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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Mestre Valentim

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
1745 Brasil / Minas Gerais / Serro
02.03.1813 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro

Grande Cartela com Querubim, 1801
Mestre Valentim
Madeira policromada e dourada

Valentim da Fonseca e Silva (Serro MG ca.1745 - Rio de Janeiro RJ 1813). Escultor, entalhador, arquiteto, urbanista.  Em 1748, é levado por seu pai a Portugal, onde aprende o ofício de escultor e entalhador. Retorna ao Rio de Janeiro e, por volta de 1770, abre uma oficina no centro comercial. Pertence à Irmandade dos Pardos de Nossa Senhora do R...

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Biografia
Valentim da Fonseca e Silva (Serro MG ca.1745 - Rio de Janeiro RJ 1813). Escultor, entalhador, arquiteto, urbanista.  Em 1748, é levado por seu pai a Portugal, onde aprende o ofício de escultor e entalhador. Retorna ao Rio de Janeiro e, por volta de 1770, abre uma oficina no centro comercial. Pertence à Irmandade dos Pardos de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito. Em 1772, trabalha com o entalhador Luís da Fonseca Rosa na decoração interna da Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, realizando trabalhos até 1800. Durante a gestão do vice-rei, Dom Luís de Vasconcelos e Sousa (1740 - 1807), entre 1779 e 1790, é o principal construtor de obras públicas da cidade do Rio de Janeiro nas áreas de saneamento, abastecimento e embelezamento urbano, como o Passeio Público, feito em colaboração com o pintor Leandro Joaquim (ca.1738 - ca.1798) e com os decoradores Francisco dos Santos Xavier e Francisco Xavier Cardoso de Almeida. Entre 1790 e 1813, executa talha e imagens sacras para as igrejas de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte, São Pedro dos Clérigos, Santa Cruz dos Militares e Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco.

Comentário Crítico
"Filho de um fidalgote português contratador de diamantes e de uma crioula natural do Brasil",1 o mulato Valentim da Fonseca e Silva, comumente conhecido como Mestre Valentim, destaca-se como um dos artistas mais originais em atuação no Rio de Janeiro entre o último quartel do século XVIII e o início do XIX. Seu estilo "híbrido", no qual concilia formas barrocas e rococós com certo sentido de contenção e sobriedade neoclássicas, sinaliza os processos de aculturação ocorridos nessa cidade desde sua proclamação a capital do vice-reino. Entre os principais nomes da arte colonial brasileira, como Aleijadinho (1730 - 1814) e Manoel da Costa Athaide (1762 - 1830), diferencia-se por ser o único a desenvolver, paralelamente aos trabalhos em igrejas, obras no campo da arte civil.

Em 1748 Valentim é levado a Portugal por seu pai, onde permanece até os 25 anos, retornando ao Brasil por volta de 1770. Naquele país aprende o ofício de escultor e entalhador. Não se sabe ao certo quais são seus mestres. Mas é preciso lembrar que durante o período de formação em Portugal o jovem presencia o desenvolvimento do estilo pombalino.  Para o plano de reconstrução de Lisboa, após seu incêndio em 1755, o Marquês de Pombal, então ministro das Finanças de Dom José, privilegia partido arquitetônico e decorativo mais sóbrio, excluindo a dispendiosa talha dourada. O modelo seguido é a arte italiana, que, em fusão com tradições da arquitetura portuguesa, dá origem às igrejas pombalinas. O ideário iluminista despótico de Pombal logo chega à capital do Brasil pelo governo do vice-rei, Dom Luís de Vasconcelos e Sousa (1740 - 1807). Mas se em Portugal o gosto italiano toma a dianteira, no Rio de Janeiro as igrejas com fachadas pombalinas (como é o caso da Ordem Terceira do Carmo e de São Francisco de Paula) não abandonam a talha dourada da tradição luso-brasileira, abrindo caminho para o desenvolvimento de uma versão regional de grande delicadeza e requinte do estilo rococó, principalmente pelas mãos de Mestre Valentim.

O nome do artista aparece pela primeira vez como entalhador na obra de decoração da Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, em 1772, como discípulo de Luís da Fonseca Rosa. Apesar dos acréscimos ornamentais ecléticos do século XIX, ainda são identificáveis características do estilo de Mestre Valentim. A talha dourada sobre fundo claro do retábulo-mor é amplamente decorada com motivos rococós como guirlandas, buquês de flores, festões de folhas, laços, cabecinhas de querubins, que permitem uma sensação óptica de movimento da superfície. Os anjos-meninos caracterizam-se, entre outras coisas, pelo rosto arredondado, feições levemente amulatadas, bochechas e olheiras marcadas, lábios com contornos definidos, pescoço grosso e curto, olhos saltados e caídos, cabelos abundantes e fios marcados, sinalizando o estilo de querubins de Valentim. Destaca-se no conjunto a inclusão de colunas salomônicas típicas do barroco joanino no lugar de colunas retas de acordo com um gosto rococó mais classicizante. 

No entanto, é na Capela do Noviciado da Ordem, cuja decoração é executada entre 1773 e 1780, que Valentim apresenta todos os elementos de seu estilo. Trata-se de um salão de planta retangular e teto abobadado revestido de talha dourada sobre fundo branco, formando uma unidade decorativa ímpar. O retábulo é constituído de banqueta-altar em forma de sarcófago, tendo ao fundo colunas retorcidas, num jogo de saliências que prepara o olhar para a visão da Nossa Senhora do Amor Divino. A decoração é repleta de rocalhas, guirlandas, festões florais, cabecinhas de anjos, que se repetem por todo o espaço e nas molduras preciosamente "bordadas" nos mesmos motivos. A composição da talha segue um sentido de simetria típico da Escola de Lisboa, mas, em geral, apresenta soluções de caráter mais intimista do que monumental. Isso revela certo gosto cortesão presente na talha religiosa carioca na segunda metade do século XVIII, embora tranqüilamente aliado a elementos grandiosos do barroco joanino. Em sua última obra, a talha para a Capela do Noviciado da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Paula (na qual o artista teria trabalhado de 1801 a 1813), repetem-se as soluções de mais de 20 anos anteriores. Contudo, a talha um pouco contida, simplificada e simétrica, inclinando-se a certa compartimentação formal mais classicizante, aponta para a introdução de um espírito neoclássico.  

No âmbito da arte civil, o artista realiza tanto obras de embelezamento público quanto de saneamento e abastecimento de água, executando trabalho originalmente de engenheiros militares. Seu principal solicitante é o vice-rei, Dom Luís de Vasconcelos e Sousa. De todas as suas obras, a mais marcante, sem dúvida, é o conjunto formado pelo Passeio Público (1783), primeiro jardim de lazer do carioca, e pelo Chafariz das Marrecas (1785, destruído em 1896). Seu projeto reporta-se às idéias iluministas de bem-estar, civilidade, higienização, progresso, que deveriam transformar a capital brasileira numa cidade moderna. Tal projeto simboliza também uma natureza dominada pela razão e ação do homem.

Mestre Valentim realiza tanto o risco em estilo barroco em forma de hexágono irregular cortado por aléias (sendo que a principal em linha reta tem como ponto de fuga a Baía de Guanabara) quanto fontes, elementos decorativos, portão e portal. No conjunto, diversas vertentes artísticas estão presentes, como o barroco, na estrutura dinâmica e cenográfica do jardim e nos elementos escultóricos do portal; o rococó, nas curvas e contracurvas e estilizações florais do portão em ferro fundido2  e nas esculturas em metal de Eco e Narciso (ambas se encontram atualmente no Jardim Botânico do Rio de Janeiro); e o espírito iluminista de catalogação e ordenação da natureza no paisagismo e nas representações naturalistas de animais. Em seu conjunto, a obra representa o início de uma tradição de escultura pública não-religiosa e da urbanização como forma de embelezar a cidade.

Amplamente reconhecido em sua época, Mestre Valentim ocupa na história da arte brasileira lugar de transição, no qual artista e técnico-artesão, passado e futuro, arte religiosa e laica, barroco e rococó, espírito clássico e nativista convivem em harmonia em sua obra.

Notas

1 Segundo Manuel de Araújo Porto Alegre, o primeiro biógrafo de Mestre Valentim.

2 Mestre Valentim inaugura a arte da escultura de metal fundido no Brasil, sendo dono da mais importante oficina torêutica do Rio de Janeiro.

Obras 8

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Exposições 20

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Fontes de pesquisa 10

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  • ANDRADE, Mário de. Aspectos das artes plásticas no Brasil. 3. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. 96 p., il. p&b. color. (Obras completas de Mário de Andrade, 12).
  • ARAÚJO, Emanoel (org.). A Mão afro-brasileira: significado da contribuição artística e histórica. São Paulo, SP: Tenenge, 1988.
  • ARTE no Brasil. São Paulo: Abril Cultural, 1982.
  • BRÉSIL baroque, entre ciel et terre. Paris: Musée du Petit Palais, 1999. 518 p., il., color.
  • CARVALHO, Anna Maria Fausto Monteiro de. Mestre Valentim. São Paulo: Cosac & Naify, 1999. 122 p. , il. color. (Espaço da arte brasileira).
  • GULLAR, Ferreira (et. al). 150 anos de pintura no Brasil: 1820-1970. Rio de Janeiro: Colorama, 1989.
  • MOSTRA DO REDESCOBRIMENTO, 2000, SÃO PAULO. Arte Barroca. Curadoria Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira; assistência de curadoria Fátima A. de S. Justiniano, Beatriz Ramos de Vasconcelos Coelho; tradução Marion Mayer, Eugênia Deheinzelin. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2000.
  • O UNIVERSO mágico do barroco brasileiro. Curadoria Emanoel Araújo. São Paulo: Sesi, 1998. Exposição realizada no período de 30 mar. a 03 ago. 1998.
  • TRADIÇÃO e ruptura: síntese de arte e cultura brasileiras. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1984.
  • ZANINI, Walter (org.). História geral da arte no Brasil. São Paulo: Fundação Djalma Guimarães: Instituto Walther Moreira Salles, 1983. v. 1.

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