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Música

Juçara Marçal

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 06.08.2020
27.01.1962 Brasil / Rio de Janeiro / Duque de Caxias
Juçara Marçal Nunes (Duque de Caxias, Rio de Janeiro, 1962). Cantora, pesquisadora musical, compositora e professora. Aos 10 anos, muda-se com a família para São Paulo. Estuda jornalismo e letras na Universidade de São Paulo (USP) antes de se dedicar à música. Depois de cantar em diversos corais amadores, como o Coralusp Meio Dia, Coral da Faap ...

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Biografia

Juçara Marçal Nunes (Duque de Caxias, Rio de Janeiro, 1962). Cantora, pesquisadora musical, compositora e professora. Aos 10 anos, muda-se com a família para São Paulo. Estuda jornalismo e letras na Universidade de São Paulo (USP) antes de se dedicar à música. Depois de cantar em diversos corais amadores, como o Coralusp Meio Dia, Coral da Faap e Som a Pino, integra, profissionalmente, o coro cênico da Companhia Coral, dirigido por Samuel Kerr(1935) e Willian Pereira (1962). Em 1991, ingressa no quinteto vocal feminino Vésper, voltado para a interpretação de música brasileira a capela. Ao longo de mais de 20 anos, o grupo grava discos como: Flor d’Elis (1998), com o repertório de Elis Regina (1945-1982), 180 Anos de SambaCantando Adoniran e Noel (2002) e Ser tão Paulista (2004).

Em 1998, integra o grupo A Barca, que pesquisa a cultura popular brasileira com base nas ideias de Mário de Andrade (1893-1945), produzindo os discos Turista Aprendiz (2000) e Baião de Princesas (2002). Entre 2004 e 2005, o grupo viaja por nove estados brasileiros, com estudos reunidos nas coletâneas audiovisuais Trilha, Toada e Trupe (2006) e Coleção Turista Aprendiz (2007).

Nos anos 2000, explora a cultura afro-brasileira com o compositor e guitarrista Kiko Dinucci (1977). Juntos, gravam o disco Padê (2007) e, aliados ao saxofonista Thiago França (1980), formam o Metá Metá.1 Com o trio, realiza turnês na Europa e grava Metá Metá (2011), Metal Metal (2012) e MM3 (2016).

Em 2014, lança o primeiro disco solo, Encarnado, disponibilizado para download gratuito na internet. Eleito um dos 10 melhores discos de 2014 pelo jornal O Globo, o álbum vence o Prêmio Multishow na categoria Música Compartilhada.

Em 2015, grava com Cadu Tenório o álbum Anganga, baseado nos vissungos2 recolhidos nos anos 1920 pelo filólogo e pesquisador Aires da Mata Machado Filho (1909-1985) em São João da Chapada. Trata-se de uma comunidade afrodescendente localizada em Diamantina, Minas Gerais. O disco, cujo título remete à entidade suprema do povo banto (“Anganga Nzambi”), traz também congados mineiros e composições inéditas de Tenório.

Marçal participa de coletâneas como Afrobrasilidades 78RPM e Capiba – Elas e Outras Canções e álbuns de outros músicos. Entre eles, Sem Destino (2010) com Luiz Tatit (1951), Bahia Fantástica (2012) com Rodrigo Campos (1977), Eslavosamba (2013) com Cacá Machado (1972), O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013) com Emicida (1986) e Convoque seu Buda (2014) com Criolo (1975).

Além de cantora, Juçara Marçal é mestre em Letras pela Universidade de São Paulo, com pesquisa sobre as memórias de Pedro Nava, tendo atuado como professora universitária de português e canto até 2015.

Análise

Juçara Marçal faz parte de um grupo de músicos paulistanos que, desde os anos 2000, vem atualizando a cena musical independente, iniciada com a chamada Vanguarda Paulista nos anos 1980. Dele fazem parte nomes como Kiko Dinucci (o parceiro mais constante da cantora), Rodrigo Campos, Romulo Fróes (1971), Tulipa Ruiz (1978), Cacá Machado e Marcelo Jeneci (1982), que  trabalham de forma colaborativa. Divulgam suas obras por meio da internet, sem apoio da imprensa ou das majors, não ligam para a celebridade nem se preocupam em criar hits ou canções facilmente memorizáveis. Produzem shows e álbuns de cunho autoral.

A despreocupação com o mercado já aparece nos primeiros trabalhos de Juçara Marçal, com o Vésper, que resgata clássicos da MPB com arranjos pouco usuais, e com A Barca, voltada para a pesquisa da música tradicional. Com Kiko Dinucci a cantora explora de modo mais intenso a música “não convencional”, unindo a ancestralidade das batidas de candomblé à sofisticação de arranjos que integram voz, violão e percussão.

Com o Metá Metá, canta de forma mais agressiva, sobretudo no segundo álbum, Metal Metal, em que o grupo explora sonoridades da música africana, do free jazz, punk rock e da música experimental. Já em MM3, o grupo flerta com a música do Marrocos, Etiópia, Níger e Mali, explorando a improvisação e buscando o transe característico da música de raízes africanas.

O experimentalismo do trio influencia a produção de Encarnado, o mais visceral dos discos de Juçara. Contando apenas com voz e cordas, sem baixo nem percussão, todas as faixas do álbum permanecem no registro médio/agudo, o que cria uma atmosfera agressiva, reforçada por arranjos repletos de ruídos e experimentações sonoras. Canções como “Velho Amarelo”, de Rodrigo Campos, “Ciranda do Aborto”, de Kiko Dinucci, e “A Velha da Capa Preta”, de Siba (1969),  trazem à tona diversas facetas da morte. O “encarnado” do título remete à corporificação da alma, a visceralidade do corpo e efemeridade da vida.

Buscando “arrancar a beleza da sujeira”, como define seu trabalho de intérprete, Juçara Marçal não restringe o canto à perfeição melódica ou ao rigor técnico. Expressa os conteúdos poéticos das letras, atentando para cada palavra e sua relação com a melodia, numa clara influência dos músicos paulistas, especialmente Itamar Assumpção (1949-2003) e Luiz Tatit. Às vezes, beira o canto falado, como se ouve em “A Velha da Capa Preta”. É uma das intérpretes mais expressivas da cena musical brasileira contemporânea.

Notas

1. Termo iorubá que remete a três elementos sintetizados em um.

2. Cantos de trabalho em dialeto banto.

Espetáculos 4

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