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Cinema

Hector Babenco

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 01.09.2021
07.02.1946 Argentina / Buenos Aires / Buenos Aires
13.07.2016 Brasil / São Paulo / São Paulo
Hector Eduardo Babenco (Buenos Aires, Argentina, 1946 - São Paulo, São Paulo, 2016). Diretor de cinema, roteirista e produtor. Transitando entre a aspereza do real e o lirismo da poesia, os filmes de Babenco caracterizam-se pelo rigor técnico do diretor, mantendo, contudo, uma linguagem acessível ao público.

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Hector Eduardo Babenco (Buenos Aires, Argentina, 1946 - São Paulo, São Paulo, 2016). Diretor de cinema, roteirista e produtor. Transitando entre a aspereza do real e o lirismo da poesia, os filmes de Babenco caracterizam-se pelo rigor técnico do diretor, mantendo, contudo, uma linguagem acessível ao público.

Nasce na Argentina e vive alguns anos na Europa, mas escolhe o Brasil para se estabelecer. Sem poder retornar ao seu país natal por ter se recusado a cumprir o serviço militar, em 1969, muda-se para São Paulo e, em 1977, naturaliza-se brasileiro. No início da carreira, faz parte de um projeto de cinema nacional distante do cinema novo. Naquele momento, o vigor do cinema no Brasil permite encenar uma história pessoal e, por meio dela, fazer um diagnóstico do país. De acordo com o crítico Ismail Xavier (1946), sem configurar um movimento, mas tentando assegurar novas maneiras de representar os problemas brasileiros, Babenco não repete o passado nem privilegia as orientações de um cinema autoral. O caminho é o retorno às fórmulas que garantam o acesso ao grande público1.

Em 1975, lança seu primeiro longa-metragem, O Rei da Noite, com o ator Paulo José (1937-2021) e a atriz Marília Pêra (1943-2015) nos papéis principais. No entanto, é seu segundo filme, Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia (1976), inspirado em fatos reais da corrupção policial no Brasil, que abre o caminho do sucesso a Babenco na América Latina, com mais de 5 milhões de espectadores.

Seu filme seguinte, Pixote, a Lei do Mais Fraco (1980), tem uma recepção ainda mais positiva. Considerado um dos filmes mais importantes da década de 1980, é eleito o melhor filme estrangeiro do ano pela Associação dos Críticos de Los Angeles e de Nova York. O longa conta a história de um menino de 11 anos, analfabeto, que não conhece os pais e vive entre celas de reformatórios e quartos sujos da periferia. Apesar da difícil realidade retratada, o filme é marcado também por certo lirismo ao mostrar o lado humano de seus personagens, que, num processo de descoberta, procuram entender seus espaços de sobrevivência.

Com um gênero erguido sobre as leis do realismo de cena, Babenco apresenta, nesses primeiros filmes, um panorama sobre o marginalismo urbano brasileiro. Liga-se às regras do espetáculo, priorizando o apelo popular, a narrativa bem dividida e uma atuação que não permite artificialismos. Ao mesmo tempo, usa um tom documental para estampar nas telas os problemas sociais vividos em grandes metrópoles.

O sucesso de Pixote confere ao diretor reconhecimento no mercado cinematográfico dos Estados Unidos, que o leva à direção do filme O Beijo da Mulher Aranha, em 1985, iniciando o cosmopolitismo em sua carreira. Rodada em São Paulo, a obra é uma coprodução americana, com participação de atores de diversas nacionalidades e diálogos em inglês. O filme conta a história de dois homens numa cela de prisão de um país da América do Sul.

Babenco não situa espaço e tempo da sua história, prefere compor um cenário sem contornos definidos, o que favorece a identificação em diferentes contextos nacionais. Realiza um filme universal, aberto a leituras heterogêneas. Em 1986, o longa é indicado ao Oscar de melhor diretor e rende ao ator americano William Hurt (1950) o Oscar e a Palma de Ouro do Festival de Cannes de melhor ator.

Tanto em seus filmes anteriores quanto em produções seguintes, como Ironweed (1987) e Brincando nos Campos do Senhor (1991), o trabalho com a caracterização de cada personagem reforça o realismo cênico nas obras de Babenco. Em Coração Iluminado (1998) – inspirado em lembranças de adolescência e rodado na Argentina – a atuação do elenco ganha destaque, principalmente a da atriz Maria Luiza Mendonça (1970), no papel de uma mulher neurótica e passional.

Em 2003, volta-se novamente para o Brasil marginalizado, lançando o filme Carandiru. Baseado no livro Estação Carandiru (1999), de Dráuzio Varella (1943), o longa mostra a chegada do médico ao complexo prisional do Carandiru, em São Paulo, para a realização de um programa, com os presos, de prevenção contra a aids. Nas visitas que o médico faz ao presídio, os detentos contam-lhe suas histórias sob um viés humanizado. A narrativa culmina na rebelião de 1992, quando mais de cem presos são mortos pela polícia, episódio conhecido como Massacre do Carandiru.

O filme denuncia um ambiente corrupto e superlotado na maior prisão da América Latina na época. Para isso, uma pesquisa histórica é realizada de maneira complementar, pois a realidade do que se mostra é peça imprescindível na trama. Nesse longa, o trabalho de direção de Babenco é mais reflexivo do que intuitivo, capaz de organizar a narrativa com uma linguagem verossímil e dinâmica. Sucesso de bilheteria, o filme lhe garante o prêmio de melhor diretor no Grande Prêmio Brasileiro de Cinema em 2003.

A obra de Babenco encerra-se com Meu Amigo Hindu (2016), uma autobiografia que rememora o tratamento contra o câncer linfático do diretor. Willem Dafoe (1955) interpreta Babenco, e, por meio dele, vê-se o mundo segundo o próprio diretor, numa reflexão sobre si mesmo.

Hector Babenco ocupa lugar de destaque no mercado cinematográfico brasileiro e mundial, por demonstrar possibilidades diversas da realidade cênica em seus filmes – ora mais psicológica, ora mais social. Utiliza as ferramentas do espetáculo para manter os canais de comunicação com o público, sem abrir mão de sua autoria.

Nota
1.
XAVIER, Ismail. A força e os limites da matriz melodramática. Revista USP, São Paulo, n. 19, 1993.

Obras 3

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Espetáculos 2

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Fontes de pesquisa 7

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  • BRAGANÇA, Felipe. Carandiru, de Hector Babenco. Contracampo, revista de cinema, Rio de Janeiro, 6 jul. 2006. Disponível em: < http://www.contracampo.com.br/criticas/carandiru.htm >. Acesso em: 3 ago. 2011.
  • DANIEL PIZA. Site Oficial. Disponível em: < http://www.danielpiza.com.br/interna.asp?texto=1555 >. Acesso em: 3 ago. 2011.
  • NAGIB, Lúcia. O cinema da retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: Editora 34, 2002.
  • NASCIMENTO, Hélio. Cinema Brasileiro. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1981. p. 87-91.
  • RAMOS, Fernão; MIRANDA, Luis Felipe. Enciclopédia de cinema brasileiro. São Paulo: Editora SENAC, 2ª Edição, 2004.
  • THOMASSEAU, Jean Marie. O Melodrama. São Paulo: Perspectiva, 2005.
  • XAVIER, Ismail. A força e os limites da matriz melodramática. Revista USP, São Paulo, n.19, 1993.

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