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Artes visuais

Artur Pereira

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 02.02.2021
1920 Brasil / Minas Gerais / Cachoeira do Brumado [Mariana]
06.06.2003 Brasil / Minas Gerais / Mariana
Artur Pereira (Cachoeira do Brumado, Minas Gerais, 1920 – idem, 2003). Escultor. Nascido em um pequeno distrito de Mariana, Minas Gerais, Artur Pereira tem sete irmãos (Dorvalina, Amélia, Maria, Lucília, Geraldo, Abelardo e Rosalina)1. Ainda criança, começa a trabalhar com o pai e, por isso, frequenta pouco a escola. O pai, lavrador e vendedor a...

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Artur Pereira (Cachoeira do Brumado, Minas Gerais, 1920 – idem, 2003). Escultor. Nascido em um pequeno distrito de Mariana, Minas Gerais, Artur Pereira tem sete irmãos (Dorvalina, Amélia, Maria, Lucília, Geraldo, Abelardo e Rosalina)1. Ainda criança, começa a trabalhar com o pai e, por isso, frequenta pouco a escola. O pai, lavrador e vendedor ambulante de panelas de pedra-sabão, morre quando Artur Pereira tem entre 15 e 18 anos. A mãe é costureira e trabalha em casa. Quando rapaz, esculpe pequenos bichos de barro para presépio.

Durante a vida, exerce as atividades de lenhador e carvoeiro e, mais tarde, de pedreiro e carpinteiro, além de trabalhar na lavoura em época de roça, plantando milho, feijão e arroz. Casa-se com Juvenil dos Reis Pereira, conhecida como dona Fiota. O casal tem cinco filhos. Na época em que trabalha como lenhador, mora em um rancho longe da cidade e produz gamelas de madeira. Certa vez, esculpe em cedro uma gata que vive com ele. Apesar dos elogios, Artur Pereira deixa de lado a escultura. Retorna à atividade apenas na década de 1960, quando se fixa novamente em Cachoeira do Brumado, depois de passar quase 20 anos na mata, picando lenha e voltando à vila natal no período de chuvas.

Passa a esculpir, sempre em cedro, animais isolados, como boi, onça, cachorro e leão. As peças são pintadas com a tinta que encontra, e partes do corpo, como braços e mãos, são coladas. Em 1968, realiza as primeiras esculturas com mais de uma figura: o primeiro conjunto é uma caçada; o segundo, um presépio. Começa a esculpir conjunto de animais que, por vezes, incluem também homens, talhados em uma só peça de madeira. Em 1971, vence concurso de presépios promovido pela Fundação de Arte de Ouro Preto. Suas peças ganham projeção e são vendidas em galerias de diferentes cidades do país. Nesse período, começa a ganhar dinheiro com esculturas e passa a dedicar-se exclusivamente ao ofício.

Sua obra é admirada e acompanhada por marchands e artistas, como Amilcar de Castro (1920-2002), Paulo Vasconcellos (1932-2010), Cesar Aché (1953) e Renato Madureira (1960). Em 1989, Artur Pereira apresenta exposição individual no Espaço Cultural Companhia Vale do Rio Doce, no Rio de Janeiro. As peças são exibidas em outras mostras coletivas, como em Brésil, Arts Populaires, na capital francesa, em 1987, e na Mostra do Redescobrimento, apresentada na Fundação Bienal de São Paulo, em 2000. Em 2009, o Instituto Moreira Salles faz uma retrospectiva de sua obra, com exposições no Rio de Janeiro e em São Paulo.

 

Análise

A obra de Artur Pereira começa a despertar interesse no fim da década de 1960. As características singulares de seu trabalho chamam a atenção de pessoas ligadas às artes plásticas – colecionadores, marchands ou outros artistas. Ressaltam-se os paradoxos da altivez e da singeleza de suas figuras e o caráter indefinido, embora familiar, de seus animais. As peças, evidentemente fora do cânone erudito, levam os comentadores e admiradores especializados a tentar entender e situar a obra de Artur Pereira. Busca-se compreender como um homem simples, sem formação artística  – de fato, quase sem formação alguma –, pode criar obras tão instigantes, que remetem a artistas modernos, como a brasileira Tarsila do Amaral (1886-1973) e o romeno Constantin Brancusi (1876-1957).

Para explicar as soluções do escultor, alguns comentadores sugerem a semelhança da obra de Artur Pereira com o barroco mineiro e as colunas salomônicas das igrejas desse período. De fato, a cidade de Cachoeira do Brumado participa do ciclo do ouro e possui uma igreja barroca, da qual Artur Pereira participa dos reparos.

Algumas das peças do escultor, geralmente chamadas de “colunas”, possuem estrutura semelhante à das colunas barrocas. Elas são esculpidas em seções de tronco oco, na forma de uma espiral composta por animais em fila e plantas. O resultado é uma espécie de renda feita com esses elementos contíguos, que revela a interdependência do mundo natural e seus componentes. A crítica de arte, escritora e antropóloga Lélia Coelho Frota (1938-2010) chama essas colunas de “florestas”, reforçando a referência às árvores da vida, feita pelo artista José Alberto Nemer (1945) e remetendo-nos ao simbolismo das colunas barrocas. 

Essas não são as primeiras peças produzidas por Artur Pereira. As características marcantes de suas obras – singularidade, simplificação, familiaridade e ambiguidade – estão presentes já nas primeiras peças. Os animais isolados – esses “bichos”, como ele os chama – podem ser onças, cachorros, gatos, bois, pássaros etc. Também podem ser indefinidos e reunir características de diferentes animais, sem se assemelhar a seres monstruosos ou fantásticos. Independentemente da identidade figurativa, as peças são estilizadas, arredondadas e, na maior parte das vezes, claramente formadas pela junção de cilindros, apesar de talhadas em uma só peça de madeira. Os tamanhos variam, sem haver preocupação com as proporções entre os bichos. O arredondamento é explicado por Lélia Frota como decorrente das primeiras esculturas de barro, material que favorece o tratamento curvilíneo.

Nemer faz analogia entre o trabalho de Artur e Tarsila do Amaral e levanta a hipótese de a relação atávica com a natureza explicar o tratamento nas peças do escultor. O crítico Rodrigo Naves (1955) destaca o uso do cedro, madeira macia e sem veios, e a semelhança de suas peças com certos objetos artesanais da vida rural, como ex-votos, pilões, rodas dentadas etc. Cabe ressaltar que Artur Pereira também trabalha com pedra-sabão, outro material macio, e, antes de começar a esculpir, ele faz gamelas de cedro.

A relação com certos objetos do cotidiano parece significativa, mas não dá conta de explicar todos os trabalhos do artista, como as esculturas de grupos. Nelas há apenas animais ou eles são predominantes. Em geral, elas podem ser dividas em galhadas e presépios, ambos talhados em uma só peça de madeira. As galhadas, como as colunas, deixam evidente a forma inicial da madeira bruta: as figuras acompanham as ramificações da árvore. São peças que, por vezes, parecem em equilíbrio instável, por mostrarem na base bichos menores que sustentam, por exemplo, onças enormes – o que não coincide com a realidade e escapa do cânone escultórico. Os presépios tampouco seguem a iconografia cristã tradicional: trazem animais que não estão presentes na cena bíblica e privilegiam os bichos em detrimento das figuras humanas.

Essas peças e as colunas são, por vezes, relacionadas a produções da arte popular, que apresentam uma concepção de mundo particular, entrelaçando aspectos sociais, naturais e religiosos. Isso se reflete na contiguidade e na indistinção entre as partes de uma peça. Entretanto, como mostra Naves, as peças de Artur Pereira mantêm-se sempre entre a interdependência e o isolamento. 

O caráter universal depreende-se da simplificação formal e da ausência de detalhes – processos que contribuem para a altivez dos animais. Essas características têm fundamentado leituras mais simbólicas, que identificam imagens arquetípicas na obra do artista (interpretação comum quando se trata da chamada arte popular).

Entretanto, não parece frutífero analisar esses artistas sob o rótulo genérico de “arte popular”, mas tentar encontrar a singularidade em cada um deles. Para Naves, o interesse e a beleza da obra de Artur Pereira devem-se à certa relação com a natureza e com a própria vida. O efeito final permite o estabelecer relações com a história da arte, mas não se deixa encaixar em suas categorias usuais.

 

Notas

1. Em Lélia Coelho Frota (1978, p. 29), Artur cita sete irmãos. No texto de José Alberto Nemer (In: NAVES, Rodrigo (Org.). Artur Pereira: esculturas. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2009. p. 103), o artista conta sete irmãos, ele incluído, o que dá a entender que um deles morre cedo.

Exposições 16

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Feiras de arte 1

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Fontes de pesquisa 7

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  • DRÄNGER, Carlos (coord.). Pop Brasil: arte popular e o popular na arte. Curadoria Paulo Klein; tradução João Moris, Beatriz Karan Guimarães, Maurício Nogueira Silva. São Paulo: CCBB, 2002. SPccbb 2002/pb
  • ESTADO de Minas, Belo Horizonte, 28 jun. 2003. Pensar, p. 1. Não catalogada
  • FROTA, Lélia Coelho. Mitopoética de 9 artistas brasileiros: vida, verdade e obra. Rio de Janeiro: Funarte, 1978.
  • FROTA, Lélia Coelho. Pequeno dicionário da arte do povo brasileiro. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2005.
  • GULLAR, Ferreira (et. al). 150 anos de pintura no Brasil: 1820-1970. Rio de Janeiro: Colorama, 1989. R703.0981 P818d
  • NAVES, Rodrigo (Org.). Artur Pereira: esculturas. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2009.
  • PEREIRA, Artur. Artur Pereira. Texto Cesar Aché. Rio de Janeiro: Companhia Vale do Rio Doce, 1989. Folha dobrada.

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