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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Fortunato

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 29.08.2022
14.01.1916 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
02.04.2004 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Fortunato Câmara de Oliveira (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1916 - Idem, 2004). Gravador, pintor, desenhista, militar. Sua linguagem plástica surge da caricatura e da charge. Nos desenhos, realizados em nanquim, bico de pena e pincel, manifesta uma filiação aos princípios formais do expressionismo alemão. Estes princípios também se verificam e...

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Fortunato Câmara de Oliveira (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1916 - Idem, 2004). Gravador, pintor, desenhista, militar. Sua linguagem plástica surge da caricatura e da charge. Nos desenhos, realizados em nanquim, bico de pena e pincel, manifesta uma filiação aos princípios formais do expressionismo alemão. Estes princípios também se verificam em seu trabalho como gravador, onde a xilogravura ocupa um lugar central. 

Fortunato nasce no seio de uma família tradicional carioca, de forte tradição militar. Desde criança, sua avó o estimula a desenhar, o que o leva a desenvolver aptidão para a caricatura. Nos primeiros anos da década de 1940, estuda xilogravura com Oswaldo Goeldi (1895-1961), cuja linguagem exerce forte influência sobre sua trajetória artística. Fortunato integra o 1º Grupo de Caça Brasileiro (1.º GAvCa), e é enviado à Segunda Guerra Mundial em 1944, combatendo ao lado dos Aliados na Campanha da Itália. É neste período que ele concebe a figura da avestruz como mascote do 1.º GAvCa. Acompanhada do grito de guerra “Senta a Pua”, a ave passa a compor o símbolo da corporação, e é pintada na fuselagem dos aviões brasileiros. Contudo, por motivos de saúde, Fortunato é afastado da aviação, de modo que regressa ao Brasil no início de 1945 e se muda para a capital paulista no ano seguinte. Neste período, passa a dedicar mais tempo ao trabalho artístico, e ingressa na pintura. 

Em 1948 ele se muda para Porto Alegre, no Rio Grande do Sul e dois anos depois participa da criação do Clube de Gravura de Porto Alegre, capitaneada pelo pintor Carlos Scliar (1920-2001), com quem Fortunato já nutre uma amizade longeva. Baseado na experiência mexicana do Atelier de Gráfica Popular, seu projeto estético é preocupado com uma arte acessível a todos, alinhado aos preceitos de uma arte realista e ligada ao socialismo. A fama do artista, junto ao Clube, o leva a expor na primeira Bienal Internacional de São Paulo (1951), com uma linografia1 intitulada Rinha. Ao longo da primeira metade da década de 1950, suas gravuras são expostas e premiadas em uma série de mostras, tanto no Brasil quanto no exterior, incluindo o prêmio Pablo Picasso da paz do Clube da Gravura de Porto Alegre (1952).

Nesta época, Fortunato trabalha como desenhista na carioca Revista do Clube Militar  e se empenha ativamente na campanha do "Petróleo é Nosso". Em razão deste envolvimento, é relacionado a tendências comunistas e acaba sendo preso entre 1952 e 1957. Mesmo na prisão, obtém menção honrosa no IV Salão Baiano de Belas Artes (1954), o que traz notoriedade ao artista no cenário artístico nacional. No início da década de 1960 ele se muda com a família para a recém fundada cidade de Brasília (DF). Na capital federal, o artista participa de uma exposição na Galeria Linea-Móveis (1965), com um conjunto de xilogravuras de forte caráter expressionista, com fortes contrastes de brancos e negros.

No ano seguinte, suas ilustrações de uma edição brasileira de Os Lusíadas, clássico de Luís de Camões (1524-1580), iniciam uma série de gravuras baseadas na literatura. A este respeito, destaca-se seu conjunto de 24 xilogravuras inspirado no livro Os Sertões, de Euclides da Cunha (1866-1909), exposto na Galeria de Arte Encontro (Brasília, DF) em 1968. De acordo com o crítico Hugo Auler (1908-1980),

Fortunato realiza um trabalho de reconstituição histórica, onde os jagunços do romance são figurados com uniformes e armamentos de época, em meio a uma caatinga calcinada pela seca. O artista lança mão de uma expressividade que realça a personalidade austera e retrata os hábitos e crenças destas personagens. No ano seguinte, exibe 15 desenhos executados em bico de pena2na Sociedade Brasileira de Cultura Inglesa (Brasília, DF). De acordo com Hugo Auler (1908-1980), por meio desta técnica, o artista cria pontos e linhas, cheios e vazios, que se combinam harmonicamente para dar forma a manchas expressivas e jogos de luz e sombra, onde Fortunato conjuga firmeza e espontaneidade, violência e agressividade, lirismo e traços vibrantes.

Ainda baseado em obras literárias, o artista concebe um conjunto de 30 xilogravuras que ilustram cenas e personagens da obra São Bernardo, de Graciliano Ramos (1892-1953). Estes trabalhos são exibidos em 1970, no interior da Livraria Encontro, que ocupa o conjunto anexo do Hotel Nacional (Brasília, DF). O crítico Hugo Auler considera que, nestas gravuras, Fortunato “soube revelar toda a dramaticidade que envolve essa obra de Graciliano Ramos, conservando no episódico das passagens e das personagens desse romance do autor imortal de Vidas Secas o mesmo sentido estrutural”. Em 1974, exibe desenhos e guaches na Galeria Oscar Seraphico (Brasília, DF), onde inicia uma exploração do realismo mágico. Sua participação em mostras de arte começa a reduzir a partir da segunda metade da década de 1970 e o artista falece no ano de 2004.

Com uma trajetória artística que se inicia na caricatura, Fortunato desenvolve uma poética marcada por um expressionismo de forte tendência goeldiana, em que a técnica da xilogravura ocupa um lugar privilegiado, embora o desenho e a pintura sejam frequentemente empregados. Além do expressionismo, o artista também envereda pelo realismo mágico. Circulando entre diversos procedimentos artísticos, Fortunato constrói seu trabalho plástico a partir de um vasto repertório técnico e temático. 

Notas

1. Impressão sobre tecido

2. Bico de pena é uma ferramenta usada para escrita e desenhos, cujo formato permite explorar diferentes espessuras de traçado.

Exposições 4

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