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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Mestre Guarany

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 18.01.2021
02.04.1884 Brasil / Bahia / Santa Maria da Vitória
04.05.1985 Brasil / Bahia / Santa Maria da Vitória
Francisco Biquiba dy Lafuente Guarany (Santa Maria da Vitória, BA, 1884 - Santa Maria da Vitória, BA, 1985). Escultor, marceneiro e carpinteiro. Filho do construtor de barcas Cornélio Biquiba dy Lafuente (1844-1898), recebe do pai o apelido Guarany devido a sua bisavó índia. Com 14 anos, inicia na marcenaria. Constrói madeiramentos de telhados, ...

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Biografia
Francisco Biquiba dy Lafuente Guarany (Santa Maria da Vitória, BA, 1884 - Santa Maria da Vitória, BA, 1985). Escultor, marceneiro e carpinteiro. Filho do construtor de barcas Cornélio Biquiba dy Lafuente (1844-1898), recebe do pai o apelido Guarany devido a sua bisavó índia. Com 14 anos, inicia na marcenaria. Constrói madeiramentos de telhados, barris e móveis. Também trabalha com o imaginário, fazendo santos, altares e oratórios domésticos.

Em 1901, realiza sua primeira carranca para a barca Tamandaré. Desde então, elabora carrancas encomendadas pelos comerciantes da Bacia do Corrente. Após ficar dois anos com a família na cidade de Bauru (São Paulo), volta em 1922 para Santa Maria da Vitória e passa a ser conhecido e respeitado como carranqueiro. Até meados de 1940, produz cerca de 80 carrancas encomendadas para as barcas que navegam no Rio São Francisco. Com o fim do ciclo das barcas de remeiros, Guarany para de receber encomendas.

No fim da década de 1940, é descoberto pela imprensa e pela crítica de arte. Em 1947, o jornalista Theóphilo de Andrade escreve o artigo “Carrancas de Proa do São Francisco” na revista O Cruzeiro, publicado junto com imagens do fotógrafo francês Marcel Gautherot (1910-1996). Em 1954, o escultor volta a fazer carrancas sob encomenda para colecionadores. No mesmo ano, algumas delas são exibidas em Salvador, na exposição organizada por Vasconcelos Maia, e no pavilhão de arte popular do Parque Ibirapuera, que sedia os festejos do 4° Centenário de São Paulo. O médico e crítico de arte Clarival do Prado Valladares (1918-1983) dedica às suas carrancas o capítulo “Duendes do São Francisco”, em seu livro Paisagem Redeviva, publicado em 1958.

Dois anos mais tarde, seu trabalho faz parte da exposição A Mão do Povo Brasileiro, organizada pela arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992), no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp). As carrancas também ilustram capas dos livros do romancista Osório Alves de Castro (1898-1978), em 1961, e do jornalista Carlos Lacerda (1914-1977), em 1964. Em 1963, o escultor passa a batizar e assinar suas carrancas como “F. Guarany” e recebe, em 1968, o diploma de membro correspondente da Academia Brasileira de Belas Artes.

Em 1972, Guarany ministra palestra sobre as carrancas e o Rio São Francisco na faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (USP). Dois anos mais tarde, o engenheiro Paulo Pardal publica seu livro Carrancas do São Francisco, com biografia e comentários sobre a obra de Guarany. Uma exposição homônima é realizada no Masp em 1975. Em 1977, recebe convite para participar da Exposição Internacional de Arte e Cultura Negra, realizada na Nigéria pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Após sua morte, as carrancas são expostas no Museu Flutuante, em Paris, e na Mostra do Redescobrimento, na Bienal de São Paulo, em 2000. Em 2010, o neto de Guarany, Junior Guarany, e o carranqueiro Reinaldo Moreira criam a oficina Francisco dy Lafuente Guarany.

Comentário crítico
Considerado o maior carranqueiro do Brasil, Guarany tem uma trajetória marcada pela peculiaridade cultural e geográfica da região do médio São Francisco e pela descoberta de suas carrancas por parte da crítica de arte na segunda metade do século XX.

Únicas figuras de proa encontradas em embarcações brasileiras, as carrancas do Rio São Francisco são relatadas pela primeira vez em 1888, no livro Descrições da Província da Bahia, de Durval Vieira Aguiar. Desde o Egito antigo há registros de cabeças ou bustos que ocupam a proa dos barcos. No Brasil, a origem dessas peças é atribuída à cópia das figuras de navios de alto-mar que chegam em Salvador no século XIX. O termo carranca, que designa cara feia ou disforme, só passa a ser usado para se referir às figuras de proa brasileiras em 1947, quando o jornalista Teóphilo de Andrade emprega-o em seu artigo.

A compreensão das carrancas de Guarany produzidas até a década de 1940 remete ao contexto e às peculiaridades do local de sua produção. Santa Maria da Vitória, cidade do escultor, faz parte do médio São Francisco. Com forte densidade demográfica, separada por cachoeiras do baixo e do alto São Francisco e sem acesso por estradas, a região apresenta certo isolamento no começo do século XX. A vida econômica e social de suas cidades depende do transporte fluvial. É pelas barcas que chegam notícias, mercadorias etc. Seu isolamento explica certo atraso da região em relação ao processo de modernização das grandes metrópoles brasileiras e se expressa, por exemplo, na tradição oral de lendas acerca de criaturas aquáticas perigosas, como o Caboclo-Negro e a Mãe-d´Água.

A região, no entanto, também apresenta relativa riqueza cultural e um sentimento de regionalismo que se devem às tentativas de criação da província de São Francisco, em meados do século XIX. O desejo de emancipação faz com que sua educação e vida social se acerquem a das cidades brasileiras mais civilizadas. Essa combinação de fatores diversos está presente nas figuras de proa de Guarany. Produzidas em um meio cultural relativamente desenvolvido, as carrancas têm, por um lado, fins comerciais, pois chamam a atenção da população ribeirinha às barcas que chegam e, por outro, fins simbólico-ritualísticos, pois defendem a tripulação de criaturas e animais perigosos.

Produzidas com pedaços de tronco de madeira imburana ou cedro, as esculturas de Guarany têm comprimento que varia entre 40cm e 50cm e diâmetro de 30cm. O pescoço, no qual elas se sustentam, mede entre 80cm e 1m. O corte do artista é preciso, habilidade expressa, por exemplo, na cabeleira, elemento constante em suas peças. Cobrindo a cabeça e o pescoço das carrancas, ela se assemelha à juba leonina, mas é composta de ranhuras simétricas, como o cabelo dos santos com os quais o escultor trabalha no início de sua carreira. As carrancas têm sobrancelhas arqueadas e olhos humanos, com dentes afiados de animais ferozes. A face e o pescoço se prolongam no corpo, que é a própria barca. Algumas são pintadas em preto, branco e vermelho, como a Muritan, carranca que exibe a testa franzida, como a de um humano, e as orelhas eriçadas, como as de um bicho diante de sua presa. Outras, como a Ituy, são de madeira aparente.

Ponto de união de traços humanos e animais, as carrancas têm caráter zooantropomórfico. Paulo Pardal nota que elas têm expressão assustada e assustadora, que seu olhar é dirigido para algo que não se sabe bem o que é, mas sua expressão reflete o que elas veem e, por isso, elas se espantam e se defendem. Clarival do Prado Valladares observa, nas peças de Guarany, uma “expressão de terror e vigília” e “de decisão de luta na postura ereta do pescoço”. Valladares também atribui à mistura de homem e besta uma subjetividade que enriquece o trabalho.

A confecção de carrancas de Guarany, a partir de 1954, é suscitada pelo crescente interesse de artistas e críticos na arte popular brasileira. Artistas como o ceramista Mestre Vitalino (1909-1963) são exemplos de artesãos que atraem a atenção da crítica de arte em meados da década de 1950. O interesse pela arte popular também se expressa em exposições como a Mostra Bahia, organizada em 1959 por Lina Bo Bardi, e Arte Popular Brasileira, organizada pelo artista plástico francês Jacques van de Beuque (1922-2000) no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ), em 1974. Se as carrancas de Guarany são, até 1940, “objetos confeccionados e produzidos para um mesmo segmento da população”, depois dessa data são retomadas como objetos de arte. A nova apreciação sobre as carrancas altera a própria relação de Guarany com suas peças, que passam a ser batizadas e assinadas a partir de 1963.

Lélia Coelho Frota (1938-2010) afirma que Guarany sabe conciliar em seu trabalho “o encontro da cultura sertaneja com a da indústria urbana”. O poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) homenageia Guarany no poema Centenário: “Conjurou os seres malévolos das águas/ Com o poder de suas mãos meio espanholas/ meio índias, meio africanas/ totalmente brasileiras”.

Exposições 13

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Fontes de pesquisa 11

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  • ANDRADE, Carlos D. Amar se aprende amando. São Paulo: Círculo do Livro, 1987.
  • COELHO, Lélia F. Arte do povo. Disponível em: http://www.museucasadopontal.com.br/sites/default/files/artigos/pdf/Artigo%202%20Lelia%20Coelho%20Frota.pdf. Acesso em: 31 ago. 2013.
  • COELHO, Lélia F. Pequeno dicionário da arte do povo brasileiro: século XX. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2005.
  • DRÄNGER, Carlos (coord.). Pop Brasil: arte popular e o popular na arte. Curadoria Paulo Klein; tradução João Moris, Beatriz Karan Guimarães, Maurício Nogueira Silva. São Paulo: CCBB, 2002. SPccbb 2002/pb
  • GALERIA ESTAÇÃO. Mestre Guarany. Disponível em; http://www.galeriaestacao.com.br/pt-br/artista/35/mestre-guarany. Acesso em: 18 jan. 2021.
  • GONÇALVES, Vauline. Dragões do velho Chico. Revista Conterrâneos, n. 28, jan.-fev. 2011. Disponível em: http://2.bp.blogspot.com/-g2ZoSi05DgM/TnZsKGQkgOI/AAAAAAAAAqM/Jr4-y_Lrxnw/s1600/capa.jpg. Acesso em: 31 ago. 2013.
  • MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO, 2000, SÃO PAULO, SP. Arte Popular. Curadoria Emanoel Araújo, Frederico Pernambucano de Mello; tradução Grant Ellis, Izabel Murat Burbridge, John Norman, Paulo Henriques Britto. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo : Associação Brasil 500 anos Artes Visuais, 2000. 745.50981 M9161a
  • PARDAL, P. Carrancas do São Francisco. Rio de Janeiro: Serviço Geral da Marinha, 1974.
  • PARDAL, P.; VALLADARES, C. Guarany: 80 anos de carrancas. Rio de Janeiro: Berlendis e Vertecchia, 1981.
  • VALLADARES, C. Duendes do São Francisco. In: Paisagem rediviva. Salvador: Imprensa Oficial da Bahia, 1962.
  • VALLADARES, C. São Francisco, de carrancas transfiguradas. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 2 dez. 1972.

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