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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Isabel Mendes da Cunha

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 28.07.2015
03.08.1924 Brasil / Minas Gerais / Itinga
30.10.2014 Brasil / Minas Gerais
Isabel Mendes da Cunha (Itinga, MG, 1924 - Santana do Araçuaí, MG, 2014). Ceramista e escultora. Começa a lidar com o barro ainda pequena. Enquanto o pai e os irmãos mais velhos trabalham na roça, ela cuida dos irmãos menores para que sua mãe faça utensílios de cerâmica, vendidos para complementar a renda familiar. A arte de moldar a argila, tra...

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Biografia
Isabel Mendes da Cunha (Itinga, MG, 1924 - Santana do Araçuaí, MG, 2014). Ceramista e escultora. Começa a lidar com o barro ainda pequena. Enquanto o pai e os irmãos mais velhos trabalham na roça, ela cuida dos irmãos menores para que sua mãe faça utensílios de cerâmica, vendidos para complementar a renda familiar. A arte de moldar a argila, tradicionalmente exercida pelas mulheres tanto na cultura indígena como na africana,1 é tradição na família e sua técnica é passada de geração a geração. Dona Vitalina, sua mãe, não gostava que a filha desperdiçasse a matéria-prima, de extração e preparo trabalhosos, com brincadeiras. Mas bastava uma brecha para que a menina subtraísse da mãe pequenos nacos de argila para transformá-los em bonecas que, segundo ela, ainda eram toscos modelados de forma humana, enrolados em pedaços de papel ou pano.

O trabalho em argila transforma-se no principal ganha-pão de Isabel Cunha, que também se torna paneleira e encontra na venda dos artefatos de barro uma forma de sustentar os filhos após uma viuvez precoce. Depois de preparar pratos, moringas e panelas, segue para as feiras, movimento trabalhoso diante da precariedade de meios transporte de sua região. Situado ao norte de Minas Gerais, o Vale do Jequitinhonha é bastante isolado e pobre. Para levar os produtos às feiras, Isabel Cunha caminha 11 quilômetros de ladeiras até chegar à estrada Rio-Bahia,2 onde há possibilidade de translado. Nas feiras, o principal interesse do público é por objetos baratos e de caráter utilitário, e a concorrência com peças de louça e alumínio tende a crescer.

Pouco a pouco foi emergindo, em meio a essa produção funcional, com fins meramente econômicos, uma produção paralela mais sofisticada, na qual Isabel da Cunha dá vazão ao instinto lúdico da infância e passa a desenvolver sua potencialidade criativa. A realização de trabalhos de maior interesse estético e o abandono progressivo do caráter utilitário das peças torna-se possível graças ao interesse pequeno, porém crescente, do público consumidor. Assim, começam a surgir os pássaros, os presépios, as bonecas – muitas vezes moringas que assumem a forma de mulheres –, e as noivas, que se tornam sua marca característica.

O reconhecimento de seu trabalho só se torna efetivo com o surgimento de campanhas de estímulo ao artesanato em regiões como o Vale do Jequitinhonha. Duas ações têm importância decisiva: a criação da divisão de cultura da Comissão de Desenvolvimento do Vale do Jequitinhonha (Codevale), em 1972, e a instalação de um campus avançado do Projeto Rondon em Araçuaí, em 1973. Uma das ações do campus é a organização, em 1975, da viagem de um grande grupo a São Paulo para mostrar seus trabalhos no Sesc.

Mesmo tendo participado de diversas exposições coletivas de arte popular, é apenas em 2009 que dona Isabel, como é conhecida, inaugura sua primeira exposição individual, aos 85 anos. A mostra é realizada na Galeria Estação, em São Paulo, pela curadora Lélia Frota (1938-2010), aos cuidados do Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro (IIPB). Nessa ocasião ela já havia sido agraciada por diversas instituições, recebendo, entre outros reconhecimentos, o Prêmio Unesco de Artesanato para a América Latina (2004); a Ordem do Mérito Cultural (Ministério da Cultura do Brasil, 2005); e o Prêmio Culturas Populares (Ministério da Cultura do Brasil, 2009).

Comentário crítico
Também conhecida como “Isabel das Bonecas”, Isabel Cunha é uma das mais destacadas artistas populares brasileiras do século XX. Sua vasta produção deriva da tradição ceramista do interior de Minas Gerais, em sintonia com uma maneira bastante particular de ver e representar o universo feminino. Com um estilo bastante próprio, no qual se destaca uma clara intenção de recriar de forma diversificada e enobrecedora a imagem da mulher interiorana, dona Isabe cria escola, ensinando e envolvendo no processo de criação das peças praticamente toda a família, com destaque para seu genro e seguidor, João Pereira de Andrade. Durante muito tempo é ele quem faz o corpo de suas bonecas, enquanto ela se dedica à modelagem mais detalhada das cabeças. Vários habitantes de Santana do Araçuaí, cidade onde reside desde a juventude, também seguem seus passos.

Noivas, mães amamentando, figuras femininas sozinhas ou com seus pares masculinos em trajes de festa estão entre os temas de preferência da artista. Um dos aspectos mais característicos de suas figuras é o contraste evidente entre uma fisionomia ricamente detalhada, com claros atributos femininos – penteados, joias, pinturas que representam rendas, entre outros – e a forma sintética, sólida e um tanto hierática do corpo, que muitas vezes chega a ser representado sem braços, num processo de “incrível síntese que a artista cria para tornar suas cabeças-retratos o fulcro de seu trabalho”.3 Essa separação entre rosto e tronco, que tem razões ao mesmo tempo funcionais e técnicas, acaba por se consolidar como estilo. É evidente a relação entre as bonecas e as tradicionais moringas e botijas de três bolas confeccionadas pelas artesãs da região. Levada por razões econômicas e pelo gosto de modelar o barro desde a infância, Isabel encontra na repetição do objeto a possibilidade de renovar. Por outro lado, a separação na altura do pescoço facilita o processo de cozimento da peça. As duas partes podem ou não ser unidas posteriormente.

Se dona Isabel realiza suas peças seguindo a mesma técnica aprendida com a mãe, moldando a argila com a mão, ela inova em termos de acabamento e sofisticação das esculturas, que podem atingir 1,5 metro de altura. Além de dotar suas figuras de traços extremamente delicados – boca carnuda e bem delineada, muitas vezes em forma de coração, olhos pintados detalhadamente, com cílios e sobrancelhas, cabelos torneados –, ela se dedica a produzir trajes bem decorados às suas mulheres, sejam sofisticados vestidos de noiva ou singelas roupas de passeio. Tais efeitos são obtidos não só pelo modelado, mas a partir de uma exploração requintada da técnica do engobo, ou “água de barro” – aplicação de uma pasta de argila sobre a peça do mesmo material para colorir e refinar o acabamento –, que a artesã diz ter desenvolvido e aperfeiçoado com experiências de dissolução de argilas de diferentes colorações. Essa técnica é responsável pela aparência suave e lustrosa de suas peças e garante um brilho semelhante ao do esmalte cerâmico.4

A artista destaca como uma de suas principais características o interesse em exprimir no barro diferentes expressões e sentimentos, conseguindo revelar nas figuras, sobretudo de mulheres, diferentes estados de espírito. Não à toa escolhe entre seus temas preferidos dois momentos centrais do universo feminino: o casamento e a maternidade. Esta última representada sobretudo por peças de mulheres amamentando.

Notas

1 “Porque minha bisavó era bem chegada a caboclo, índio”, explica a artista. Depoimento colhido pela pesquisadora Dalva Maria Silva. Ver SILVA, Dalva Maria de Oliveira. A arte de viver: riqueza e pobreza no médio Jequitinhonha, Minas Gerais, de 1970 a 1990. São Paulo: Editora da PUC/SP, 2007.

2 “Saía com o canto do galo, equilibrando a pesada carga de utensílios de cerâmica, e vencia onze íngremes quilômetros até a estrada Rio-Bahia, onde um carro transportava os feireiros até a cidade". Ver SOUZA, Marina de Mello e (org). Mestre Isabel e sua escola: cerâmica no Vale do Jequitinhonha. Rio de Janeiro: Funarte: CNFCP, 1995, p. 12.

3 FROTA, Lélia Coelho. Isabel Mendes da Cunha: cerâmicas. São Paulo, Galeria Estação, 2009, p. 9.

4 Ver DALGLISH, Lalada. Noivas da seca: cerâmica popular do Vale do Jequitinhonha. São Paulo: Editora Unesp, 2008

Exposições 6

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Fontes de pesquisa 12

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  • DALGLISH, Lalada. Noivas da Seca: cerâmica popular do Vale do Jequitinhonha. São Paulo: Editora Unesp, 2008.
  • DRÄNGER, Carlos (coord.). Pop Brasil: arte popular e o popular na arte. Curadoria Paulo Klein; tradução João Moris, Beatriz Karan Guimarães, Maurício Nogueira Silva. São Paulo: CCBB, 2002. SPccbb 2002/pb
  • Entrevista de Isabel Mendes da Cunha para o Museu da Pessoa. Disponível em: http://www.museudapessoa.net/blogs/memoriadosbrasileiros/index.php?i=16. Acesso em: set. 2012.
  • FROTA, Lélia Coelho. Isabel Mendes da Cunha – Cerâmicas. São Paulo: Galeria Estação, 2009.
  • LOBATO, Elvira. Mãos de Fôrma. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 09 nov. 2014. Aliás, p.E4.
  • MASCELANI, Angela. Caminhos da arte popular: o Vale do Jequitinhonha. Rio de Janeiro: Museu da Casa do Pontal, 2008.
  • MATTOS, Sonia Missagia. Artefatos de gênero na arte do barro. Campinas: IFCH/UNICAMP, 1998.
  • MATTOS, Sonia Missagia. Mãos criadoras de vida: ceramistas do Vale do Jequitinhonha. In: Habitus. V.5, n. 1, p.187-207. Goiânia: jan./jun., 2007.
  • MESTRE Isabel e sua escola: cerâmica no Vale do Jequitinhonha. Organização Marina de Mello e Souza. Rio de Janeiro: Funarte, CFCP, 1995. 32 p. il. (Sala do Artista Popular, n. 59).
  • MORAIS, Frederico. O Brasil na Visão do Artista. São Paulo: Prêmio editorial, 2003.
  • MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO, 2000, SÃO PAULO, SP. Arte Popular. Curadoria Emanoel Araújo, Frederico Pernambucano de Mello; tradução Grant Ellis, Izabel Murat Burbridge, John Norman, Paulo Henriques Britto. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo : Associação Brasil 500 anos Artes Visuais, 2000. 745.50981 M9161a
  • SILVA, Dalva Maria de Oliveira. A arte de viver: riqueza e pobreza no médio Jequitinhonha, Minas Gerais, de 1970 a 1990. São Paulo: Editora da PUC-SP, 2007.

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