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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Maureen Bisilliat

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.02.2021
16.02.1931 Reino Unido / Inglaterra / Englefield Green

Cenas do Dia-a-Dia, 1970
Maureen Bisilliat
Acervo Instituto Moreira Salles

Sheila Maureen Bisilliat (Englefield Green, Inglaterra, 1931). Fotógrafa. Encontra no Brasil o lugar para fixar suas raízes e nele descobre realidades diversas escondidas nos interiores e sertões. Interessada nesse mundo, passa a desbravá-lo, registrando-o por meio da fotografia. A veia poética de seu trabalho se caracteriza não só por retratar ...

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Sheila Maureen Bisilliat (Englefield Green, Inglaterra, 1931). Fotógrafa. Encontra no Brasil o lugar para fixar suas raízes e nele descobre realidades diversas escondidas nos interiores e sertões. Interessada nesse mundo, passa a desbravá-lo, registrando-o por meio da fotografia. A veia poética de seu trabalho se caracteriza não só por retratar essas cenas, mas principalmente por mostrar a beleza que há nelas, destacando-se pela singularidade com que funde ficção e realidade em suas fotografias.

Filha de uma pintora irlandesa e de um diplomata argentino, Maureen passa por diferentes lugares ao longo de sua vida por causa do trabalho do pai. Estuda pintura em Paris e Nova York antes de se fixar definitivamente no Brasil em 1957, na cidade de São Paulo. Troca a pintura pela fotografia no início dos anos 1960, e trabalha na Editora Abril entre 1964 e 1972, na revista Realidade

É como fotógrafa que se consagra no Brasil. Em sua trajetória, a técnica de cada vez mais procurar maneiras de combinar textos literários e imagens se insere em seus projetos. A partir da década de 1960, fotografa o Brasil relatado (e imaginado) na obra de escritores consagrados, entre eles Guimarães Rosa (1908-1967), Euclides da Cunha (1866-1909) e João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Nos livros que resultam desse projeto fotográfico-literário, as legendas das fotos são substituídas por trechos das obras, o que indica a preocupação de Bisilliat em fazer da fotografia uma espécie de elemento narrativo, cujo tema às vezes sugere sequência, história e ritmo. 

O primeiro trabalho desse projeto é A João Guimarães Rosa (1966). Depois de ler Grande Sertão: Veredas (1956), a fotógrafa viaja, por sugestão do próprio Guimarães Rosa1, em busca dos cenários onde se passa a obra, a fim de "testemunhar esse mundo". O resultado combina trechos de Grande Sertão com imagens da fotógrafa. O livro, além de traçar paralelos entre escrita e fotografia, é quase uma releitura poético-visual da obra de Guimarães Rosa. 

Na fotografia que ilustra a frase "Eu sou donde eu nasci. Sou de outros lugares", por exemplo, Bisilliat praticamente cria um personagem novo para o livro, um senhor taciturno, de olhar rígido, de pé no limite entre ficção e realidade. Esse limite, vale lembrar, é um dos fatores que atraem Bisilliat à obra de Guimarães Rosa: para descobrir o que é real no livro, ela, paradoxalmente, captura imagens que não se decidem entre a ficção e a realidade. Mesmo numa cena típica, como um peão dirigindo uma boiada, a imagem parece falar mais de literatura do que do mundo real. Mesmo com legendas de cunho jornalístico, o ensaio fotográfico é mais poético do que de reportagem. 

O interesse de Bisilliat em registrar os sertões e o Nordeste do país aparece também em sua atuação enquanto fotojornalista, como no ensaio Caranguejeiras (1968). Em um mangue de Pernambuco, registra o trabalho das coletoras de caranguejos, que mergulham na lama, com barro da cabeça aos pés. Longe de fazer uma denúncia das duras condições de vida das caranguejeiras, Bisilliat mostra seus gestos e movimentos nas fotos como uma espécie de dança. Ora parece que a vertente de pintora influencia a fotógrafa, ora parece justamente o contrário. 

Mesmo depois de abandonar o fotojornalismo, a preocupação em registrar e, por vezes, resgatar um Brasil "desconhecido", continua norteando boa parte de sua obra. Na década de 1970, Bisilliat produz uma série de registros das frequentes viagens que passa a fazer ao Parque Indígena do Xingu, a convite dos sertanistas Orlando Villas-Bôas (1914-2002) e Cláudio Villas-Bôas (1916-1998). Um dos resultados dessas viagens é o livro Xingu Território Tribal, publicado em 1979, com textos dos irmãos sertanistas. Outro resultado é o documentário de longa-metragem Xingu/Terra (1982), rodado com o diretor de fotografia Lúcio Kodato (1947) na aldeia mehinaku, no Alto Xingu, em que retrata os hábitos dos indígenas da região. Com essa experiência, Bisilliat encontra no vídeo uma nova forma de se expressar e passa a se dedicar a ela, imprimindo em seus documentários algo da força poética de sua obra fotográfica. 

Expõe em sala especial na 18ª Bienal Internacional de São Paulo (1985) um ensaio fotográfico inspirado no livro O Turista Aprendiz, do escritor Mário de Andrade (1893-1945). Em 1988, é convidada pelo antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), com Jacques Bisilliat e Antônio Marcos Silva (seu sócio), a levantar um acervo de arte popular latino-americano para a Fundação Memorial da América Latina. Viaja com Jacques para o México, Guatemala, Equador, Peru e Paraguai para recolher peças para a coleção permanente do Pavilhão da Criatividade, dirigido por ela de 1989 a 2010.

Em 2003, o Instituto Moreira Salles adquire o acervo da fotógrafa e, anos depois, publica o livro Fotografias: Maureen Bisilliat (2009), contendo 12 ensaios fotográficos, além de textos que contam um pouco de sua biografia. Em 2020, é lançado o longa documental Equivalências – Aprender Vivendo, outra importante referência para conhecer a vida e a obra da fotógrafa.

Figura importante para a arte da fotografia, Maureen Bisilliat retrata a aspereza de cenas e lugares de um Brasil desconhecido, mas com um olhar generoso, revelando a beleza do improvável e a poesia da vida real. Através de suas lentes, podemos, tal como um estrangeiro, conhecer o Brasil e ao mesmo tempo imaginá-lo, admirando o que há de mais extraordinário nele.  

Nota:

1. MENGOZZI, Federico. Brasilidade. Conversa com Maureen Bisilliat. Nossa América, Revista Memorial da América Latina, nº 21, 2004. Disponível em:  http://www.memorial.sp.gov.br/memorial/revistaNossaAmerica/21/port/64-brasilidade.htm.

Obras 32

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Exposições 54

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Mídias (1)

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Maureen Bisilliat - Encontros - 1993
Direção Adilson Ribeiro/Itaú Cultural

Fontes de pesquisa 10

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  • BRIL, Stefania. Leitura fotográfica do Turista Aprendiz. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 06 out. 1985. Não Cadastrado
  • CARBONCINI, Anna (coord.). Coleção Pirelli / MASP de Fotografias: v. 1. Versão em inglês Kevin M. Benson Mundy. São Paulo: Masp, 1991.
  • CARBONCINI, Anna (coord.). Coleção Pirelli / MASP de Fotografias: v. 1. Versão em inglês Kevin M. Benson Mundy. São Paulo: Masp, 1991. SPmasp cpirelli 1991
  • E AGORA, Maureen está gravando a luz mineira de Guimarães Rosa. Novidades Fotoptica, São Paulo, ano 14, n. 40, p. 18, jul. 1970. Não Cadastrado
  • MAUREEN Bisilliat. Novidades Fotoptica, São Paulo, n. 88, p. 22, 1978. Não Cadastrado
  • MAUREEN Bisilliat. Revista de Fotografia, São Paulo, ano 1, n. 8, p. 50, jan. 1972. Não Cadastrado
  • MENDONÇA, Casimiro Xavier de. Maureen. Jornal da Tarde, São Paulo, 15 jul. 1978. p. 30. Não Cadastrado
  • MENGOZZI, Federico. Brasilidade. Conversa com Maureen Bisilliat. Nossa América, Revista Memorial da América Latina, nº 21, 2004. Disponível em: [http://www.memorial.sp.gov.br/memorial/revistaNossaAmerica/21/port/64-brasilidade.htm]. Acesso em: março 2006.
  • Programa do Espetáculo - A Hora e a Vez de Augusto Matraga - 2004. Não catalogado
  • RIBEIRO, Leo Gilson. No mangue com dignidade. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 05 dez. 1984. Não Cadastrado

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