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Música

João do Vale

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 08.07.2021
11.10.1934 Brasil / Maranhão / Pedreiras
06.12.1996 Brasil / Maranhão / São Luís
João Batista do Vale (Pedreiras, Maranhão, 1934 - São Luís, Maranhão, 1996). Cantor  e compositor. Em 1947, vai com a família morar em São Luís e lá integra o Linda Noite, grupo de bumba meu boi,1 para o qual compõe versos. Por gostar de cantar e dançar recebe o apelido de Pé de Xote. Dois anos depois viaja para o Sudeste do país em um pau de ar...

Texto

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João Batista do Vale (Pedreiras, Maranhão, 1934 - São Luís, Maranhão, 1996). Cantor  e compositor. Em 1947, vai com a família morar em São Luís e lá integra o Linda Noite, grupo de bumba meu boi,1 para o qual compõe versos. Por gostar de cantar e dançar recebe o apelido de Pé de Xote. Dois anos depois viaja para o Sudeste do país em um pau de arara (transporte irregular feito em caminhões adaptados para levar passageiros) e pedindo carona. No longo trajeto, para em diversas cidades e desempenha as mais variadas tarefas, como pedreiro, ajudante de caminhão, artista de circo e garimpeiro.

Chega ao Rio de Janeiro, em 1950, onde consegue emprego em uma obra no bairro de Copacabana, zona sul da cidade. Com algumas composições, a maioria baiões, começa a frequentar programas de rádio e mostrar suas músicas a outros artistas. O sanfoneiro Zé Gonzaga, irmão de Luiz Gonzaga, grava sua canção Madalena (1953). Com o cantor Luís Vieira compõe Estrela Miúda, gravada por Marlene em 1953. João do Vale ainda está trabalhando como pedreiro no Rio de Janeiro quando esta música começa a tocar no rádio. Por ser menor de idade, tem dificuldade para receber os primeiros direitos autorais. Os duzentos mil réis parecem uma fortuna para quem ganha cinco mil réis mensais na construção.

Na Asa do Vento (parceria com Luis Vieira), gravada em 1956 por Dolores Duran (1930-1959), torna João do Vale compositor em tempo integral. Astros do rádio, como Ivon Cury e Jackson do Pandeiro, gravam suas músicas. No Nordeste, Marinês registra discos inteiros somente com suas composições. Entre suas canções mais conhecidas estão Peba na Pimenta (com José Batista e Adelino Rivera), gravada por Ari Toledo, e O Canto da Ema (c/ Aires Viana e Alventino Cavalcante), gravada com sucesso por Jackson do Pandeiro. Luiz Gonzaga passa a gravar suas músicas. A associação com o rei do baião rende algumas parcerias mas, por problemas contratuais, Luiz Gonzaga nem sempre aparece nos créditos, substituído por sua mulher, Helena - o que não o impede de gravar as músicas.

João do Vale assume que vende várias de suas composições para ajudar no orçamento - só que nunca nomeia os compradores. Não é de se estranhar nomes desconhecidos entre seus parceiros, já que entre eles há de garçons a bicheiros.

Em 1954, participa como figurante do filme Mãos Sangrentas, dirigido por Carlos Hugo Christensen (1914-1999), e conhece o então assistente de direção Roberto Farias (1932), que mais tarde, como diretor, o chama para compor as trilhas sonoras de alguns de seus filmes, como No Mundo da Lua (1958). Na década de 1960, convidado pelo sambista Cartola (1908-1980), faz show no restaurante Zicartola, onde conhece Oduvaldo Viana Filho (1936-1964), Paulo Pontes (1940-1976), Ferreira Gullar (1930), Augusto Boal (1931-2009) e Armando Costa (1933-1984). Do encontro nasce a ideia do show Opinião (1964), primeiro espetáculo contestador da época do regime militar. O musical estreia no teatro de um shopping center de Copacabana, com direção de Oduvaldo Vianna Filho e com elenco composto de Nara Leão (1942-1989), Zé Kéti (1921-1999) e João do Vale, entre outros. É de sua autoria um dos maiores sucessos do repertório da peça, Carcará (parceria com José Cândido), composição que, mais tarde, é a música de lançamento da carreira de Maria Bethânia (1946), que substitui Nara Leão no espetáculo. A repercussão de Carcará é tão grande que, em 1965, é convidado a gravar seu primeiro disco, O Poeta do Povo.

Em 1969, compõe a trilha do filme Meu Nome É Lampião, de Mozael Silveira. Depois de quase alguns anos de ausência do meio artístico, participa, em 1975, da remontagem do show Opinião, no Rio de Janeiro. Somente em 1982 lança seu segundo disco, em parceria com Chico Buarque (1944), que pouco antes havia produzido o LP João do Vale Convida, com participações de Nara Leão, Fagner, Alceu Valença, Zé Ramalho, Tom Jobim, Amelinha, Clara Nunes, Hermeto Pascoal, Jackson do Pandeiro e Gonzaguinha, além do próprio Chico, que em 1994 volta a reverenciar o amigo reunindo artistas para gravar o disco João Batista do Vale, vencedor do Prêmio Sharp de Melhor Disco Regional.

João do Vale vive no Rio de Janeiro por mais de 30 anos, mas nunca abandona o universo do sertão, mesclando com maestria o samba carioca com o baião nordestino. Apesar de uma obra com mais de duzentas canções registradas em seu nome (fora as outras tantas que vende), morre quase tão pobre quanto na época em que foge de casa, em 1949.

Análise
O interior do Maranhão marca de forma definitiva a vida de João do Vale desde cedo, quando o neto de escravos não consegue vaga na escola municipal e é retirado da classe para dar lugar ao filho de um “poderoso”, episódio marcante da sua vida. Mas é da lição que a escola formal não lhe ensina que tira a consciência para anos mais tarde denunciar os problemas sociais em suas músicas. João do Vale é poeta singular, apesar de semi-analfabeto, que transmite profundo conhecimento da alma sertaneja em suas letras. Sua música possui um forte discurso social, político e preocupado com a questão racial. Em Minha História (com Raimundo Evangelista) aborda desde sua origem humilde até o sucesso como artista, mas, em vez de celebrar sua glória, termina denunciando:

Mas o negócio não é bem eu
É Mane, Pedro e Romão
Que também foi meu colega
E continuam no sertão
Não puderam estudar
Nem sabe fazer baião”.

Mesmo tendo gravado apenas dois álbuns individuais, João do Vale é considerado, na época, um dos três mais representativos compositores da chamada música nordestina, ao lado de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Enquanto a maioria dos compositores explora apenas o drama da seca, João do Vale fala das desigualdades sociais e é o primeiro a abordar o tema reforma agrária:

"É só me dar terra pra ver como é que é
Planto arroz, feijão e café
Eu sou bom lavrador, mas plantar para dividir
Não faço isso mais não"

(Sina de Caboclo, parceria com Jocastro Bezerra de Aquino).

O compositor estreia nos palcos em 1963, como uma das atrações do Zicartola, lendário botequim/restaurante de Cartola e Dona Zica, frequentado por músicos e intelectuais. Vira ídolo da esquerda e é convidado pelo Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE) a estrelar o musical Opinião, espetáculo inspirado nas apresentações que aconteciam no Zicartola, com Zé Kéti e Nara Leão. Entre as canções do repertório do show, Carcará, é uma perspicaz observação da vida nordestina que João do Vale conhece bem. Carcará é um tipo de gavião que supera as limitações da sobrevivência porque, ao sentir fome, “pega, mata e come”, como diz a letra, e simboliza o ideal de liberdade da época. Lançada por Nara Leão, a música acaba consagrando a estreante Maria Bethânia, que a inclui em seu repertório. Com o acirramento do regime militar, João do Vale é perseguido, censurado e volta para Pedreiras.

Depois da estada forçada em sua cidade natal, vai morar na periferia carioca, em Rosa dos Ventos, Nova Iguaçu e, nos anos 1980, consegue reaver um pouco do prestígio, mesmo assim restrito ao Rio de Janeiro e entre os frequentadores do Forró Forrado, no Catete, onde é a atração semanal, sempre com convidados ilustres: de Mercedes Sosa a Chico Buarque. Mesmo com sua forte ligação com os artistas e intelectuais da época, João do Vale é dos poucos que consegue unir tanto a esquerda quanto a direita em torno de sua obra. Seus admiradores declarados vão do político Carlos Lacerda ao dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho. A sensibilidade de seus versos o afasta do discurso meramente ideológico, traz para suas composições a realidade que conhece bem: a do trabalhador rural e nordestino.

Nota

1. Estilo de dança do folclore brasileiro, com personagens humanos e animais fantásticos que gira em torno da morte e ressurreição de um boi.

Espetáculos 2

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Fontes de pesquisa 4

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  • ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed., rev. ampl. Organização Marcos Antônio Marcondes. São Paulo: Art Editora, 1998. R780.981 M321e 2.ed.
  • PASCHOAL, Marcio. Pisa na fulô mas não maltrata o carcará: vida e obra do compositor João do Vale, o poeta do povo. Rio de Janeiro: Lumiar Ed., 2000.
  • SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras (vol. 2: 1958-1985). São Paulo: Editora 34, 1998. (Coleção Ouvido Musical).
  • TBC apresenta Arena-Opinião. São Paulo: TBC, 1965. 1 programa do espetáculo realizado no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Não catalogado

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