Artigo da seção pessoas Ricardo Kanji

Ricardo Kanji

Artigo da seção pessoas
 

Ricardo Kanji (São Paulo, São Paulo, 1948). Flautista, concertista, regente, pedagogo e construtor de flautas. Inicia-se no piano aos 7 anos com Tatiana Braunwieser. Aos 11 anos, prossegue os estudos com Lavinia Viotti, que lhe apresenta a flauta-doce e desperta no jovem o interesse pela música barroca. Aos 15 anos, estuda flauta transversal moderna com João Dias Carrasqueira (1908-2000), integrando a Orquestras Filarmônica e a Sinfônica de São Paulo. Nos três anos que ali permanece, aprofunda seus conhecimentos sobre o repertório clássico e romântico. 

Em 1966, parte para os Estados Unidos e Canadá, onde conhece o flautista holandês Frans Brüggen (1934-2014). De volta ao Brasil, funda o conjunto Musikantiga, gravando o primeiro LP em 1968. Nesse mesmo ano, recebe uma bolsa para estudar flauta transversal na Peabody Institute of Music, em Baltimore. O desejo de se aprofundar no estudo da música barroca faz com que abandone o curso nos Estados Unidos e parta para a Holanda para estudar com Brüggen e Frans Vester (1922-1987), no Conservatório Real de Haia. Realiza em dois anos o curso de duração prevista de seis anos. Em 1972, obtém o solist diploma e é premiado no 1° Concurso Internacional de Flauta-Doce de Bruges. Nesse momento, ocupa o cargo de professor no Conservatório até 1995. Participa de diversos ensembles e orquestras de música antiga, como o Leonhardt Consort. Torna-se membro fundador e regente da Orquestra Barroca do Conservatório de Haia, do ensemble Philidor e da Orquestra do Século XVIII (sob direção de Brüggen). Entre 1991 e 1996, assume a direção artística da Orquestra Concerto Amsterdam. 

Em 1995, volta para o Brasil e dedica-se à interpretação da música brasileira (séculos XVIII e XIX). Desenvolve diversos projetos, como o de gravações fonográficas sobre a história da música do Brasil. Neste trabalho, rege o ensemble Vox Brasiliensis, pelo qual recebe o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (Apca) em 1999. Atua como concertista e regente no Brasil e exterior, com grupos como o Coro e Orquestra da Ópera de Cracóvia e o Coro e Orquestra Gulbenkian. Entre 2002 e 2011, desenvolve atividade pedagógica como diretor artístico do departamento de Música Antiga da Oficina de Música de Curitiba e professor de flauta doce da Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp). Sua discografia apresenta mais de 20 CDs nacionais e internacionais. Em 2009, recebe o Prêmio Bravo! pelo CD Neukomm no Brasil, ao lado de Rosana Lanzelotte (1961).

Análise 

A partir dos anos 1960, a música barroca passa por um período de redescoberta. O movimento incial de músicos e pesquisadores holandeses e belgas alastra-se pela Europa e Américas. Essa corrente propõe que a música antiga não seja interpretada com o gosto e os trejeitos românticos, mas que seja fiel ao estilo de sua época. Os tratados de interpretação, acústica, luteria e outros tópicos musicais são recuperados, e a concepção da utilização de ornamentos, vibratos, afinação, dinâmica, dissonância e de temporalidade musical modificam-se profundamente. Manuscritos são redescobertos em bibliotecas e restaurados, e as partes instrumentais desaparecidas, reescritas de acordo com o estilo da época e do compositor. Vários compositores esquecidos ressurgem sob nova perspectiva, e a ideia de recriação desse universo sonoro transforma o cenário musical barroco em algo vivo e dinâmico.

Morando na Holanda em 1969, Kanji presencia esse ambiente e é influenciado por ele. Mesmo não se dedicando ao recenseamento e à edição de obras, sua experiência com os pioneiros dessa nova tendência europeia – como Gustav Leonhardt (1928-2012), Frans Brüggen, Frans Vester – proporciona-lhe conhecimento técnico e estético da arte barroca. Essa experiência sedimenta-se nas parcerias que realiza com artistas de música antiga ocidental na Europa e no Brasil. Sua preocupação com esse ideário reflete-se igualmente na arte da luteria. Desde que começa a lecionar em Haia, o desejo de aperfeiçoar a sonoridade de seu instrumento leva-o a aprender a construir flautas e a inaugurar um atelier, que dirige entre 1986 e 1995. É com esse espírito que, ao retornar ao Brasil, decide trabalhar com o resgate da produção musical brasileira. 

Com o apoio do governo, Kanji dirige o projeto História da Música Brasileira, assessorado pelo musicólogo Paulo Castagna (1959) e pelo historiador Ricardo Maranhão. É um trabalho rigoroso de pesquisa de repertório e práticas interpretativas. O projeto resulta em dois CDs e dez vídeos, abarcando o período que vai da música setecentista até o romantismo brasileiro das primeiras décadas do século XX. O projeto lança as bases em escala nacional para que o a música antiga no Brasil possa ser conhecida de modo mais amplo. Procura sensibilizar a sociedade para a importância da preservação do patrimônio histórico brasileiro, por meio da pesquisa, conservação e restauração de manuscritos e instrumentos musicais históricos. O projeto propõe também a redescoberta de compositores esquecidos nos arquivos nacionais. Essa atividade faz com que o intérprete, além da carreira como concertista internacional, tenha um papel decisivo no desenvolvimento da música antiga no Brasil, seja no registro fonográfico de repertório, seja na formação de instrumentistas e colaboração com a pesquisa musicológica. Além disso, atua para formar público em todo o país, por meio de concertos, masterclasses e programas educativos. O conjunto de todos esses polos distintos, por meio da experiência estética, aliada a uma visão fiel e rigorosa da época, converge para a reconstituição dos primórdios da identidade musical do Brasil. 

Outras informações de Ricardo Kanji:

  • Habilidades
    • Regente/maestro
    • Flautista

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • RICARDO Kanji. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa20866/ricardo-kanji>. Acesso em: 09 de Mai. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7