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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Grandjean de Montigny

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 19.11.2014
15.07.1776 França / Ile de France / Paris
02.03.1850 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Reprodução fotográfica Pedro Oswaldo Cruz

Projeto de Chafariz para a Rua São Clemente
Grandjean de Montigny
Bico-de-pena e aquarela sobre papel, c.i.e.
26,80 cm x 40,80 cm

Auguste Henri Victor Grandjean de Montigny (Paris, França 1776 - Rio de Janeiro, RJ, 1850). Arquiteto, urbanista. Estuda na École d'Architetucture [Escola de Arquitetura] de Paris na época da Revolução Francesa (1789-1799). Em 1799, vence o Grand Prix de Rome, e ganha uma bolsa de estudo na Academia de França, em Roma, entre 1801 e 1805, período...

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Biografia
Auguste Henri Victor Grandjean de Montigny (Paris, França 1776 - Rio de Janeiro, RJ, 1850). Arquiteto, urbanista. Estuda na École d'Architetucture [Escola de Arquitetura] de Paris na época da Revolução Francesa (1789-1799). Em 1799, vence o Grand Prix de Rome, e ganha uma bolsa de estudo na Academia de França, em Roma, entre 1801 e 1805, período em que investiga a arquitetura da antiguidade e do Renascimento. Essa pesquisa contribui para a realização da obra Architecture Toscane, ou Palais, Maisons, et Autres Édifices de la Toscane composta de dezoito fascículos, publicados entre 1806 e 1815, em Paris, os doze primeiros em colaboração com o arquiteto Auguste Pierre Sainte Marie Famim. Realiza o projeto de restauro da futura sede da academia em Roma, a Villa Médici, recebendo por isso a autorização para retornar a Paris em 1805, um ano antes de concluir o curso.

Em 1807, por indicação do Institut de France e de seus professores Charles Percier e Pierre-François-Léonard Fontaine, arquitetos do imperador Napoleão Bonaparte, é convidado a trabalhar para o rei de Vestfália, Jerôme Bonaparte, irmão do imperador francês, para quem projeta um balneário, um teatro e uma residência em Kassel, Alemanha. Em 1815, após a a derrota de Napoleão, suas atividades como arquiteto da corte são interrompidas. Diante desse quadro adverso, aceita o pedido para integrar a Missão Artística Francesa que vem para o Brasil. Em agosto de 1816, é nomeado professor de arquitetura da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, designada em 1826 Academia Imperial de Belas Artes (Aiba), onde permanece até sua morte.

Em virtude das limitações materiais e técnicas da corte no Brasil, das agitações políticas que marcam o reinado de dom João VI e o império, das disputas entre os artistas franceses e portugueses pela direção da Aiba e, mais do que isso, por um ideal de arte e arquitetura,1 Montigny constrói efetivamente muito pouco no país. Das obras de arquitetura e urbanismo idealizadas no Rio de Janeiro destacam-se as decorações para eventos comemorativos da corte, os chafarizes, a Casa do Arquiteto, 1819/1828, atual Solar Grandjean de Montigny2, na Gávea; a Praça Monumental do Campo de Santana, 1827 (não construída); a Academia Imperial de Belas Artes, 1816/1826 (demolida) e o edifício da Praça do Comércio, 1819/1820 - atual Casa França-Brasil.3  

Em 1941, o arquiteto e historiador Adolfo Morales de los Rios Filho lança o livro Grandjean de Montigny e a Evolução da Arte Brasileira, obra de referência ainda hoje sobre a vida e obra de Montigny. Em 1980 e 2003 são realizadas duas exposições sobre o arquiteto, a primeira intitulada Uma Cidade em Questão I: Grandjean de Montigny e a Arquitetura do Rio de Janeiro, e a segunda, Grandjean de Montigny.

Comentário crítico
Grandjean de Montigny inaugura com a Academia Imperial de Belas Artes (Aiba) o ensino formal de arquitetura no Brasil, e é um dos principais responsáveis pela afirmação do neoclassicismo como a arquitetura oficial da corte no Rio de Janeiro.4 Formado pela École d'Architecture [Escola de Arquitetura] de Paris em plena Revolução Francesa (1789-1799), Montigny inicia a carreira profissional vinculado ao neoclassicismo do período napoleônico, sobretudo aquele seguido por seus professores Charles Percier e Pierre-François-Léonard Fontaine, arquitetos do imperador Napoleão Bonaparte. Dos projetos realizados na Europa merecem destaque - pelo que revelam de sua formação e de suas filiações artísticas - o projeto vencedor no Grand Prix de Rome, Eliseu ou Cemitério Público, de 1799, e o plano de Reunião do Louvre às Tulherias, apresentado em concurso público em 1810.

No Cemitério Público, Grandjean idealiza uma construção que se define em planta por um quadrado dividido por dois eixos perpendiculares cujo cruzamento coincide com o centro do espaço circular do edifício coberto por uma cúpula que lembra o Panteon de Roma. No concurso de 1810, o arquiteto enfrenta o problema da falta de paralelismo entre a ala oriental do Louvre e a fachada do Palácio das Tulherias com a introdução de um grande espaço oval entre eles, cujos pórticos principais coincidem, corrigindo a perspectiva e a discordância entre os eixos das duas edificações. Nesses projetos é visível a utilização de figuras geométricas regulares e de elementos ou edifícios da arquitetura greco-romana e renascentista que se tornam típicos da tradição clássica - como a coluna, o entablamento, o frontão, o arco pleno, a abóbada, a cúpula, o já citado Panteon, o Tempieto de Donato Bramante, ou a Vila Rotunda, de Andrea Palladio, por exemplo. Essas figuras e elementos, ordenados segundo os princípios de simetria e proporção, organizam os espaços internos e externos dos edifícios e definem seu caráter austero e monumental. São essas as características e os princípios gerais da arquitetura que Montigny traz para o Brasil, mas se vê obrigado a adaptá-los em face do traçado irregular da cidade do Rio de Janeiro, do clima tropical, das disponibilidades técnicas e materiais, da sociedade, dos costumes locais e das limitações econômicas da coroa.

O primeiro projeto realizado pelo arquiteto no Brasil, a Aiba, é prova dessas adaptações necessárias. Originalmente composta de um edifício central de três pavimentos e dois laterais simétricos de dois pavimentos, a Aiba é inaugurada em 1826, dez anos após o início da obra, com apenas o edifício central. A simetria dá caráter ao edifício formado pelo corpo central destacado com dois pavimentos, com arco pleno ladeado por colunas dóricas no primeiro pavimento e o segundo com colunas jônicas encimadas por um frontão com relevo - e duas alas laterais de um pavimento. O edifício é demolido em 1938, e o pórtico central é remontado no Jardim Botânico.

A Praça Belas Artes, 1848, idealizada para garantir a perspectiva clássica necessária ao edifício da Aiba, também leva anos para ser concluída. Seu desenho é definido por um semicírculo, ladeado por paredões ritmados por pilastras coroadas com vasos de mármore, que desemboca numa rua existente retificada para que seu eixo coincida com o eixo central da Aiba e garanta a monumentalidade desejada. Esse mesmo partido urbanístico é desenvolvido no projeto para o novo Palácio Imperial, do Rio de Janeiro, 1825/1826, que não chega a ser construído.

O edifício da Alfândega, 1819/1820, segue o mesmo esquema compositivo da Aiba e da maioria dos edifícios neoclássicos da capital, com um corpo central destacado e duas alas laterais simétricas. Seu projeto também é alterado durante a construção, as platibandas não são executadas e as janelas em arco pleno das alas laterais são substituídas por óculos. Internamente o projeto original, inspirado no espaço central abobadado cercado de pórticos dóricos das basílicas cívicas, romanas, é mantido.

Em sua casa na Gávea, 1819/1828, Montigny adota o modelo da Casa Bagatelle, 1777, do Conde D'Artois, já testado na Casa de Jerôme Bonaparte, em Kassel, Alemanha, porém com mais liberdade. Do conjunto de adaptações realizado pelo arquiteto, é notável no térreo o alargamento do vestíbulo que se torna um grande salão retangular, cuja importância se sobrepõe ao salão circular, normalmente ocupado com a sala de estar e aqui utilizado como sala de jantar, e a introdução de uma varanda que circunda o salão principal e é inspirada nas casas rurais ou engenhos da região fluminense. No andar superior a introdução da varanda elimina as antecâmaras e a possibilidade de construir os típicos apartamentos de mais de uma peça das casas francesas, colocando-se em seu lugar simples quartos de dormir. Outra especificidade é a construção da casa sobre um grande terraço em abóbodas, que a princípio resolve o problema do desnível do terreno, ainda que seja aventada a hipótese dele ser anterior a sua construção.5

Os projetos e as obras de Montigny têm impacto no Brasil dos oitocentos, mas é como professor de arquitetura da Aiba que deixa a sua marca, tanto no modo como a arquitetura é ensinada quanto na difusão dos preceitos acadêmicos e neoclássicos seguidos por discípulos, como José Maria Jacinto Rebelo.

 

Notas
1 Um dos episódios mais reveladores dessas disputas é a troca de cartas entre Grandjean de Montigny e o arquiteto português Pedro Alexandre Cavroé analisado pela historiadora da arquitetura Geovanna Rosso Del Brenna. Ver DEL BRENNA, Giovanna Rosso. Intenções de uma exposição. In: Uma cidade em questão I: Grandjean de Montigny e o Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: PUC: Funarte: Fundação Roberto Marinho, 1979. p. 15-16.
2 Sede do Centro Cultural da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC/RJ, o edifício é tombado pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - Sphan, atual Iphan, em outubro de 1938.
3 Imóvel também tombado pelo Sphan em maio de 1938.
4 Como bem aponta o historiador da arquitetura Gustavo Rocha-Peixoto, a emergência do neoclassicismo no Brasil é anterior à vinda da Missão Artística Francesa, remontando ao período pombalino e à atuação de engenheiros militares portugueses de formação acadêmica que aqui constroem os primeiros exemplares do estilo.  Ver ROCHA-PEIXOTO, Gustavo. Introdução ao neoclassicismo na arquitetura do Rio de Janeiro. In: CZAJKOWSKI, J. (org.). Guia da arquitetura colonial, neoclássica e romântica no Rio de Janeiro. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003. p.25-40.
5 TORRES, Mário H. G. A Casa Grandjean de Montigny na Gávea. In: Uma cidade em questão I: Grandjean de Montigny e o Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: PUC: Funarte: Fundação Roberto Marinho, 1979. p. 73-105.

Obras 20

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Exposições 14

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Fontes de pesquisa 7

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  • BANDEIRA, Julio; XEXÉO, Pedro Martins Caldas; CONDURU, Roberto. A Missão Francesa. Rio de Janeiro: Sextante Artes, 2003. 208 p., il. p&b. color.
  • GRANDJEAN de Montigny. In: Fundação Casa França-Brasil. Disponível em: [http://www.fcfb.rj.gov.br/conteudo/biograndjean.asp]. Acesso em: 30 de out. 2006.
  • LEMOS, Carlos Alberto Cerqueira. Arquitetura brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1979.
  • REIS FILHO, Nestor Goulart. Quadro da arquitetura no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1970. 214p. il p& b.
  • RIOS FILHO, Adolfo Morales de. Grandjean de Montingy e a evolução da arte brasileira. Rio de Janeiro: Empresa A Noite, 1941. 158p. il color.
  • ROCHA-PEIXOTO, Gustavo. Introdução ao neoclassicismo na arquitetura do Rio de Janeiro. In: CZAJKOWSKI, J. (org.). Guia da arquitetura colonial, neoclássica e romântica no Rio de Janeiro. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003, pp.25 - 40.
  • UMA CIDADE EM QUESTÃO I: Grandjean de Montigny e o Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: PUC: Funarte: Fundação Roberto Marinho, 1979.

Como citar

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