o artista tem em sonhos. Mitos e arquétipos são representados tanto pela presença do falo quanto pela imagem de seres hermafroditas. Estão presentes também temas que remetem a culturas arcaicas, como as do Daomé e Nigéria, nas quais são recorrentes deidades de falo rijo, simbolizando fecundidade, e hermafroditas representando o aspecto dual do poder gerador. O erotismo é abordado sem pudor, tocando questões como bissexualidade, androginia, hermafroditismo, autocoito, autofelação, práticas sexuais coletivas, anais e vaginais. Não se trata, no entanto, de uma perspectiva pornográfica ou sensual, mas arquetípica, que opera com signos da memória ancestral.

As soluções formais para essa temática erótica envolvem estruturas híbridas como falos-vaginais e seios-escrotais, gerando deslocamento e autonomização dos membros do corpo, em um processo lúdico de desconstrução e reconstrução. Neste sentido, é possível citar a escultura monumental de Exu, com 3 metros de altura, que tem o saco escrotal fendido, em alusão a uma vagina. O trabalho de Chico Tabibuia não procura reproduzir uma verdade anatômica ou ideal de beleza eugenista, mas tem a função de materializar o imaginário do artista em esculturas que operam como abrigo de entidades religiosas. São trabalhos que apresentam poder de síntese e recorrência da anamorfose, ou seja, da mudança de aspecto em função da perspectiva de observação. A forma fálica tem papel central na produção do artista, na qual as partes do corpo de pessoas e animais tendem a se transformar em falos.

A produção de Chico Tabibuia, realizada em 20 anos de trabalho, não ultrapassa 300 esculturas. São peças com medidas de 20 a 300 cm que não costumam se repetir, guardando poucas semelhanças entre si. Exceção a essa regra é o caso do Exu relógio (s.d.). A escultura composta de uma cabeça com chifres portando um charuto na boca, sem braços, um relógio no lugar da barriga e um falo do tamanho das pernas, desperta o interesse de Lélia Coelho Frota (1938-2010), que sugere a produção de uma réplica para uma exposição de arte popular em Paris. Impressionado com a fotografia da escultura incluída no catálogo da mostra, o artista esculpe outros exus relógios, que apresentam variações. Um deles tem, na parte posterior, mostradores de relógio na altura da cabeça e da barriga, enquanto outro, com 120 cm, tem os ponteiros do relógio em formato de pênis.

O estímulo de Paulo Pardal, diretor da Casa de Casimiro de Abreu, que promove exposições e publica um livro sobre a produção de Chico Tabibuia, é fundamental para a difusão do trabalho do artista. Expostas em instituições como o Grand Palais, em Paris, o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP) e o Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio de Janeiro, as esculturas são objeto de análise de autores como Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Nise da Silveira (1905-1999), Emanoel Araújo (1940) e Frederico Moraes (1936).

Reflexo do quanto a cultura africana permanece na diáspora, o trabalho de Chico Tabibuia resulta de um processo criativo ao mesmo tempo místico e ritualístico, abordando temas tabus ligados à sexualidade.

Por meio de uma expressão plástica sintética e de base simbólica, o artista desenvolve sua linguagem sem tomar como referência a produção de outros artistas, constituindo um caso de arte erótico-sagrada no campo da chamada arte popular brasileira.

Notas

1. Sob uma perspectiva junguiana, o conceito de arquétipo diz respeito a imagens mentais passadas de geração em geração, formando o que Jung define como inconsciente coletivo. Está associado a experiências universais como nascimento, morte e sexualidade.

2.  Divindade afro-brasileira que promove a comunicação entre os orixás e os homens. A religião católica costuma associar a figura de Exu ao diabo.

3. Aquele que ocupa a função de dar assistência aos médiuns incorporados em terreiros de religiões de matriz africana.

4. Uma perspectiva acerca de Exu que demonstra a influência da Assembleia de Deus nas crenças do artista.

5. De acordo com depoimento de Chico Tabibuia a Paulo Pardal, a mãe é rígida, não demonstra carinho e repreende com violência as manifestações eróticas precoces do menino. Ao mesmo tempo, é uma mulher que troca de companheiro com frequência, tendo filhos com vários deles, mudando de endereço de forma recorrente e, eventualmente, sendo vítima de violência doméstica. Diante desse quadro, Chico Tabibuia, filho mais velho, exerce o papel de defensor da mãe em situações ligadas à violência doméstica e à provisão do sustento da família. 

6. Ainda de acordo com depoimento de Chico Tabibuia a Paulo Pardal, a relação de Chico Tabibuia com a sexualidade é intensa e complexa, envolvendo um erotismo precoce, a recorrência na troca de companheiras, episódios de traição e violência acompanhados por um desejo de disciplina sexual que faz com que o artista adote períodos de celibato para produção das esculturas. 

Obras 6

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Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Exu

Madeira e dentes de cavalo
Reprodução fotográfica Paulo Pardal

Exu

Madeira

Exposições 17

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Feiras de arte 2

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Fontes de pesquisa 5

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  • BRASIL: arte popular hoje. Texto de Lélia Coelho Frota. Brasília: MinC, 1987.
  • CHICO Tabibuia. Jornal da Galeria Nara Roesler, São Paulo, n. 2, abr. 1996.
  • DRÄNGER, Carlos (coord.). Pop Brasil: arte popular e o popular na arte. Curadoria Paulo Klein; tradução João Moris, Beatriz Karan Guimarães, Maurício Nogueira Silva. São Paulo: CCBB, 2002. SPccbb 2002/pb
  • MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO, 2000, SÃO PAULO, SP. Arte Popular. Curadoria Emanoel Araújo, Frederico Pernambucano de Mello; tradução Grant Ellis, Izabel Murat Burbridge, John Norman, Paulo Henriques Britto. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo : Associação Brasil 500 anos Artes Visuais, 2000. 745.50981 M9161a
  • PARDAL, Paulo. A escultura mágico-erótica de Chico Tabibuia. Pref. Lélia Coelho Frota. Fotos de Pedro Oswaldo Cruz. 2. ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: UERJ: ERCA, 1989.

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