Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas

A Enciclopédia é o projeto mais antigo do Itaú Cultural. Ela nasce como um banco de dados sobre pintura brasileira, em 1987, e vem sendo construída por muitas mãos.

Se você deseja contribuir com sugestões ou tem dúvidas sobre a Enciclopédia, escreva para nós.

Caso tenha alguma dúvida, sugerimos que você dê uma olhada nas nossas Perguntas Frequentes, onde esclarecemos alguns questionamentos sobre nossa plataforma.



Enciclopédia Itaú Cultural
Literatura

Bento Teixeira

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 15.06.2021
1561 Portugal / Douro Litoral / Porto
07.1600 Portugal / Distrito de Lisboa / Lisboa
Bento Teixeira (Porto, Portugal, ca.1561 - Lisboa, Portugal, 1600). Sua origem é cercada de dúvidas e polêmicas. Atribui-se a ele naturalidade pernambucana, o nome Bento Teixeira Pinto, bem como a autoria de várias obras, entre elas o Diálogo das Grandezas do Brasil. No entanto, desde 1929, quando é editada a Primeira Visitação do Santo Ofício à...

Texto

Abrir módulo

Bento Teixeira (Porto, Portugal, ca.1561 - Lisboa, Portugal, 1600). Sua origem é cercada de dúvidas e polêmicas. Atribui-se a ele naturalidade pernambucana, o nome Bento Teixeira Pinto, bem como a autoria de várias obras, entre elas o Diálogo das Grandezas do Brasil. No entanto, desde 1929, quando é editada a Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil, atestam-se seus verdadeiros dados biográficos. Teixeira, autor do poema épico Prosopopeia, nasce em Porto, Portugal, em ca. 1561, filho de Manoel Álvares de Barros e Lianor Rodrigues. Seus pais, judeus, convertem-se ao cristianismo para fugir da Inquisição e vêm para o Brasil em ca. 1567, estabelecendo-se em Tapera, Espírito Santo. Apesar disso, acredita-se que tenha sido, ainda na infância, doutrinado no judaísmo pela mãe, o que, mesmo tendo ele realizado toda a formação escolar em instituições católicas, lhe rende inúmeras vezes problemas com o Estado. Depois da morte dos pais, se estabelece em Ilhéus, Bahia. Ali, casa-se com Filipa Raposa, cristã-velha (designação dada aos cristãos de nascimento), e, em ca. 1584, transfere-se para Olinda, Pernambuco. Abre uma escola, graças à dotação concedida pela Câmara, mas, em ca.1588, a verba é cortada, e Teixeira, então, segue para Iguaraçu, Pernambuco, onde se dedica à advocacia, ao magistério e ao comércio. Tem problemas com a esposa, que o trai e o difama, e é acusado de proferir blasfêmias e obscenidades contra os ícones do cristianismo. Profere, em 31 de julho de 1589, um auto de fé - ritual público de penitência exigido pelos tribunais da Santa Inquisição -, devido às acusações de blasfêmia e obtém a absolvição. Aproximadamente em 1590, volta a Olinda e abre outra escola. Em Pernambuco, vive também em Barreta e na Ilha de Itamaracá, mas é em Cabo de Santo Agostinho que obtém sucesso com sua escola. Em 1593, Filipa acusa-o de práticas judaizantes e, em resposta, Teixeira faz a própria denunciação e confissão perante o visitador do Santo Ofício. Em dezembro de 1594, mata a esposa a facadas, pelas suas traições e acusações. Após tentativas fracassadas de fuga para Tucumã, Argentina, é preso em Olinda, em 20 de agosto de 1595, e levado a Lisboa. Chega à capital portuguesa em janeiro de 1596, e é então recolhido ao cárcere. Em 1597, confessa-se judaizante e pede perdão. No auto de fé, proferido em 31 de janeiro de 1599, abjura o judaísmo. Absolvido da pena de morte e da excomunhão, é condenado à prisão perpétua e ao uso do hábito penitencial. No mesmo ano, em 30 de outubro, obtém liberdade condicional, tendo, porém, de permanecer em Lisboa. Já doente e sem condições de manter-se por conta própria, em 1600, Teixeira volta à prisão, onde morre em fim de julho desse ano.

Comentário Crítico
Prosopopeia, obra única de Bento Teixeira, dirigida ao capitão e governador da capitania de Pernambuco, Jorge d´Albuquerque Coelho, é escrita entre 1584 e 1592 e publicada em 1601. Trata-se de um poema épico, baseado no modelo de Os Lusíadas (1572), de Luís de Camões, composto de 94 estrofes em oitava rima - isto é, estrofes de oito versos, rimados sempre da mesma forma (abababcc) - e decassílabos heroicos.

O poema épico é um gênero narrativo desenvolvido pelos poetas da Antiguidade e do classicismo para cantar a história de todo um povo, por meio dos atos do herói que o representa. Em Prosopopeia, em vez de um povo, louva o heroísmo de Albuquerque Coelho, a partir do que se divulga no documento Naufrágio que Passou Jorge d'Albuquerque Coelho, feito pelo próprio Teixeira, no ano de 1565, e publicado oficialmente em 1584.


Seguindo o esquema tradicional da divisão do poema épico em cinco partes, Prosopopeia inicia-se com a Proposição, apresentação, na voz do poeta, da matéria a ser exaltada, à qual segue a Invocação, em que o poeta afirma que não chamará as musas gregas, mas sim Deus; o Oferecimento; a Narração, dividida entre a descrição de um cenário mitológico pagão e a chegada de Proteu - divindade que reina sobre o mar e tem o dom da premonição -, a Descrição do Recife de Pernambuco e o Canto de Proteu, parte mais longa do poema, na qual Proteu narra histórias da origem e dos feitos de Albuquerque Coelho; e o Epílogo.

No Canto de Proteu, a divindade prenuncia a vinda de Duarte Coelho ao Brasil, bem como sua luta contra os franceses. Narra também o casamento de dom Duarte com dona Beatriz, e o nascimento de seus dois filhos, Duarte e Jorge, os quais vão lutar contra os indígenas e os franceses. Depois da vitória sobre os indígenas, Jorge e o irmão embarcam para Portugal, quando sofrem naufrágio, por causa da tempestade preparada por Netuno a pedido de Vulcano, de quem descenderiam os indígenas. No relato do naufrágio, enfatiza-se o episódio em que Albuquerque Coelho, em nome da fé cristã, impede seus homens de devorarem os companheiros para sobreviver.

Salvos, todos chegam a Lisboa, agradecidos a Deus. Partem depois para a África, para lutar contra os mouros. Lá, Jorge dá seu cavalo a dom Sebastião, impedindo assim que o rei caia em mãos dos oponentes. Jorge e o irmão, porém, são aprisionados. Duarte morre e Jorge é resgatado e transferido para a capitania de Pernambuco, onde se torna capitão e governador.

Segundo a crítica literária, a obra apresenta muitas deficiências, tanto no que concerne ao estilo quanto à estruturação. Seu interesse, assim, limita-se ao histórico-literário, um documento da literatura produzida no Brasil do século XVI bem como das influências camonianas e virgilianas. Alguns críticos do século XIX, contudo, como Sílvio Romero (1851 - 1914), dedicam-lhe maior importância, por considerar que em Prosopopeia ocorre a primeira manifestação do nativismo literário, pela descrição do recife de Pernambuco (estrofes XVII a XXI).

Apesar das deficiências do estilo, especialmente nas confusões entre os discursos da personagem e do poeta lírico, os quais se alternam sem que haja contornos claros nas passagens entre uma e outra fala, e da imitação, em alguns momentos literalmente, de versos camonianos, Prosopopeia é considerada uma obra que testemunha os ecos do barroco no Brasil, especialmente por sua sintaxe latinizante e as complexas inversões da ordem direta.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: