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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Maria Martins

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 16.06.2022
07.08.1894 Brasil / Minas Gerais / Campanha
27.03.1973 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Prometeu, 1948
Maria Martins
Bronze
Coleção Geneviève e Jean Boghici

Maria de Lourdes Martins Pereira de Souza (Campanha, Minas Gerais, 1894 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1973). Escultora, desenhista, gravadora, escritora. Com poética extremamente individualizada, apresenta-se como figura singular na história da arte moderna brasileira.

Texto

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Maria de Lourdes Martins Pereira de Souza (Campanha, Minas Gerais, 1894 - Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1973). Escultora, desenhista, gravadora, escritora. Com poética extremamente individualizada, apresenta-se como figura singular na história da arte moderna brasileira.

Desenvolve grande parte de sua carreira no exterior em virtude das atividades do marido, o embaixador Carlos Martins (1884-1965). Inicia-se na escultura em 1926 e aperfeiçoa-se com o escultor belga Oscar Jespers (1887-1970). Em 1939, muda-se para os Estados Unidos; inicialmente para Washington e, depois, para Nova York, onde estuda escultura com Jacques Lipchitz (1891-1973), realizando trabalhos em bronze. Em 1941, faz sua primeira exposição individual, na Corcoran Art Gallery, em Nova York, onde apresenta esculturas figurativas realistas com temas retirados da cultura brasileira ou temas religiosos, produzidos em materiais diversos (gesso, madeira, terracota e bronze). No mesmo ano, estabelece ateliê em Nova York. Nesse momento, a cidade vive clima de efervescência artística em virtude da emigração de vários artistas europeus que ali se estabelecem para fugir da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Tal vivência provavelmente leva a artista a absorver novos conteúdos, incorporando elementos surrealistas ao seu trabalho.

A mudança torna-se visível em sua segunda exposição individual, em 1942, na Galeria Valentine, na qual apresenta formas oníricas de inspiração surreal realizadas em bronze. Por causa dessa mostra, conhece expoentes do surrealismo, como o crítico e escritor francês André Breton (1896-1966), o pintor francês Marcel Duchamp (1887-1968)1 e o artista alemão Max Ernst (1891-1976). Sua segunda exposição na galeria nova-iorquina, em 1943, Amazônia, é um verdadeiro sucesso2. A artista continua a trabalhar com temas advindos de tradições e mitos brasileiros, e a referência à natureza passa a ser feita como símbolo da potência do selvagem e do desejo, em contraposição à natureza dominada da civilização ocidental. Com bronze, cria formas orgânicas cada vez mais livres de qualquer figuração realista, utilizando títulos sugestivos, procedimento característico de outros artistas surrealistas. 

Na obra Impossível (1944), que ganha várias versões de bronze, uma delas adquirida pelo Museu de Arte Moderna  (MoMA) de Nova York, em 1946, seres híbridos (homem e mulher com aspecto de animais ancestrais) são colocados frente a frente, sugerindo uma situação de desejo profundo, mas também de agressividade e morte, sugerindo os limites da união plena entre os seres3. Nesse sentido, certos animais, como a cobra e a aranha, saem do universo mitológico das lendas amazônicas para encarnar símbolos relacionados à vivência da artista. 

Em 1947, André Breton assina o prefácio do catálogo de sua mostra individual, realizada na Julien Lery Gallery. A ênfase na força do selvagem e do desejo encanta Breton, que escreve: "Maria, e atrás dela – quer dizer, nela – o Brasil maravilhoso onde sobre os mais vastos espaços ... paira ainda a asa do irrevelado. [...] Ela não deve nada à escultura do passado ou do presente"4. A partir desse período, Maria Martins participa de grandes mostras do surrealismo, como a organizada, em 1947, em Paris pelo escritor francês.

Em 1948, muda-se para Paris, onde seu ateliê se torna local de encontro de intelectuais e artistas. Volta definitivamente ao Brasil em 1950. Ajuda na organização da I Bienal Internacional de São Paulo, da qual participa como artista convidada. Contudo, sua poética surrealista não é bem recebida no meio artístico brasileiro da primeira metade dos anos 1950, dominado pelas questões do construtivismo e da arte abstrata.

Sua última exposição individual transcorre em 1956, no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, instituição que ajuda a fundar. Pelo que se observa do catálogo da mostra, essa se dá em clima de hostilidade, pois Maria Martins publica texto que defende a liberdade de expressão do artista5. No entanto, críticos importantes escrevem sobre seu trabalho, como Mário Pedrosa (1900-1981) e Murilo Mendes (1901-1975).  Como escritora, assina coluna no Correio da Manhã e publica, entre outros livros, A Índia e o Mundo Novo, A Ásia Maior e o Planeta China.

Com uma carreira nacional e internacional sólida, Maria Martins se inscreve como um nome de referência da arte brasileira.
 
Notas
1. A artista mantém intenso relacionamento amoroso com o artista francês. Cf: CANTON, Kátia. Maria Martins: a mulher perdeu sua sombra. In: BIENAL INTERNACIONAL DE SÃO PAULO, 24, 1998, São Paulo, SP. Núcleo histórico: antropofagia e histórias de canibalismos. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1998. p. 288. 

2. Nessa ocasião, Maria Martins dividiu o espaço da galeria com o  amigo holandês Piet Mondrian (1872-1944). Enquanto a brasileira consegue vender quase todas as obras, a exposição de Mondrian da série New York foi um fracasso. No fim da mostra, a artista decide comprar do amigo a tela Broadway Boogie-Woogie, que doa ao MoMA, de Nova York.

3. Sobre a obra a artista afirmou: "O mundo é complicado e triste, é quase impossível que as pessoas se compreendam".

4. O texto "Maria" foi escrito para o catálogo da exposição da artista na Galeria Julian Lévy, em Nova York (1947), e posteriormente republicado no livro de Breton Le Surréalisme et la Peinture.

5. Nesse catálogo são publicados também textos de André Breton, Benjamin Péret (1899-1959) e Murilo Mendes. Citações de Marcel Duchamp e Rainer Maria Rilke (1875-1926) falam da liberdade do artista e sua relação de hostilidade com a crítica.

 

Obras 17

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Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Glebe-ailes

Bronze
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

However

Bronze polido e patinado
Reprodução fotográfica João L. Musa/Itaú Cultural

Impossible

Gravura em metal

Exposições 132

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Feiras de arte 2

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Fontes de pesquisa 22

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  • 150 anos de pintura no Brasil: 1820-1970. Rio de Janeiro: Colorama, 1989.
  • AMARAL, Aracy (org.). Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo: perfil de um acervo. Texto Aracy Amaral, Sônia Salzstein. São Paulo: Techint Engenharia, 1988. 391 p., il.color.
  • ARTE moderna brasileira: uma seleção da coleção Roberto Marinho. Tradução Stephen Berg. São Paulo: MASP, 1994.
  • ARTE moderna brasileira: uma seleção da coleção Roberto Marinho. Tradução Stephen Berg. São Paulo: MASP, 1994.
  • BARROS, Darcy (Org.). A arte do imaginário. Curadoria Sérgio Lima. São Paulo: Galeria Encontro das Artes, 1985. SPgea 1985
  • BIENAL BRASIL SÉCULO XX, 1994, São Paulo, SP. Bienal Brasil Século XX: catálogo. Curadoria Nelson Aguilar, José Roberto Teixeira Leite, Annateresa Fabris, Tadeu Chiarelli, Maria Alice Milliet, Walter Zanini, Cacilda Teixeira da Costa, Agnaldo Farias. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1994.
  • BIENAL INTERNACIONAL DE SÃO PAULO, 15., 1979, São Paulo, SP. 15ª Bienal Internacional de São Paulo. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1979. Disponível em: http://www.bienal.org.br/publicacoes/7049.
  • BRASIL Europa: encontros no século XX. Curadoria Marc Pottier, Jean Boghici. Brasília: Caixa Cultural, 2000.
  • BRETON, André. Maria Martins. A Phala - Revista do Movimento Surrealismo. v. 1. , p. 112-113.
  • BRETON, André. Maria. In: Le Surréalisme et la peinture. Paris: Gallimard, 1979.
  • CALLADO, Ana Arruda. Maria Martins: uma biografia. Belo Horizonte: CEMIG, 2004.
  • CANTON, Katia. Maria Martins: mistério das formas. São Paulo: Paulinas, 1997. 11 p., il. color. (Lua Nova. Série Olharte).
  • CANTON, Kátia. Maria Martins: a mulher perdeu sua sombra. In: BIENAL INTERNACIONAL DE SÃO PAULO, 24. , 1998, São Paulo. Núcleo histórico: antropofagia e histórias de canibalismos. Curadoria Paulo Herkenhoff, Adriano Pedrosa. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1998. p.288-294.
  • IMAGINÁRIOS singulares. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1987. 136 p., il.p&b.
  • JORGE Eduardo: aquarelas do Brasil; Maria Martins: Les sculptures surréalistes des années 40. Rio de Janeiro: Galeria Jean Boghici, 1999. 1 folha dobrada, il. p&b. color.
  • MARTINS, Maria. Maria Martins. São Paulo: Fundação Maria Luisa e Oscar Americano, 1997.
  • MARTINS, Maria. Maria. Rio de Janeiro: MAM, 1956. [24] p., il. p&b.
  • PERFIL da Coleção Itaú. Curadoria Stella Teixeira de Barros. São Paulo: Itaú Cultural, 1998.
  • SANTANA FILHO, Élcior Ferreira de (coord.); FILUS, Cláudio (coord.). Escultura Brasileira: perfil de uma identidade. Curadoria Emanoel Araújo, Sérgio Pizoli; tradução David Coles, Eloisa Marques, Daril Collard. São Paulo: Imprensa Oficial, 1997.
  • SURREALISMO. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 2001. 267 p., il. color.
  • TRIDIMENSIONALIDADE: arte brasileira do século XX. São Paulo: Itaú Cultural: Cosac & Naify, 1999.
  • ZANINI, Walter (org.). História geral da arte no Brasil. São Paulo: Fundação Djalma Guimarães: Instituto Walther Moreira Salles, 1983. v. 1.

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