Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Walter Hugo Khouri

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 15.06.2019
21.10.1929 Brasil / São Paulo / São Paulo
27.06.2003 Brasil / São Paulo / São Paulo
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

As Cariocas [cartaz], 1966
Ziraldo, Walter Hugo Khouri
Desenho
72,00 cm x 88,00 cm

Walter Hugo Khouri (São Paulo, São Paulo, 1929 - idem 2003). Diretor, produtor, roteirista. Filho de libanês e mãe italiana, com a morte precoce do pai, vai morar no Rio de Janeiro com o avô materno, positivista, astrônomo, matemático e arquiteto, de quem mais tarde reconhece a influência. Ainda adolescente, deseja ser escritor, inclina-se para ...

Texto

Abrir módulo

Biografia

Walter Hugo Khouri (São Paulo, São Paulo, 1929 - idem 2003). Diretor, produtor, roteirista. Filho de libanês e mãe italiana, com a morte precoce do pai, vai morar no Rio de Janeiro com o avô materno, positivista, astrônomo, matemático e arquiteto, de quem mais tarde reconhece a influência. Ainda adolescente, deseja ser escritor, inclina-se para a música e a filosofia, assiste de seis a sete filmes por semana. De volta a São Paulo, ingressa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL/USP) (1949-1951), que não o conclui. Atuou na preparação de O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto (1906-1982), na Companhia Cinematográfica Vera Cruz, sem, entretanto, participar das filmagens. No mesmo ano, filma com dificuldades O Gigante de Pedra, que até 1954 não encontra circuito de exibição. Entre 1954 e 1955, trabalha na TV Record adaptando clássicos para o teleteatro da emissora. Publica em 1955, texto importante sobre Ingmar Bergman (1918-2007), o que lhe rende, até 1958, uma coluna especial no jornal O Estado de S.Paulo, na qual escreve sobre o cinema sueco. Volta a filmar em 1957 quando a Brasil Filmes, empresa que aproveita os estúdios e o maquinário da Vera Cruz em liquidação, o convida para realizar Estranho Encontro (1957), com custos reduzidos. A repercussão altamente positiva propicia dois filmes de encomenda: a co-produção Brasil/Estados Unidos - Fronteiras do Inferno (1958), e Na Garganta do Diabo (1959), este premiado de grande sucesso internacional. Cria, em 1963, uma empresa produtora, a Kamera Filmes, com a qual realiza A Ilha (1963), Noite Vazia (1964), O Corpo Ardente (1965) e As Amorosas (1968), os dois primeiros com excelente retorno financeiro. Dirige um episódio 2 do filme As Cariocas (1966). No mesmo ano, ao assumir com o irmão, William Khouri, o controle acionário da Companhia Vera Cruz, obtém o direito de usufruto do parque técnico da empresa. O regime de comodato possibilita inúmeras co-produções com companhias distribuidoras internacionais, entre as quais O Palácio dos Anjos (1970), por ele dirigido. A continuidade da empresa torna-se inviável, e ela retorna ao controle da instituição financeira responsável por sua liquidação. Durante os anos de 1970 até meados da década seguinte, respeitabilidade estética e resultados comerciais dão continuidade à sua carreira, por meio de recursos de produtores da Boca do Lixo (notadamente A. P. Galante e Alfredo Palácios), ou por financiamento da extinta Empresa Brasileira de Filmes S/A. (Embrafilme). Realiza no período: As Deusas (1972), O Último Êxtase (1973), O Anjo da Noite (1974), O Desejo (1975), Paixão e Sombras (1977), As Filhas do Fogo (1978), O Prisioneiro do Sexo (1979), Convite ao Prazer (1980), Eros, o deus do amor (1981), Amor, Estranho Amor (1982), Amor Voraz (1984) e Eu (1986). Com a extinção da Embrafilme, no início do Governo Fernando Collor de Melo, em 1990, busca uma co-produção Brasil/Itália e realiza Forever (1991),  uma tentativa sem sucesso de conquista do mercado internacional. As Feras (1995) é produzido por Aníbal Massaini Neto (1945), o lançamento tardio, em 2001, encontra um mercado exibidor adverso. Paixão Perdida (1999), seu último filme, reúne inúmeros patrocinadores e co-produtores, mas escasso retorno comercial.

Análise da trajetória

Um cinema de alta densidade filosófica e psicológica, formalista, obcecadamente repetitivo, sem estatura política, são os adjetivos que procuram definir, de maneira correta ou equivocada, a produção de Walter Hugo Khouri. É possível dividi-la em três fases. Na primeira, basicamente a dos anos 1950, o cineasta persegue um ideário estético, que vê concretizado na obra de Ingmar Bergman, embora aprecie com igual intensidade o cinema de Joseph von Sternberg (1894-1969), o filme de terror de Val Lewton (1904-1951) e o expressionismo alemão. O modo de produção da Companhia Cinematográfica Vera Cruz parece compatível com a busca de um estilo: qualidade técnica e domínio da narrativa, com o acréscimo de um tom universal na abordagem da condição humana e elaboração de uma "atmosfera" visual e sonora especificamente cinematográfica.

Estranho Encontro (1958) rearticula elementos melodramáticos de uma relação sadomasoquista à feição de alguns filmes "noir", e Na Garganta do Diabo (1959) alcança alta força poética na evocação de vida e morte sugerida pelas cataratas de Iguaçu. Críticos rigorosos como Gustavo Dahl (1938-2011) ou Paulo Emilio Salles Gomes (1916-1977) reconhecem, com ressalvas, a emergência de um grande criador.1 No entanto, ambos os filmes já nascem envelhecidos e não correspondem aos desejos de superação política e estética de grupos mais jovens. Khouri, na intensa politização que percorre os anos 1960, se coloca numa posição que não lhe desagrada - a de homem deslocado das movimentações nacionalistas e revolucionárias e que investe contra o "fanatismo" e a "predisposição patriótica de grupos ingênuos e mal informados"2.

Por conta de afirmações semelhantes e da favorável repercussão comercial de A Ilha (1963), Khouri se torna o representante da ala universalista, cujo projeto econômico e estético pressupõe indústria, internacionalização e qualidade técnico-artística tradicionais, sob o beneplácito de uma legislação protetora a ser desenhada sob a égide do regime militar. Tal projeto encontra resistências por parte do grupo do Cinema Novo3, distinto na sua concepção de um cinema independente e moderno.

Na prática, e de um ponto de vista distanciado da polarização ideológica da época, isso não significa total abstenção de diálogo. A produção de Khouri inaugura uma segunda fase, na qual preocupações mais maduras de ordem existencial se sobrepõem a um pano de fundo social. Noite Vazia (1964) e As Amorosas (1968) representam a alienação de extratos burgueses que se debatem nas amarras do cotidiano e que procuram fugir dessas limitações por meio do sexo, com o qual visam alcançar a liberdade e a transcendência espiritual. A cidade de São Paulo, como espaço determinante do desenvolvimento capitalista brasileiro, é usada como metáfora da opressão que se abate sobre os seres humanos e os desfigura a ponto de torná-los a materialização do cinismo e da prepotência.

A presença do sexo como elemento norteador das buscas existenciais de seus personagens é atrativo para as fontes de financiamento que o cinema paulista da Boca do Lixo oferece a partir dos anos 1970. Dentro desse período de crescentes ousadias na representação do erotismo, Khouri constrói a terceira fase de sua obra; alguns títulos aproximam-se da pornochanchada4, outros servem de subterfúgio comercial para dar vazão às suas premissas artísticas e temáticas.

Marcelo, o personagem criado em As Amorosas, reaparece em mais 8 filmes, alguns com grande sucesso de bilheteria, revelando diferentes etapas de sua vida, na maioria das quais a cidade de São Paulo recebe tratamento de quase personagem. Em Eros, o deus do amor (1981), por exemplo, adquire contornos edipianos, é uma "placenta gigantesca" dentro da qual protagonista e espaço ficam intimamente interligados pela indiferença, distância e egoísmo com que Marcelo trata o sexo oposto.

Em Convite ao Prazer (1980), quase em tom de comédia, ele é o garanhão cafajeste, cujo cinismo beira a crueldade ao envolver em suas artimanhas sexuais um dentista de classe média, que cai no ridículo ao tentar reproduzir, como as figuras popularescas da pornochanchada, o comportamento sexual do amigo rico. Já em Paixão e Sombras (1977), ao retratar um cineasta que vaga pelo cenário e pelos bastidores de seu próximo filme, o personagem parece fundir-se à personalidade do próprio Khouri, o que possibilita reproduzir e rebater as críticas que lhe são feitas, e evocar o estúdio (Vera Cruz) que acolhera as suas produções anteriores.

Essas três fases consolidam as características de um estilo khouriano: a dramatização de eventos psicológicos se junta a indagações filosóficas; espaços concentrados e limitadores se abrem para amplas e libertadoras paisagens naturais; o entrecho dramático, que recorre muitas vezes a frágeis diálogos com teor explicativo, cede lugar para a representação, com grande impacto visual e sonoro, de devaneios, sonhos ou do estado contemplativo das personagens.

O Corpo Ardente (1966), que o cineasta declara como obra predileta, pode ser o ponto máximo da concretização desse estilo. Quase um filme abstrato e, numa trama que se dissolve com a alternância de passado e presente, a música e as imagens transmitem, pelo ritmo, os sentimentos de uma burguesa entediada que observa na paisagem montanhosa e no cio de um cavalo selvagem os símbolos de seu anseio de ascese e de sustentação espiritual.

Alguns filmes escapam desse esquema classificatório. Mistério e suspense, experiências místicas e metafísicas, transmutações psicológicas e parapsicológicas, aparecem, de maneira mais explícita, em O Anjo da Noite (1974), As Deusas (1972) e Amor Voraz (1984). Para o psicanalista Flávio Fortes d'Andrea, ao analisar As Filhas do Fogo (1978),5 predomina no cineasta a vontade de exprimir o inconsciente humano ou de representar os sonhos por meio de equivalências encontradas na materialidade cinematográfica: a atemporalidade, a ilogicidade, as condensações e os deslocamentos.

Vertentes ainda não analisadas de uma extensa filmografia, sobre a qual o próprio cineasta declara: "Apenas fiz os filmes que senti vontade de fazer e que, evidentemente, de forma automática, devem ter refletido o ambiente em que vivo"6.

Notas

1 GOMES, Paulo Emílio Salles. Rascunhos e exercícios. O Estado de S. Paulo, 21 jun. 1958, Suplemento Literário; DAHL, Gustavo. Compreender Khouri e Importância de Khouri. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 28 e 21 mai. 1960. Suplemento Literário

2 KHOURI, Walter Hugo. La mia speranza nel cinema brasiliano. In: Il cinema brasiliano. Gênova: Silva Editore, 1961. p. 149-150

3 O Estado de S. Paulo, 22 abr. 1979

4 CINEMATECA BRASILEIRA. 30 anos de cinema paulista: 1950 - 1980. São Paulo, 1980, p. 33.

5 D´ANDREA, Flávio Fortes. A realidade interior por trás da superficialidade aparente. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 22 abr. 1979, Suplemento Cultural.

6 CINEMATECA BRASILEIRA. 30 anos de cinema paulista: 1950 - 1980. São Paulo, 1980, p. 33.

Obras 5

Abrir módulo

Fontes de pesquisa 21

Abrir módulo
  • AZEREDO, Ely. Dossiê Walter Hugo Khouri. Filme Cultura, Rio de Janeiro, v.3, n.12, maio-jun. 1969, p. 14-27.
  • AZEREDO, Ely. Walter Hugo Khouri. In: Il Cinema Brasiliano. Genova: Silva Editore, 1961. p. 98-108.
  • BERNARDET, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
  • BERNARDET, Jean-Claude. O autor no cinema: a política dos autores: França, Brasil, anos 50 e 60. São Paulo: Brasiliense/Edusp, 1994. p. 101-105.
  • D'ANDREA, Flávio Fortes. A realidade interior por trás da superficialidade aparente. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 22 abr. 1979. Suplemento Cultural.
  • DAHL, Gustavo. Compreender Khouri. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 28 mai. 1960. Suplemento Literário.
  • DAHL, Gustavo. Importância de Khouri. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 21 maio 1960. Suplemento Literário.
  • FERREIRA, Jairo. Cinema de invenção. São Paulo: Max Limonad, 1986.
  • FUNDAÇÃO CINEMATECA BRASILEIRA. 30 anos de cinema paulista: 1950-1980. São Paulo: Fundação Cinemateca Brasileira, 1980. (Série Cadernos da Cinemateca, v.4).
  • GOMES, Paulo Emilio Salles. Falar bem e mal de Khouri. In: ______. Paulo Emilio: um intelectual na linha de frente. São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 225-226. [Originalmente publicado em Brasil Urgente, São Paulo, n.3, 31 mar. 1963].
  • GOMES, Paulo Emílio Salles. Rascunhos e exercícios. In: ______. Crítica de cinema no Suplemento Literário. Rio de Janeiro: Paz e Terra/Embrafilme, 1982. p. 349-355. [Originalmente publicado em O Estado de S. Paulo, São Paulo, 21 jun. 1958. Suplemento Literário].
  • GONÇALVES FILHO, Antonio. A palavra náufraga: ensaios sobre cinema. São Paulo: Cosac Naify, 2001. p. 162-163.
  • KHOURI, Walter Hugo. La mia speranza nel cinema brasiliano. In: Il Cinema Brasiliano. Genova: Silva Editore, 1961. p. 141-151.
  • KHOURI, Walter Hugo. O cinema de Ingmar Bergman. In: FILMOTECA DO MAM. Ingmar Bergman. São Paulo, 1955. p. 2-14.
  • PFEIFFER, Maria Aparecida Rodrigues. Repensando Khouri. Cinemais, Rio de Janeiro, n.2, nov.-dez. 1996, p. 109-116.
  • PUCCI JUNIOR, Renato Luiz. O equilíbrio das estrelas: filosofia e imagens no cinema de Walter Hugo Khouri. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2001.
  • RAMOS, Fernão Pessoa; MIRANDA, Luiz Felipe (Orgs). Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2000. p. 310-311.
  • RAMOS, Fernão. A coisa da imagem e a preponderância do afeto. In: CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL. Retrospectiva Walter Hugo Khouri: meio século de cinema. São Paulo, 2001. p. 6-9.
  • RAMOS, Fernão. A coisa da imagem e a preponderância do afeto. In: CENTRO CULTURAL.
  • ROCHA, Glauber. Revisão crítica do cinema brasileiro. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. p. 117-120.
  • STIGGER, Helena. Marcelo: o imaginário burguês de Walter Hugo Khouri: comunicação e psicanálise no cinema. 2007. Dissertação (Mestrado) - Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS), 2007.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: