Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Conceição dos Bugres

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 29.10.2021
1914 Brasil / Rio Grande do Sul
1984 Brasil / Mato Grosso do Sul / Campo Grande
Conceição Freitas da Silva (Povinho de Santiago, Rio Grande do Sul, 1914 – Campo Grande, Mato Grosso do Sul, 1984). Escultora. É conhecida pela produção de “bugres”, sintéticas figuras humanas  de traços indígenas, que a levaram a ser considerada a mais importante escultora do Centro-Oeste1 e que se transformaram em ícone do Mato Grosso do Sul.

Texto

Abrir módulo

Conceição Freitas da Silva (Povinho de Santiago, Rio Grande do Sul, 1914 – Campo Grande, Mato Grosso do Sul, 1984). Escultora. É conhecida pela produção de “bugres”, sintéticas figuras humanas  de traços indígenas, que a levaram a ser considerada a mais importante escultora do Centro-Oeste1 e que se transformaram em ícone do Mato Grosso do Sul.

Aos seis anos, muda-se para Ponta Porã com a família e, em 1957, transfere-se para Campo Grande, onde vive até sua morte, em 1984. Trabalha na roça e dedica-se aos trabalhos manuais. “Trabalhei com figurinha de lã, trabalhei com crochê, mas minha vista cansou”, conta ela ao explicar como dá início à produção de seus bugres.

Sua primeira peça é talhada num pedaço de mandioca. “Um dia me pus sentada embaixo de uma árvore. Perto de mim tinha uma cepa de mandioca. A cepa da mandioca tinha cara de gente. Pensei em fazer uma pessoa e fiz. Aí a mandioca foi secando e foi ficando com uma cara de velha. Gostei muito. Depois eu passei para a madeira”2, diz ela enfatizando a importância do acaso e o caráter indicativo do material para o resultado do trabalho. Segundo Conceição, seus golpes de cinzel e serrote seguem informações já contidas nas toras de eucalipto; são um meio de revelar aquilo que já existe no material. “A madeira é sábia”, costuma dizer.

A relação com a natureza é preciosa, pois tudo provém dela. Além da madeira, a natureza fornece a cera de abelha e as ervas. A cera é indicada a Conceição pelo marido em sonho. Depois disso, passa a recobrir todas as esculturas que produz com ela. Além de ajudar a preservar a madeira, a cera serve para protegê-la do frio. Numa relação de proximidade e cuidado com as obras, a artista costuma colocar suas peças para tomar sol e dá a cada uma identidade própria. Conceição também se vangloria de ter aprendido com o pai a lidar com as ervas e a fazer remédios para quem necessita. “Precisamos servir nosso semelhante, a humanidade”, afirma. 

Em 1979, o cineasta Cândido Alberto da Fonseca realiza um documentário sobre a escultora, no qual estabelece conexão entre ela e suas figuras, destacando a semelhança e afetividade presentes nessa relação. “Todos me olhando, alegre e contente”, descreve ela no filme ao narrar o surgimento de suas obras. Conceição conta que muitos saem rindo e usa uma terminologia que parece a descrição de um parto. As esculturas também ganham nomes: Joaninha, Mariquinha, Chiquinho. “Aquele barrigudo é o Manequinho", brinca. 

Seu trabalho é preciso e repetitivo. Dá forma humana às toras, criando incisões e depressões que sugerem pernas, braços e olhos, sempre puxados, como os dos índios. Usa, como explica o professor Miguel Chaia (1947), "recursos mínimos para produzir uma das mais potentes formas antropomórficas da arte brasileira"3. Nas esculturas, a cabeleira pintada de negro e a cabeça reta (não ovalada) remete à ascendência indígena. Para Conceição, “índio tem a cabeça desse jeito. Só tem que sair desse jeito”4.

Suas intervenções são sutis, com poucos gestos. "São formas severas e brutas em posições rígidas, parecendo sempre fixar o espectador”, descreve o professor Percival Tirapeli (1952)5. "Algumas das características centrais de suas peças, como o corpo roliço, a posição vertical e a cabeça chata, derivam do formato original da madeira e de uma visão particular da artista sobre a aparência de seus índios. 

Como destaca Miguel Chaia, Conceição dedica-se a um único assunto e, em torno dele, desdobra infinitamente uma mesma forma e uma mesma técnica. Formalmente, há em suas obras uma aliança entre síntese e seriação que remete a escultores modernos como o franco-romeno Constatin Brancusi (1876-1957). Há, ainda, o vínculo com expressões primitivas e arcaicas, como os moais da Ilha de Páscoa, ou com arquétipos da cultura popular, como os ex-votos. 

Seu trabalho, resume Chaia, é “fundamentado na repetição da igualdade e na especificidade da diferença". Talvez por isso alcança um nível estético tão aguçado. É o que o curador chama de elo entre a estética e a ética. Afinal, há em sua produção aspectos antropológicos e políticos incontornáveis. É preciso considerar que a família da artista migra para o Centro-Oeste por causa da perseguição aos índios no Sul, em confrontos com a onda de imigração europeia no início do século XX. O significado de bugre, que a artista adota para nomear a si mesma e as suas esculturas, remete a sua origem (tribo indígena do sul do país) e àqueles perseguidos pelos bugreiros. "O termo ‘bugre’ passou a designar os índios combatidos, perseguidos e afastados do seu território", diz Chaia.

A esperança de encontrar uma vida melhor não se realiza. “O Mato Grosso tinha muita fama, que  era muito bom, só chegar aqui e pegar terra, pegar mato, e não era assim não", relembra ela. Seu sonho, não realizado, era conseguir uma casa própria (“uma casa de minha”). O reconhecimento é tardio, mesmo que amplo. Acaba tornando-se figura de destaque na cena regional, graças ao esforço capitaneado pela crítica Aline Figueiredo (1946) e pelo artista plástico Humberto Espíndola (1943) em defesa da produção artística do Centro-Oeste6.

Notas

1 FIGUEIREDO, Aline. Artes plásticas no Centro-Oeste. Cuiabá: UFMT, 1979. Disponível em: < http://www.galeriaestacao.com.br/artista/49#prettyPhoto[iframes]/0/ >. Acesso em: 25 abr. 2018.
FIGUEIREDO, op. cit.
3 CHAIA, Miguel. Conceição dos Bugres: o índio na estética mínima de Conceição. São Paulo: Galeria Estação, 2017. Abertura 3 ago 2017.
4 FIGUEIREDO, op. cit., p. 215.
5 TIRAPELI, Percival. Arte Popular. São Paulo: Companhia Editora Nacional, v. 5, 2006, pg. 55. (Arte brasileira).
6 Foi Hilton Silva, artista plástico e filho de Conceição, quem apresentou o trabalho de sua mãe a Aline Figueiredo e Humberto Espíndola, rapidamente incorporado ao movimento de defesa da arte mato-grossense. 

Exposições 8

Abrir módulo

Fontes de pesquisa 6

Abrir módulo
  • CHAIA, Miguel. Conceição dos Bugres: o índio na estética mínima de Conceição. São Paulo: Galeria Estação, 2017. Abertura 3 ago 2017.
  • CONCEIÇÃO dos bugres. Documentário. Direção: Cândido Alberto da Fonseca. Produção: Seriema filmes. Mato Grosso: Seriema filmes, 1979. (110 min), son., color., 16 mm.
  • FIGUEIREDO, Aline. Artes plásticas no Centro-Oeste. Cuiabá: UFMT/MACP, 1979. Acesso em 25 maio 2018
  • FROTA, Lélia Coelho. Pequeno dicionário do povo brasileiro, século XX. São Paulo: Aeroplano, 2005.
  • MULHERES na arte popular. Versão do texto para o inglês Maria Fernanda Mazzuco. São Paulo: Galeria Estação, 2020. Disponível em: http://www.galeriaestacao.com.br/documents/catalog_108_fc3e6-catexpmulpop2020.pdf. Acesso em: 29 out. 2021.
  • TIRAPELI, Percival. Arte Popular. São Paulo: Companhia Editora Nacional, v. 5, 2006, pg. 55. (Arte brasileira).

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: